
Uma foto, feita por um aluno de pré-vestibular do Darwin, mostra o professor Gabriel Tebaldi dando aula fantasiado de Adolf Hitler, ditador responsável pelo extermínio de 6 milhões de judeus.
Tebaldi aparece sorrindo na imagem e utilizando um paletó com a suástica, principal símbolo do regime nazista. Com isso, a atitude acabou acendendo a discussão sobre a apologia ao nazismo.
Em nota, a Congregação Israelita Capixaba – representante da comunidade judaica no Estado – se manifestou com “preocupação, constrangimento e repúdio” a didática adotada pelo professor.
“Talvez esse professor desconheça os sentimentos que afloram em nossa comunidade reviver tais momentos tão cruéis. Nos machuca, abre feridas. Temos vários sobreviventes daquela época, inclusive residindo no Espírito Santo”, afirmou a congregação.
“Falar de uma figura nefasta como Adolf Hitler, homem que conduziu o maior massacre de seres humanos da humanidade, é de suma importância. Mas acreditamos que há outras formas de fazê-lo”, completou a congregação.
Para Leonardo Gama, que é vice-presidente da Casa de Oração Rechovot, o professor utilizou uma forma errada para abordar o assunto. “Em uma sala de aula, existem jovens que estão com a mentalidade em formação, então é tendencioso se manifestar dessa forma”, disse Gama.
A didática escolhida por Tebaldi também revoltou professores. “Precisamos ter cuidado com a metodologia utilizada para ministrar certos conteúdos. Eu mesma já precisei intervir com adolescentes que desenhavam suásticas e realizavam a famosa saudação a Hitler”, disse a professora de história e mestre em História Social pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Jacqueline Caminoti.
Já a professora Scheila Mattos foi além, considerando a postura antiética, infantil e irresponsável.
“Não precisa se fantasiar para entrar no contexto do assunto. Ele lida com adolescente, idade em que muitos gostam de transgredir. Não foi algo inocente da parte dele”, afirmou.
Advogado diz que ato pode ser apologia ao nazismo
A apologia ao nazismo é considerada crime no Brasil desde 1989, com pena de dois a cinco anos de prisão. A atitude do professor em se fantasiar de Adolf Hitler, no entanto, divide a opinião de especialistas na área jurídica.
Isso porque a lei não deixa explícita as situações onde a divulgação do regime ditatorial pode ser feita. O texto fala apenas em “Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular, símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”.
Para o advogado criminalista Flávio Fabiano, a fantasia, mesmo que não seja para divulgar opiniões favoráveis ao nazismo, pode se enquadrar no crime.
“Não é uma simples fantasia. Como ele é formador de opinião, ele não precisa nem expor sua ideia dessa forma, pois a roupa em si já traz o conceito e isso já pode ser considerado crime”, disse.
Fabiano explica que a regra geral da apologia é o “estímulo indireto”, o que poderia fazer o caso ser considerado crime.
“Pode ser caracterizado por divulgação do nazismo. É claro que tudo vai depender da forma com que o professor conduziu a aula, mas, mesmo que a vontade dele não tenha sido favorecer o nazismo, a divulgação da ideologia foi feita”, disse o advogado.
Já o advogado criminalista Rivelino Amaral acredita que não se trata de um crime.
“Não vejo como conduta de incitação ou de apologia. Foi uma forma de se expressar extremamente negativa e errada, mas não há crime. Cabe a instituição de ensino permitir ou não o posicionamento dessa forma”, disse.
Amaral afirmou que a apologia só se caracteriza se o professor defender o regime ou incentivar seus alunos a segui-lo de alguma forma.
“Se isso fosse feito, seria uma conduta criminosa. O que aconteceu foi uma infeliz manifestação, em uma cena triste e trágica, mas sem crime”, ressaltou.
Fantasia foi usada para explicar sobre a 2ª Guerra
O professor Gabriel Tebaldi explicou que a aula aconteceu na última sexta-feira e tinha um teor voltado para a Segunda Guerra e que há anos tem o costume de utilizar fantasias para explicar determinado assunto de história.
“Visando enriquecer o conteúdo, fiz uso de uma fantasia que tinha total vínculo com a matéria, no caso Adolf Hitler. Faço para melhorar a didática e atrair ainda mais a atenção. Faço uso de fantasias de soldado romano, ou até me caracterizo de monarca para tratar do absolutismo moderno”, explicou.
De acordo com Tebaldi, ele estava apenas retratando um personagem histórico. “Em nenhum momento eu tomei posição favorável ao personagem, e muito menos fiz difusão de ideias baseadas na superioridade de raças com incitamento à discriminação. É uma distorção muito grande”, complementou.
Os alunos do pré-vestibular, que estavam na sala de aula, segundo Tebaldi, chegaram a fazer uma carta rebatendo as acusações.
Nela está escrito a posição dos estudantes, na qual o professor Gabriel não desempenhou apologia, propaganda ou divulgação de ideologias nazistas em sala de aula e que o conteúdo era sobre as atrocidades.