“Botão do pânico virou objeto de desejo diante da violência que se espalha, de casa para os ônibus, passa por repartições públicas, igrejas, locais aparentemente sagrados”
Se você pegar um ônibus para ir ao balneário de Manguinhos, na Serra, corre o risco de ser roubado duas vezes. Começa pelo trajeto, pois essa onda de assaltos aos coletivos está um horror, e já vai longe o tempo em que havia um código de honra entre a bandidagem para não roubar de trabalhadores, estudantes e donas de casa. Aí de quem desrespeitasse isso, ficava sujeito a uma surra de gato morto. Até o gato miar. Mas os tempos são outros e nem todos os gatos são pardos.
Voltando ao ônibus, em lá chegando – na pracinha, diante do mar – se você procurar por aquele painel com os dizeres “Amo Serra”, com um coração estilizado no meio, e ponto obrigatório para fotos e selfies, irá perceber que houve um sumiço. Da primeira vez, roubaram o coração do painel. A prefeitura foi lá e colocou um novo coração. Não durou muito, roubaram o coração outra vez. Quem sabe, obra de algum vândalo apaixonado irreverente e reincidente? O fato é que o painel desapareceu de lá e deixou a pracinha sem coração. Suponho que quem rouba corações, em tese, merece punição mais branda do que aquele que assalta os coletivos.
E quem rouba a fé alheia? É assim que devem estar se sentindo os fiéis que corriam atrás do médium João de Deus, quando ele aparecia para consultas em Campo Grande, Cariacica. Ou daqueles que seguiam em caravanas para Abadiânia em busca de cura e esperança. Assédio, mulheres abusadas, negociações nebulosas… Uma gigantesca bola de neve e que agora vai derretendo um mito espiritual como geleira sob sol tropical.
E segurança de fato nem mais nas igrejas, nos templos de fé. Houve um tempo em que bandidos e desajustados ao menos respeitavam os altares, os ritos. Afinal, quase todos foram batizados, inclusive os filhos da outra. Há quem diga que estamos importando o que há de pior dos EUA: atiradores suicidas, charlatões etc. Você vai à missa, corre o risco de ser abatido a tiros. E se sai em busca de cura espiritual, outros riscos.
Uma solução vislumbrada para mulheres vítimas de assédio e agressões, o botão de pânico virou objeto do desejo diante da violência que se espalha, de casa para os ônibus, passa pelas repartições públicas, igrejas e locais aparentemente sagrados. O difícil é saber quem controla o tal botão, tipo quem segura o segurança, quem vigia o vigilante, quem fiscaliza o fiscal? E como vem por aí um governo que ninguém sabe ao certo o que será, na falta de um botão talvez seja melhor deixar à mão aquela máscara do pânico inspirada no quadro “O Grito”, de Edvard Munch. O pintor alemão descreveu assim o motivo de sua inspiração.
Eu caminhava com dois amigos – o sol se pôs, o céu tornou-se vermelho-sangue – eu ressenti como que um sopro de melancolia. Parei, apoiei-me no muro, mortalmente fatigado; sobre a cidade e do fiorde, de um azul quase negro, planavam nuvens de sangue e línguas de fogo: meus amigos continuaram seu caminho – eu fiquei no lugar, tremendo de angústia. Parecia-me escutar o grito imenso, infinito, da natureza.
Porém, nem o pânico emoldurado escapou. Em 12 de fevereiro de 1994, “O Grito”, exposto na Galeria Nacional de Oslo, foi roubado em pleno dia, por um conjunto de ladrões que se deu ao trabalho de deixar uma mensagem que dizia: “Obrigado pela falta de segurança”. Três meses depois, os assaltantes pediram resgate ao governo norueguês, exigindo um milhão de dólares. Noruegueses recusaram a exigência, e pouco depois, em maio, o quadro foi recuperado numa ação conjunta da polícia local com a Scotland Yard.
Um final feliz, para quem teve a nata da inteligência e o empenho da polícia inglesa à disposição. Não é o nosso caso. E com o que temos à mão, convenhamos, estamos mais para “O Grito”. Então, se não há botão de pânico para todos, o jeito é cada um carregar sua máscara para alguma emergência. Como é época de Natal, deve rolar alguma promoção por aí.