Muito mais que uma forma de levar diversão às comunidades em que o tráfico atua, os bailes ilegais também rendem lucro para quem comanda a venda de drogas. Em alguns “Bailes do Mandela”, o lucro chega a R$ 40 mil por evento.
Segundo policiais militares que atuam na Grande Vitória, entre as drogas mais vendidas nos bailes estão a maconha e a cocaína, além da venda de lança-perfume e loló.
“Os bailes são promovidos pelo tráfico de drogas de cada bairro, que assim conseguem demonstrar o poder que têm perante a comunidade e ainda fazer com que a população fique ao seu lado e não faça denúncias”, afirmou um PM, que pediu sigilo sobre sua identidade.
Ele ainda revelou que o grande problema dos “Mandelas” é que, hoje, eles fortalecem ainda mais o tráfico de drogas onde acontecem. “Esse dinheiro que lucram é usado por traficantes para financiar armas e manter a compra de drogas. O lucro chega a R$ 40 mil por evento”, afirmou.
Outro militar revelou que alguns bailes chegam a ser mais “comerciais”, aceitando pessoas de fora, de bairros nobres e usuários de drogas, que lotam os eventos.
Já em outras regiões, acabam sendo mais fechados a pessoas da comunidade. “Em alguns bairros, os traficantes são mais agressivos com pessoas de fora, ostentando armas mesmo. Muitos distribuem bebidas, mas lucram muito, pois o forte nesses locais é a venda de drogas”.
Em alguns bairros de Vila Velha, por exemplo, as festas começam no meio da rua por volta da meia-noite e vão até de manhã, com estrutura montada até com tendas.
Ele destacou que, na maioria das vezes, é difícil para policiais que atuam nesses locais intervirem nesse tipo de evento, já que reúne milhares de pessoas e os criminosos estão armados no meio delas.
“Quando há uma ação antes de iniciar o baile, de forma preventiva, junto com outros órgãos e reforços, ainda é possível evitar que comecem. Mas eles mudam de lugar. Em alguns bairros, eles fazem em locais fechados e, quando a PM chega, dizem que é aniversário. É preciso um esforço maior do poder público para impedir esses bailes, tão comuns hoje”, disse um PM.
Estrutura é cara e tem equipamentos modernos
Um negócio lucrativo para todos os lados. De um lado, ganham os criminosos com a venda de drogas durante os bailes. Do outro, os envolvidos na preparação, divulgação e execução dos eventos, que levam equipamentos de última geração para compor toda a estrutura pedida pelos “patrões do show”.
A realização de um baile não sai por menos de R$ 15 mil, para quem contrata os serviços de artistas que cantam (MC) ou que tocam (DJ), que cobram a partir de R$ 1 mil, mais o equipamento de som, que pode variar de R$ 1.500 a R$ 2 mil, além de iluminação, que pode ser mais simples, por R$ 2 mil, ou especiais com laser e painéis de leds, por R$ 3 mil.
“Irmão, depende de quantas pessoas você vai colocar no local. Quanto maior, mais caro fica. Daí tem que ver como vai ser feito o baile, patrão”, diz um dos produtores de eventos — incluindo os bailes do “Mandela” —, que são realizados na Grande Vitória. Ele concordou em falar, sem se identificar, para não prejudicar os negócios.
Em um dos bailes realizados em Vitória, no Complexo da Penha, os profissionais que tocaram fizeram um desconto para se apresentar no evento e divulgar seu trabalho para as pessoas de outras comunidades que foram ao local.
“Lá (no evento), tinha gente de tudo quanto é lugar. Era a chance de todo mundo mostrar o trabalho, para tocar em outros locais”, revelou o produtor.
Os valores não foram revelados, mas tudo foi tratado com integrantes das gangues de um morro de Vitória e o desconto, só para aparecer no “espetáculo”, chegou, em alguns casos, a 50%.
“Se você não aparecer na comunidade, ninguém vai saber quem você é. Seu trabalho não vai ser visto. Não adianta fazer podcast (programa com músicas divulgadas via internet) porque nem todo mundo vai ouvir. No palco, você faz seu trabalho e todo mundo vai saber quem você é!”.
Perguntado se os artistas que se envolvem nesses bailes ilegais correm algum risco de serem presos ou terem suas carreiras prejudicadas, o produtor foi enfático: “Os caras (responsáveis pelo baile) desembolam tudo com os homens (liberação da festa nos órgãos competentes)”.
Essa liberação a qual ele se refere é feita utilizando argumentos falsos junto à PM, prefeitura e demais órgãos fiscalizadores de que o evento seria uma festa para a comunidade.

