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Testemunha descreve desespero na tragédia de Linhares

“Eu passei pela rua e vi o Corpo de Bombeiros. Decidi parar e avistei um homem apenas de cueca, com as mãos queimadas e todo sujo de fumaça, gritando ...

Última atualização

Foto: Wilton Junior“Eu passei pela rua e vi o Corpo de Bombeiros. Decidi parar e avistei um homem apenas de cueca, com as mãos queimadas e todo sujo de fumaça, gritando por socorro no meio da rua. Com os pés sangrando, ele gritava que os filhos ainda estava dentro da casa e que o quarto estava pegando fogo. Falava: pelo amor de Deus, alguém salva os meus filhos”.

Foi assim que uma testemunha ocular, que não quis se identificar, começou a narrar o que viu nas três horas ficou do lado de fora da casa dos pastores George Alves e Juliana Salles, enquanto o fogo consumia o quarto dos pequenos Kauan, de 6 anos, e Joaquim, de 3, na madrugada do último sábado (21) em Linhares, no norte do Estado.

Em entrevista exclusiva para o Tribuna Online, a testemunha contou que, de fora da casa, não dava para ver labaredas altas, somente uma fumaça muito preta que saía pelas frestas da janela do quarto e algumas faíscas. O que chamou a sua atenção inicialmente foi o desespero do homem, que tentava entrar na casa em chamas a todo momento e tinha que ser contido pelos vizinhos.

“Cheguei mais perto e ouvi os bombeiros falarem que o fogo estava muito forte dentro do quarto e que já tinham entrado e saído várias vezes, mas que não achavam ninguém. Os bombeiros chegaram a cogitar que as crianças estivessem dentro de algum armário, entraram de novo e vasculharam o guarda-roupas do quarto, mas elas não estavam lá dentro. Então, mais uma vez, eles saíram sem encontrar as crianças”, disse.

A testemunha acredita que como os bombeiros não encontravam ninguém dentro da casa, passaram a duvidar que as crianças realmente estivessem lá. Nessa hora, segundo ela, o pastor George pediu que eles ligassem para a mulher dele, Juliana, que ela confirmaria que as crianças estavam mesmo sob a sua tutela.

“Eles conseguiram falar, mas a mulher atendia e desligava o telefone achando que era algum tipo de trote. Por fim, ela confirmou que os filhos estavam dentro da casa com o pai, então os bombeiros entraram mais uma vez e foi nessa hora que encontraram os corpos”, lembrou.

Emocionada, a testemunha disse que os bombeiros demoraram quase uma hora para dar a notícia ao pai. “Um deles se aproximou, colocou a suas mãos sobre os ombros dele e disse que tinham encontrado as duas crianças. O pai perguntou: se eles estão mortos ou vivos eu preciso saber, me fale! E o policial apenas abaixou a cabeça e balançou de um lado para o outro”.

Nessa hora, de acordo com ela, o pastor desabou e começou a gritar. “Ele ficou desesperado, avisou que não aceitava e que iria se matar. Começou a dizer que já tinha perdido uma filha e que nem ele e nem a mulher aguentariam perder mais dois”, recordou a testemunha.

Ela contou ainda que o pastor saiu correndo pela avenida e que as pessoas tiveram que ir atrás para segurá-lo. “Todo mundo sabia que ele queria se matar e a preocupação de quem estava lá era que ele realmente fizesse isso. Foi uma cena desesperadora”, avaliou.

Por fim, a testemunha relatou o que viu quando os policiais saíram da casa pela última vez. “Eles abriram apenas uma gaveta do rabecão e um deles saiu da casa com um pequeno saco preto nas mãos. Foi nessa hora que nos disseram que as duas crianças foram encontradas abraçadas”, lamentou.

“Passei lá na frente da casa ontem e o cheiro de queimado ainda está lá, pode ser sentido de longe. É uma tristeza sem fim”, encerrou a testemunha.

Cenas da tragédia

“Ele ficou uns 20 minutos de cueca, andando de um lado para outro e gritando. Uma vizinha ficou com pena de vê-lo daquele jeito e pegou uma roupa do marido dela para ele vestir. Alguém, que não sei quem foi, também trouxe uma faixa para cobrir os pés do pastor, que estavam sangrando”.

“O pastor contou que tinha ido à sorveteria com os filhos, que viram um filme, voltaram para casa e que ele deu banho nas crianças. Na hora de dormir, os dois pediram para dormir no quarto do casal, só que ele não deixou e disse para os dois irem para o quarto deles. A todo tempo dizia que se tivesse deixado, eles não estariam mortos. Ele se culpava muito”.

Mais informações no jornal A Tribuna deste sábado.

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