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EDUCAÇÃO

Psicopedagoga: “Não podemos criar filhos como se estivessem em hotel”

Profissional alerta que o excesso de mordomias dentro de casa durante a pandemia prejudicou o desenvolvimento das crianças

Psicopedagoga Sueli Conte disse que o maior desafio da escola é fazer com que os alunos tenham mais atenção

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Com o maior controle sob a pandemia da covid-19, as crianças e os adolescentes voltaram para as salas de aula. No entanto, a forma como alguns pais moldaram a nova realidade durante o isolamento social acabou criando desafios para o retorno presencial.

A psicopedagoga e especialista em Educação Sueli Conte alerta que o excesso de mordomias dentro de casa acabou prejudicando o desenvolvimento das crianças. 

“Os pais se viram no dilema: ‘ou eu olho meu filho ou eu trabalho’. O resultado foi uma falta de limites na rotina da criança”, afirmou. 

A Tribuna – O que seria “tratar os filhos com excesso de mordomia”?

Sueli Conte – Com a pandemia e com todo mundo ficando dentro de casa, os pais foram deixando os filhos soltos, sem limites ou regras preestabelecidas. Então eles começaram a fazer basicamente qualquer coisa que quisessem, podiam pegar o celular e ficar o dia inteiro, não tinham horário para dormir e nem para acordar. Isso é o que quero dizer com esse “excesso de mordomia”, porque não podemos criar filhos como se eles estivessem em um hotel cinco estrelas. 

E eu entendo, porque, durante a pandemia, os pais se viram no dilema: ‘ou eu olho meu filho ou eu trabalho’. Como muitos pais deram preferência ao home office, o resultado foi uma falta de limites na rotina da criança.

Como isso afeta a volta às aulas?

Agora com a volta às aulas, eles não sabem mais o que é ter uma rotina. Então muitas vezes não conseguem separar o horário do intervalo e o horário das aulas, ficam querendo sair da sala toda hora para ir ao banheiro ou beber água. 

Isso dificultou um pouco mais para a escola, que está tentando fazer com que eles sigam uma rotina.

Claro que eles podem ir ao banheiro, podem ir beber água, mas tem um momento específico para isso. Nós ainda não saímos da pandemia, todos trazem a própria garrafinha, mas eles acreditam que podem fazer o que quiserem. 

Quando falamos com os pais, eles afirmam que em casa o filho não faz isso e depois pedem uma solução. Por isso acho importante fazer um combinado com a mãe e com o pai, ou seja, trabalhar em conjunto com eles.

Quais podem ser as consequências de quando os pais tratam os filhos dessa forma?

Eles começam a acreditar que podem fazer o que quiserem, que mandam no mundo. Muitos pais começaram a deixar os filhos mais soltos e sem regras durante a pandemia porque não conseguiam conciliar o home office com as responsabilidades para com a família.

O que eu percebi é que os tutores não tinham noção de que o filho fazia um lanche da tarde na escola, por exemplo, então as crianças começaram a comer mais e serem mais impulsivas dentro de casa, tudo isso porque os responsáveis não delimitavam uma rotina. 

Essa permissividade que os pais deram aos filhos foi uma tática para não serem atrapalhados durante o trabalho. Mas isso virou uma bomba, e os filhos agora querem fazer o mesmo na escola.

Quais medidas os pais devem inserir na rotina dos filhos que podem ajudar com a disciplina?

Acredito que os pais devem olhar os filhos com mais atenção. Não deixar o computador no quarto, colocar um limite na quantidade de tempo que os filhos podem ficar ao celular, dormir mais cedo para quem estuda mais cedo e determinar um horário para acordar para quem estuda de tarde, por exemplo.

Mas não digo isso só para os momentos de lazer. Os responsáveis também precisam delimitar os horários para fazer a lição. Não é deixar a criança fazer o dever a tarde inteira. A gente sabe que ela vai ficar olhando para o teto boa parte desse tempo. Então é preciso colocar cerca de uma horinha para fazer a lição.

Para os pais que deixaram a rotina solta durante o isolamento, existem dicas de como voltar a impor essas regras sem criar conflitos?

Eu diria que eles não devem colocar muitos limites, devem ir com calma, sabe? Colocar apenas regras que eles podem e vão cobrar. 

O mesmo serve para os pais que nunca realmente apresentaram uma rotina com muita disciplina para os filhos. Eles devem colocar duas regras para começar. Se você disser que o seu filho vai ficar um mês sem celular porque fez algo de errado, você não vai conseguir cumprir. Então comece deixando apenas um dia para que ele perceba que as regras realmente se aplicam e que você está falando sério.

O ideal é que essa rotina com disciplina comece com os filhos ainda pequenos. Eles crescem aprendendo sobre o que é responsabilidade e vai ser muito mais fácil eles continuarem mantendo essa disciplina na vida adulta.

Por que o isolamento social fez com que as crianças e os adolescentes ficassem menos suscetíveis a seguir uma rotina preestabelecida? 

Em março de 2020, quando a quarentena foi estabelecida, todos acreditaram que seria por pouco tempo. Então as pessoas ficaram em casa, mas sem seguir muitas regras. Não tinha horário para dormir ou ficar no computador.

Mas o tempo foi sendo prolongado e, de repente, ninguém saía mais de casa e todos ficaram sem saber o que fazer.

Então acredito que, pelo fato de todos serem pegos de surpresa pela nova realidade, foi extremamente difícil manter uma rotina. Foram poucos os que realmente tentaram e conseguiram.

A falta de contato com outras pessoas também foi prejudicial para a rotina das crianças e dos adolescentes?

Muito. Temos crianças e adolescentes que precisam desse contato e, na época, não conseguíamos ajudar. Agora percebemos diversos alunos que estão mais estressados, desatentos, crianças que desenvolveram distúrbios de hiperatividade, gagueira, entre outros.

Qual é o maior desafio das escolas nessa volta às aulas presenciais?

O maior desafio é fazer com que os alunos tenham mais atenção e executem as tarefas. Tem alguns que acham que é só aparecer na escola. Mas é preciso lidar com cada estudante de maneira individual. Isso é muito importante. 

Todos eles passaram por uma situação delicada, mas foram situações diferentes. Alguns perderam pais, outros viram os pais perdendo o emprego e passarem dificuldade financeira, então eles trazem isso para a escola e precisamos estar atentos para ajudar.

Mas é importante ressaltar que esse desafio não é só da escola, pois também precisamos que os pais nos ajudem com esse processo. É importante compreender que a escola é uma aliada no processo de desenvolvimento dos filhos, mas essa responsabilidade é dos pais e precisa começar dentro de casa.


PERFIL


Sueli Conte

  • Sueli Conte é psicopedagoga e especialista em educação.
  • Também é mestre em neurociência, diretora-geral e mantenedora do Colégio Renovação.
  • Ela é autora do livro “Educando para a Vida no Pós-Pandemia”, pela editora Novo Século.
  • O livro traz orientações para pais e educadores sobre como melhor utilizar as adaptações necessárias durante a pandemia para uma educação mais inovadora, trabalhando conceitos socioemocionais.

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