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Luiz Trevisan

Mitos eleitorais

“Acabou aquele negócio de passeata, carreta, rodar bandeirinha nas ruas e semáforos. Comício de palanque, então, é coisa jurássica. Basta cair na ...

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“Acabou aquele negócio de passeata, carreta, rodar bandeirinha nas ruas e semáforos. Comício de palanque, então, é coisa jurássica. Basta cair na rede social e se movimentar bastante entre algumas verdades, meias-verdades e muitas mentiras”.

Além daqueles que não se reelegeram, estas eleições derrubaram alguns mitos. Convencionou-se, até então, que para vencer uma disputa eleitoral o candidato precisa ter uma boa base partidária, bom tempo na propaganda do horário eleitoral e um bom desempenho nos debates televisivos. Bolsonaro derrubou os três mitos, num tiro só. Não tinha nada disso, e ainda gerou uma onda que afogou outro mito, de que brasileiro é tudo bonzinho, acolhedor, pacífico. O tal homem cordial decifrado lá atrás por Sérgio Buarque de Holanda, não existe mais.

Parte considerável do eleitorado de Bolsonaro compartilha com ele dois sentimentos. O primeiro resume-se à rejeição ao PT. O segundo é a visão machista, racista e homofóbica do candidato. Pode até não falar nem se comportar como tal, mas se identifica com teorias de higienização de raças ou nas piadinhas maledicentes sobre negros, índios e gays. Às minorias, as batatas, pregam. Se bem que agora, no segundo turno, o candidato começou a amenizar o seu discurso extremista, já fala em tolerância, respeito à Constituição, etc. Certo, está de olho no eleitorado conservador que ficou à deriva quando ruiu o bloco do centrão.

Um dos maiores mitos da política nacional desde aquele famoso embate decisivo entre Lula e Collor, em 1989, é de que ir mal ou faltar ao debate de alguma emissora poderosa é fatal. Não é mais. E muito por culpa das emissoras, que criaram um modelo engessado, monótono, ultrapassado. Como costumam ser realizados tarde da noite, provocam sono. E não há, por exemplo, qualquer conectividade com as redes sociais.

Já as pesquisas eleitorais cumpriram uma trajetória de acertos e erros, pondo em xeque o conceito de quase infalíveis, com pouca margem de erro. Pois erraram feio nas eleições majoritárias do Rio e Minas, por exemplo. No Espírito Santo, às vésperas do pleito, o Ibope apontava reeleição dos senadores Magno Malta e Ricardo Ferraço, não mediu o avanço de Contarato e Do Val, ambos eleitos. Portanto, agora temos pesquisas de fato e fake pesquisas.

A propósito, o fenômeno das fake news, que é antigo – vem desde lá da Grécia – até bem pouco tempo tinha o nome de panfleto ou mensagem apócrifa. Desta vez foi utilizado à exaustão, principalmente por adeptos de Bolsonaro, candidato que apostou quase todas suas fichas nas redes sociais. Portanto, acabou aquele negócio de passeata, carreta, rodar bandeirinha nas ruas e semáforos. Comício de palanque, então, é coisa jurássica. Basta cair na rede social e, claro, se movimentar bastante entre algumas verdades, meias-verdades e muitas mentiras.

Entender de economia sinalizando equilíbrio, controle, desenvolvimento e empregos, foi outro mito de campanhas que agora beijou a lona. Segundo o IBGE, o País tem hoje cerca de 27 milhões entre desempregados e subempregos, mas isso passou quase ao largo da preocupação da maioria dos candidatos. Muitos preferiram discutir moral e costumes, e apontar medidas contra a crescente violência, porém nada que nos dê alguma segurança de fato. Já o tal peso da máquina oficial numa campanha se revelou peso-morto, no máximo, peso-pena. Meirelles teve menos de 2% dos votos.

No Estado, candidatos bem próximos do governador não lograram êxito.

Agora é o segundo turno presidencial disputado entre dois extremos e com novos mitos em cena. A imprensa internacional aponta risco de retrocesso em nossa jovem democracia. Melhor acreditar que entre os concorrentes, de algum modo, prevalecerá o resultado da pesquisa divulgada na véspera do primeiro turno apontando que 69% dos brasileiros querem democracia. De preferência sem ódio de um lado e com autocrítica do outro. Do contrário, só nos restará aderir à # Fica Temer, e com um pedido de desculpas. Somente agora descobrimos que nem tudo é culpa dele.

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