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ENTREVISTA

“Só envelhece quem perde a curiosidade”

Especialista afirma que quem é curioso, além de acumular informações para se tornar criativo, conserva a juventude

Última atualização

A curiosidade é o segredo para manter a jovialidade do cérebro! Quem é curioso, além de acumular informações para se tornar criativo, conserva a  juventude. É o que explica o  publicitário, neuropsicólogo e professor Henrique Szklo. 

Estudioso e escritor  sobre criatividade e  humor, ele ressalta que só ter acesso a informações não basta, é preciso acumular e ser curioso.

A Tribuna – O que é a criatividade e a curiosidade?

Henrique Szklo – A criatividade é uma habilidade natural, de qualquer animal. Para a sobrevivência, ele precisa saber resolver problemas inéditos. 

Os animais têm uma limitação nessa área, mas são capazes disso. Já no ser humano, como o cérebro evoluiu muito, a  capacidade de resolver problemas  inéditos cresceu na mesma proporção. 

Fomos criando ferramentas para solucionar os problemas que enfrentamos ao longo da história. Foi a criatividade que  descolou a gente do  mundo animal. 

E a curiosidade?

Assim como a criatividade, a curiosidade também é uma ferramenta. Não há nada na natureza que seja aleatório. 

A curiosidade é a forma que todos os animais têm para acumular informações.

Somos induzidos a sempre buscar informações novas porque, quanto mais informações tivermos, maior é a quantidade de conexões cerebrais que podemos fazer para solucionar eventuais problemas que possamos enfrentar. 

Por isso, à medida que envelhecemos, perdemos a curiosidade naturalmente.

Porque, do ponto de vista da seleção natural, quando o indivíduo está mais idoso, já não tem mais uma função  relevante. Do ponto de vista da evolução, né? Vai perdendo a capacidade de acumular informação. 

Mas digo sempre que só envelhece quem perde a curiosidade! Minha mãe, por exemplo, fez 94 anos na sexta-feira, é sã e está sempre muito curiosa ainda, gosta de estudar, de conhecer coisas. E tem gente de 50 anos que já está velho. 

Então, a curiosidade também mede o nível de jovialidade da pessoa. Quem perde a curiosidade acaba envelhecendo,  não pela idade,  não é cronológico. Ela perde aquele brilho nos olhos, eles vão ficando opacos. Então, sabemos que a pessoa está envelhecendo. 

Tem como reverter esse envelhecimento? Se tornar curioso?

Na verdade não sei, porque é uma coisa tão instintiva. Talvez seja buscar coisas interessantes para a pessoa.

Mas confesso que não sei se isso é suficiente. Pode ser um bom começo buscar algum assunto que te interesse,  procurar ler, ver alguma coisa na internet.

Se a curiosidade está relacionada com o acúmulo de informações, estamos mais curiosos agora que temos mais acesso à informações com a internet?

Acho que falou  a palavra-chave: acesso. As pessoas não necessariamente estão acumulando informações, elas têm acesso à informação. 

Tudo se procura no Google, não necessariamente, a pessoa sabe aquilo. Ela não  guardou aquela informação, não tem, de fato, aquele conhecimento. 

Estar disponível, obviamente, facilita a curiosidade. Temos mais acesso e a capacidade de suprir essa curiosidade.

Porque para não achar alguma coisa na internet só há duas opções: ou não existe ou não está sabendo procurar. Na internet se tem de tudo, sobre qualquer assunto e de graça.

Mas não acho que a curiosidade necessariamente aumentou. O que a gente consegue hoje é suprir a curiosidade com mais facilidade. 

O brasileiro está bem-humorado?

O humor do brasileiro está péssimo! O fanatismo talvez seja o maior inimigo do humor. Quando se é fanático, você tem  crenças que não podem sequer ser questionadas.

E o humor é basicamente questionamento das crenças e dogmas,  tirar sarro daquilo que as pessoas acreditam. 

Quando, aparentemente, metade da população brasileira é fanática, se perde o olhar para as coisas com leveza.

Eu não confio em quem não tem senso de humor. Temos de ter a capacidade de rir da gente mesmo. Quem se leva muito a sério não aceita crítica. 

Ninguém gosta de crítica, mas a pessoa que tem senso de humor vai entender que é  uma brincadeira, que a questão não é atacar, mas sim deixar mais leve.

Não há nada que não possa ser criticado. Porque a crítica, não necessariamente, é a  vontade de destruir e, sim, de questionar. 


Quem é Henrique Szklo

– Graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP. 

– Pós-graduado em Neuropsicologia pela FAMEESP. 

– Exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. 

– É pesquisador da criatividade e do comportamento humano utilizando uma abordagem neuropsicológica do assunto.

– Escritor, professor, designer gráfico e  palestrante. Tem oito livros publicados sobre humor e criatividade.

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