O direito à saúde é assegurado por lei, mas pacientes da rede pública revelam que têm enfrentado filas com espera de até três anos para conseguir cirurgias no Espírito Santo.
Em junho do ano passado, a reportagem mostrou o drama da cabeleireira Keyla Vasconcelos, 43 anos, que aguarda o sinal verde para a cirurgia do filho, o estudante Tiago Vasconcelos Oliveira, de 13 anos. Já são três anos de espera.
O adolescente possui um abscesso de septo nasal e necessita de uma cirurgia de correção. O procedimento chegou a ser marcado para o dia 11 de novembro de 2020, mas por falta de material foi cancelado e até agora não foi remarcado.
Frequentemente, os pais entram em contato com setores de saúde pública para o reagendamento, mas, segundo eles, a resposta é de que é preciso aguardar. “A nossa esperança que é ele consiga o quanto antes”, disse, a mãe.
Quem também está há mais de um ano aguardando um procedimento é a dona de casa Maria Edileusa dos Santos Alvarenga, 55.
“Fiz uma histerectomia total para retirada do útero (mioma) e, por conta disso, fiquei com sequelas no pós-cirúrgico. Devido ao tamanho do mioma minha bexiga caiu e hoje sofro com a incontinência urinária. É necessário corrigir esse problema. A cirurgia foi autorizada, mas estou aguardando vaga”.
Ela teme que a demora possa agravar a situação. “É penoso, humilhante ficar na espera. A gente paga impostos e só está pedindo o que é direito básico, que é a saúde”.
Para reduzir o sofrimento, pacientes saem em defesa de mutirões. Porém, o presidente da Associação Médica do Espírito Santo (AMES), Leonardo Lessa Arantes, diz que isso é uma medida que atende o acúmulo de cirurgias eletivas, gerados principalmente durante a pandemia, de forma emergencial. No entanto, não é o ideal.
“O ideal seria realizar um planejamento para atender essa demanda de maneira contínua para que a fila ficasse cada vez menor. Muitas vezes os pacientes passam um longo tempo aguardando e isso gera um desgaste psicológico e a demora muitas vezes pode agravar o estado de saúde do paciente”.
A cardiologista Katia Vasconcellos fala sobre a dificuldade de especialidades médicas na rede pública, como na cardiologia e oncologia. Isso, segundo ela, pode trazer consequências aos pacientes, que podem evoluir para perda da função dos órgãos e até morte.
“Medo de perder a visão”: Eliza Colodetti dos Santos dona de casa
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Há mais um ano aguardando uma consulta com especialista pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para assim conseguir dar entrada no processo de transplante de córnea, a dona de casa Eliza Colodetti dos Santos, 70 anos, já não aguenta mais esperar e teme por sua visão.
“Dei entrada no processo para a consulta em janeiro de 2021,mas até agora nada. Entreguei nas mãos de Deus”, disse a dona de casa, que conversou com a reportagem de A Tribuna, na tarde de ontem.
A Tribuna – A senhora depende dessa consulta para operar?
Eliza – Sim. Estou aguardando essa consulta com um especialista em oftalmologia desde o ano passado, quando eu deixei os documentos necessários para dar entrada no processo de marcação, na unidade de saúde do meu bairro. Sem a avaliação desse especialista, eu não consigo marcar a cirurgia.
Mas qual foi o médico que orientou a senhora sobre essa cirurgia?
Eu tinha um plano de saúde e por meio dele fiz a cirurgia de catarata em um dos olhos. O médico que me operou disse que eu tenho um problema nas córneas e que seria necessário uma cirurgia para resolver o problema. Eu acabei perdendo o meu plano de saúde e precisei procurar o SUS. Me consultei com o médico da unidade de saúde do meu bairro e ele também confirmou que eu teria de fazer esse transplante de córneas.
O que foi feito?
Eu dei entrada na papelada lá na unidade de saúde, solicitando uma consulta com especialista, porque esse médico que me atendeu antes era clínico geral.
Isso foi feito quando?
Em janeiro do ano passado e até agora nada. Eu preciso operar, mas dependo dessa avaliação/ consulta com esse especialista. Eu ligo para o posto, para os órgãos responsáveis e eles dizem que preciso aguardar.
Como se sente sabendo que precisa operar, mas que depende da liberação de vagas?
Com medo. Tenho medo de perder a visão. Eu ainda estou conseguindo enxergar, mas quando olho para chão, por exemplo, não tenho noção do degrau.
Aposentado precisa passar por duas operações
Na comunidade de Caco de Pote, interior de Alfredo Chaves, no Sul do Estado, o aposentado Ocalino Montavaneli, de 76 anos, espera desde o final de 2019 por duas cirurgias pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
Ele tem catarata em um dos olhos e precisa retirar uma hérnia abdominal, que pode a qualquer momento inflamar novamente e prejudicar sua qualidade de vida.
“Já fiz todos os exames para as cirurgias e até agora nada. Ninguém nos dá uma resposta. Não enxergo bem, enxergo tudo embaçado. Minha hérnia dói muito quando inflama e eu preciso tocar minha vida. Só nos resta esperar e ter fé”, afirmou.
Preocupado, o aposentado revelou que também sofre de outros problemas de saúde. “Sou cardíaco, tenho problema nas válvulas do coração e tomo remédio para isso. Além disso tudo, tenho de tomar outros medicamentos para a próstata, senão ela cresce”.
Muitas dores
Há mais de um ano, a aposentada Maria Vitória Holander Gabriel, de 76 anos, aguarda por uma cirurgia para ter de volta uma qualidade de vida.
“Depois de um tratamento contra câncer de mama, ela desenvolveu um problema em que a bexiga e o útero não têm mais sustentação, então não consegue andar e sente muitas dores. A cirurgia dela seria de urgência, mas ainda esperamos”, contou a filha de Vitória, a costureira Raquel Gabriel de Jesus, 44.