Com a voz de quem ainda não sabe ao certo o que fazer e muito preocupada com sua própria segurança, uma universitária de 22 anos precisou mudar toda a sua rotina para não entrar para a estatística de mulheres mortas por seus ex-companheiros.
Ela, que viveu um relacionamento conturbado por cinco anos, vive sob constantes perseguições e ameaças, feitas pelo ex-namorado, um jovem de 22 anos.
“Ele manda mensagem pelas redes sociais me ameaçando”, disse a jovem, que conversou com a reportagem de A Tribuna, mas não será identificada para não sofrer represálias.
A Tribuna- Vocês moravam juntos?
Universitária- Não. A gente namorou por cinco anos.
E quem terminou?
Ele era possessivo. Era um relacionamento abusivo. Eu sempre terminava e voltava, até que eu disse “chega”. Mas ele não está aceitando o término.
Ele está te perseguindo?
Sim. Ele descobriu que eu estava bem e com outra pessoa. Desde então, não me deixa em paz. Está me enviando mensagens pelas redes sociais. Me enviou áudios dizendo que ia me colocar na vala e até ameaçando a minha família.
Procurou a polícia?
Sim. Eu registrei um boletim e pedi a medida protetiva, só que ele continua me perseguindo e a sensação que tenho é que ninguém vai fazer nada por mim. Depois dessas ameaças, eu fui várias vezes na delegacia, levei as provas, mas até hoje a prisão dele não foi solicitada.
Mesmo com a medida protetiva, ele ainda continua te ameaçando?
Isso. Ele me mandou mensagem na terça-feira) e já havia mandado na segunda-feira. Não se intimidou com nada.
Qual o seu sentimento hoje?
De medo, totalmente de medo. Eu não sei o que ele pode fazer comigo, com a minha família.
Precisou mudar sua rotina por conta dele?
Mudei todos os meus horários de saída e volta de casa, os trajetos, tudo. Não ando mais sozinha. Eu me sinto revoltada pela justiça, porque ele continua solto e sei que pode fazer algo comigo ou com a minha família.
Você se arrepende ter acionado a polícia?
Não. Se eu não fizesse isso e se ele fizer algo comigo, nem saberiam das coisas que eu passei com ele. Não me arrependo de ter denunciado e acho que todas as mulheres, que são vítimas de seus namorados, deveriam fazer o mesmo. Sei que essa é a parte mais difícil, mas precisamos ser fortes e vencer nossos medos.
E o que você espera daqui para frente?
Que ele seja preso. Eu não tenho paz. Ando sempre preocupada, sem saber o que fazer. Eu não sei do que ele é capaz. Então, queria que fosse preso, para, pelo menos, eu poder seguir a minha vida tranquila, sem me preocupar com a minha segurança. É só isso que quero.
TIPOS DE VIOLÊNCIA
– Física
É a agressão ao corpo, que pode ser feita por meio de socos, empurrões, beliscões, mordidas, chutes ou pelo uso de armas.
– Psicológica
É a agressão verbal, em forma de ameaças e também humilhação.
– Moral
É a utilização de palavras que ofendem, mentem e desqualificam a vítima.
– Sexual
É a prática do sexo sem consentimento, por meio do uso da força e/ou sob ameaça, mesmo quando ocorre com o seu próprio parceiro.
– Patrimonial
É a que provoca danos, perda ou retenção de bens.
– Violência doméstica
É qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause morte, lesão, sofrimento físico, moral, sexual e patrimonial.
Pode ocorrer em casa, onde pessoas dividem o mesmo espaço, ou não. Pode envolver pais, mães, irmãos, irmãs, padrastos, madrastas, marido, mulher, companheiros e companheiras, mesmo que eles não dividam a mesma casa com a vítima.
Cadeia para 114 por ameaçar, agredir e matar mulheres
Pelo menos 114 homens estão presos em unidades prisionais do Estado, após ameaçar, agredir ou até mesmo matar suas mulheres e ex-mulheres. Os dados são da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus). Desse número, o que mais chama atenção são os casos dos acusados de feminicídios: 77 presos. Advogada e fundadora do movimento Envolva-Se, que luta pelos direitos das mulheres, Edilamara Rangel lembrou das dificuldades enfrentadas pelas vítimas para conseguir se manter longe dos agressores. “Não temos estrutura policial necessária, que seriam as patrulhas para dar suporte a essas mulheres. O agressor, ao ver essas falhas, se acha no direito de ir atrás da mulher e cometer as agressões”, disse.