Nos diálogos cotidianos das famílias, palavras em tom de crítica sobre as crianças são comuns. A educação deve abranger críticas, mas é preciso cuidado: às vezes, a forma de comunicar se torna uma ofensa. Especialistas apontam que algumas frases comuns da infância afetam o emocional até a fase adulta.
O psicólogo Gerson Abarca destaca que a comunicação é um mecanismo que pode acariciar e ferir e, por isso, é preciso cuidado com as frases utilizadas com as crianças.
“Ressaltar os maus hábitos pode virar uma estrutura de personalidade e afetar a vida adulta. Devemos associar as críticas com fatores de mudança para a criança sair da situação”.
O especialista evidencia, ainda, que os erros precisam ser apontados e fazem parte da formação dos pequenos. “Devemos dizer frases espontâneas, que representam a verdade sobre o filho. O positivo não está em frases de efeito. O amor é falar a verdade. Se as palavras não forem verdadeiras, terão pouco resultado na criança”.
O psicólogo clínico Heitor Croce explica que frases ofensivas podem afetar a autopercepção na vida adulta.
“As palavras e os atos são sementes que crescem nas crianças e guiam o desenvolvimento. Ao dizer que uma criança é feia, menos capaz ou desastrada, cria-se um adulto inseguro com a própria aparência e com sua capacidade de resolver as coisas”.
As críticas ofensivas podem causar problemas de autoestima e sustentar casos de depressão e de ansiedade, mas, de acordo com a psicóloga Monique Nogueira, o excesso de elogios também não é positivo.
“O excesso de elogios fortalece o anseio da busca pela aprovação e reconhecimento dos outros, levando, muitas vezes, à ansiedade, frustração e depressão. Devemos elogiar de forma saudável e consciente”.
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Cuidado e respeito na comunicação
A administradora de empresas Evelyn Claudino, 33 anos, e o representante comercial Edmar Claudino, 33, acreditam que as palavras constroem a autoestima e moldam as crianças e adolescentes. Por isso, costumam elogiar a filha Elisa Claudino, 5, de forma verdadeira e, ao mesmo tempo, criticá-la com respeito.
Evelyn conta que evita o tom ofensivo e que, com amor e cuidado na comunicação, educa a filha.
“Precisamos utilizar boas palavras para nos comunicarmos melhor com os filhos. Aqui em casa, não repetimos o que vivenciamos, algumas vezes, com as palavras e acreditamos que as frases fortalecem a autoestima dos filhos. Precisamos ter cuidado com o que dizemos”.
ALGUMAS DICAS
Frases positivas
- “Meu filho é criativo e tem muita energia para gastar”: cria uma associação positiva com o comportamento da criança.
- “Você tem notas baixas, mas tem potencial porque também tem notas altas”: é uma forma verdadeira de fazer uma crítica ao desempenho escolar da criança, sem ofendê-la.
- “Você é um ótimo irmão e amigo”: é um elogio que ressalta as habilidades sociais da criança.
- “Você tem qualidades do seu pai ou da sua mãe”: além de ajudar a construir a percepção dos pontos de destaque da criança, a frase os associam com um dos responsáveis e fortalece a imagem positiva sobre os pais.
- “Sou muito feliz em ter você como filho”: destaca a felicidade em ter e cuidar da criança.
- “Não é legal fazer isso”: é uma forma de apontar um erro, sem identificar a criança com palavras negativas, como “que feio”, por exemplo.
- “Você tem facilidade e vai conseguir aprender isso”: destaca as habilidades de aprendizado da criança como um encorajamento para o desenvolvimento de um projeto.
- “Aí é perigoso, cuidado”: é uma opção em vez de dizer que a criança pode se machucar em alguma atividade ou associar o lugar com algum tipo de monstro, por exemplo.
- “Eu te amo porque você é meu filho”: é uma forma de demonstrar que, apesar das diferenças e das críticas, o amor entre pai ou mãe com os filhos é um vínculo.
- “Você deve estar orgulhoso pelo seu progresso”: destaca a trajetória da criança até a conquista de algo.
Frases negativas
- “Você vai se machucar”: ao dizer que com certeza a criança irá se machucar ao explorar lugares, cria-se a crença de que riscos sempre levam ao pior resultado, produzindo adultos que não se arriscam e não se responsabilizam.
- “É feio fazer isso”: confunde-se a criança entre ser bom e ser bonito, o que reforça uma necessidade de beleza como sinônimo de bondade, como se o que é certo sempre fosse bonito.
- “Você não consegue”: impedir a criança de fazer atividades simples da vida diária dizendo “você não consegue” convence a criança de que ela não tem as mesmas capacidades dos demais, reforçando sua inferioridade e ensinando que sempre precisará de alguém.
- “Deixe de ser burro”: esse tipo de crítica pode caracterizar a criança e, inclusive, é uma ofensa.
- “Nossa, meu filho é hiperativo”: é um conceito socialmente negativo, como se a criança tivesse um problema a ser tratado. Hiperatividade é um diagnóstico.
- “Você parece com seu pai (ou sua mãe) nisso”: quando feito em tom de crítica, constrói-se uma imagem negativa sobre o pai ou a mãe e, ainda, sobre a própria criança.
- “Você é preguiçoso”: é outro tipo de crítica que caracteriza e ofende a criança.
- “Você devia ser como o seu irmão”: críticas comparativas não são saudáveis e devem ser evitadas.
- “Você é muito rebelde”: o certo seria pontuar que a criança precisa melhorar e apontar caminhos, não apenas criticar.
Fonte: Psicólogos consultados.