Desde o início de agosto, recenseadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) têm visitado a casa de brasileiros, em todas as regiões do País, para atualizar informações sobre a população. Entre um domicílio e outro, eles se deparam com histórias inusitadas e outras desafiadoras.
O “gigante do Censo”, como é conhecido o quiroprata Agnaldo Guimarães dos Santos, de 45 anos, devido aos 2 metros e 15 centímetros de altura, acumula experiências desde que iniciou as entrevistas com moradores de um bairro de Vitória.
O recenseador conta que a história mais marcante foi a de uma família que não queria atender o portão. E ele encontrou uma solução para ser percebido.
“Eu passava em dias e horários diferentes, mas nunca atendiam. Certo dia, o dono da casa estava chegando em um carro escuro, fingiu não me ver e foi em direção à garagem da casa”, narrou.
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Ao perceber que essa seria a melhor oportunidade de coletar os dados, ele se posicionou no portão, com o suporte de um banco, que carrega com ele, e falou com o morador.
“O banquinho de 30 centímetros que carrego comigo foi a solução para ser percebido. Posicionei próximo ao portão e, por ser alto, solicitei as respostas por ali mesmo e o morador me respondeu”.
A moradora da Praia do Canto Gisele Kruger, que respondeu ao Censo, foi uma das entrevistadas pelo recenseador.
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O designer Nelson Torres, 47 anos, diz que uma experiência recorrente é o pedido de acrescentar animais de estimação como parte da família.
“Tem acontecido bastante! A família pede para colocar o gato ou cachorro como parente. Eu entendo o vínculo afetivo, mas explico que não é possível. Outra situação foi a de entregar uma marmita para chegar até o morador, que não queria me atender. Um entregador chegou e eu aproveitei para falar com o morador, oferecendo levar a comida em troca das respostas, assim ele não precisava descer”, contou.
Max Athayde Fraga, superintendente do IBGE no Espírito Santo, explica a importância do Censo. “O bom direcionamento dos recursos públicos é feito por meio de informações estatísticas confiáveis. O recenseamento permite acompanhar o retrato atual do Brasil”.
Outras histórias
Suspeita de golpe
A advogada Luciene Cunha, de 51 anos, conta que estava fazendo o Censo em seu condomínio quando bateu à porta de uma senhora, que questionou a chegada de outros dois recenseadores no mesmo dia.
O que parecia ser uma suspeita de golpe foi apenas um mal-entendido. Na verdade, outra pesquisa do IBGE acontecia ao mesmo tempo naquele dia.
Casa de traficante
Uma recenseadora, que preferiu não ser identificada, disse que chegou em um prédio pequeno para fazer o Censo e pediu a um rapaz para avisar aos moradores.
Como o portão ficou aberto, ela subiu e conseguiu coletar informações do primeiro andar, sendo informada de que não deveria ir aos andares posteriores. Depois, um morador contou que um traficante vivia no local.
Luta contra a esclerose e superação
O estudante de Engenharia Lucas Gabriel Henrique da Silva, de 27 anos, é um dos recenseadores do Censo 2022.
O trabalho no IBGE foi a forma encontrada por ele e pela esposa, Katiely Pereira, de manterem o orçamento familiar e, também, de realizar uma atividade diferente enquanto aguardam convocação para um concurso público.
Ainda em 2014, Lucas foi diagnosticado com esclerose múltipla, doença neurológica crônica que compromete a coordenação motora, além de lesões no cérebro.
“Tinha complicações na perna, mão e olho, tudo do lado direito do corpo. Minha mão não fechava e a vista estava prejudicada. Conversando com um neurologista, que eu consultava por ter Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), fiz vários exames e identificamos a esclerose múltipla”, conta.
Hoje, o quadro da doença está controlado, mas o processo vivenciado nos últimos anos foi marcado por muitas perdas.
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“A doença mostrou sua força quando tive o primeiro surto, que me deixou sem os movimentos do corpo. Precisei reaprender a fazer tudo, a ficar de pé, andar, escrever. Perdi todas as vagas nas faculdades que passei, terminei o meu noivado, tudo me levou à depressão”, revela.
Além de recenseador, o jovem é professor particular de Física, Matemática, Química e Biologia desde os 13 anos, quando teve a ideia de montar os próprios livros de estudo para o vestibular.
Mesmo com o contexto da doença, Lucas decidiu reescrever a sua história: atualmente, ele estuda Engenharia Sanitária e Ambiental no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (Ifes), tem um filho chamado Eduardo, de 1 ano, e faz o recenseamento para conseguir otimizar o orçamento familiar.