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Luiz Trevisan

Um governador popular

“Fica seu legado, sua história recheada de causos que dão mais do que um livro, uma coleção. Era dono de um comportamento midiático peculiar: filar ...

Ex-governador Gerson Camata ao lado de Luiz Trevisan

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Ex-governador Gerson Camata ao lado de Luiz Trevisan (Foto: Dayana Souza/ AT/ 18/08/2017)

“Fica seu legado, sua história recheada de causos que dão mais do que um livro, uma coleção. Era dono de um comportamento midiático peculiar: filar cigarro para puxar conversa”

Depois de um ano de tanto ódio e rancor destilado aqui e ali e amplificado pelas redes sociais, poderíamos muito bem terminar 2018 sem essa barbaridade – “vil e torpe”, na definição de uma juíza – cometida contra o ex-governador Gerson Camata bem no coração da Praia do Canto, bairro em que ele tanto gostava de percorrer seus cafés, bancas, bares, restaurantes, esquinas. Depois que deixou o Senado, após três mandatos, podia ser visto por ali com mais frequência. O café do Centro da Praia era um dos seus favoritos, para inevitável prosa de causos, de atualidades políticas e algumas piadas.

Sempre afável, esticava uma boa conversa. Andava pelo bairro como se fosse seu quintal, podia desfrutar ali do prestígio de ter sido um dos mais populares governadores da história do Espírito Santo. Quando virou senador, por precaução, não costumava viajar no mesmo avião com a mulher, a deputada federal Rita Camata. Quando junto iam os filhos, eram separados em diferentes aeronaves. Por triste ironia do destino, o precavido Camata acabaria alvejado num lugar onde se sentia em casa e que é considerado um dos bairros mais seguros de Vitória.

Seu governo, o primeiro eleito pelo voto direto após a ditadura militar – que indicava governadores biônicos até 1982 – deixou marcas, como a pavimentação de rodovias. Numa delas, ligando Venda Nova do Imigrante a Castelo, ele estava particularmente feliz, pois realizava antigo anseio de familiares e amigos de sua terra natal. Repórter pautado para a inauguração, disse ao governador que eu também nasci em Castelo, sendo depois criado em Cachoeiro. Sem cerimônia, Camata me convidou para ir ao seu lado no carro oficial que iria liderar a comitiva. Sentei ali me sentindo o máximo. E entramos em Castelo ao som de banda de música, estudantes e populares nas ruas agitando bandeirinhas, uma festa.

Em seu governo também houve um programa meio polêmico chamado Provárzeas, destinado a drenar áreas alagadas para ampliar fronteira agrícola em certas comunidades. Em alguns lugares deu certo, em outros, nem tanto, resultando em terrenos áridos ou com pouca contenção da água dos córregos e das chuvas. Volta e meia, eu costumava implicar um pouco com ele por causa desse programa. Mas ele nunca perdia o bom humor. Num dos últimos cafés juntos, eu falava do rolo que o escritor Ruy Castro havia se metido por escrever a biografia do Garrincha, o grande craque botafoguense. Filhas e herdeiros do jogador embananaram a publicação do livro “A Estrela Solitária”, exigiram royalties e tal.

Com seu sotaque italianinho característico, Camata logo espichou mais um causo do seu repertório inesgotável: durante a Copa do Mundo da Suécia, em 1958, Garrincha fazia muito sucesso com as suecas, e costumava fugir da concentração para umas noitadas. Certa ocasião, o preparador físico da seleção, Paulo Amaral, um armário de quase dois metros, saiu ao seu encalço. Numa das boates do circuito de Garrincha, Amaral entrou e ficou ali bisbilhotando, gente bebendo, mulheres fazendo strip-tease, e nada do Garrinha. Quando já ia saindo, ouviu a voz do próprio jogador, então escondido, que não se conteve e gritou: “Bonito, em seu Paulo? Até o senhor na zona…”

Agora, subitamente silenciado neste apagar de 2018, multidão de autoridades, lideranças e populares deram adeus a Gerson Camata. Fica seu legado, sua alegria inesquecível, sua história recheada de causos que dão mais do que um livro, uma coleção. Era dono de um comportamento midiático peculiar, que era filar cigarro para puxar conversa. Fica também a cruel constatação de que numa rara desavença ao longo da vida de homem público, ele tombou com um tiro que feriu, chocou e comove a todos. Sem ele, certamente, ficou triste desejar Feliz Ano Novo.

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