- Vitória, ES 21°C

Vitória 21°C

Publicidade: Combate os sintomas da gripe
ENTREVISTA

“Está cada vez mais difícil detectar uma mentira”, avalia psicólogo

Especialista explica que a mentira, hoje chamada de fake news, a cada ano ganha ares tecnológicos e vira um desafio

“Está cada vez mais difícil detectar uma mentira”, avalia psicólogo
-

Última atualização

 













|













Texto Auxiliar:
Alinhamento Texto Auxiliar:
Link Externo:
Alinhar à esquerda:
Alinhar à direita:
Alinhar ao centro:
Fullscreen:
Fullscreen Exit:
Conteúdo Sensível:
Estilo:



 

Historiadores não sabem ao certo quando ela surgiu. O fato – que pode ser questionado –  é que a “construção de uma falsa realidade”, como definem alguns dicionários, encanta a humanidade há séculos. 

A mentira a cada ano ganha ares tecnológicos e muda de nome. Hoje pode ser chamada de fake news, deepface, entre outros. 

Com tantas mudanças e efeitos, identificar uma mentira está se tornando um grande desafio até mesmo para um especialista no assunto, como o psicólogo João Oliveira. 

Especialista e estudioso dos sinais da mentira e  mestre em Cognição e Linguagem, o psicólogo, que vai ministrar curso de Análise Comportamental na Grande Vitória,   afirma que o limite entre verdade e mentira está cada vez menor.   

 A Tribuna – Como podemos definir a mentira hoje?

 João  Oliveira – Atualmente,  com a tecnologia,  o limiar entre a verdade e a mentira está muito confuso. Não  é como antigamente que uma mentira descarada era facilmente detectada. Está cada vez mais difícil identificar uma mentira. 

O conceito mudou. Hoje, a  verdade é aquilo que ainda não foi provado ser mentira. As pessoas aceitam praticamente tudo como verdade. Caso alguém consiga provar que aquilo é uma mentira,  é possível que as pessoas tenham a percepção de que foram enganadas. Caso contrário, elas vão encontrar recursos, justificativas,  embasamentos,  para, mesmo diante de uma  elaborada  mentira, justificarem isso como verdade.

 Ou seja, as pessoas estão crédulas de tudo que recebem midiaticamente nos grupos, nas páginas, nas redes sociais. 

O que tem dificultado essa percepção da mentira?

No momento,  as pessoas não dispõe,  ou não querem dispor,  de tempo para análise. Notícias com mais de quinze linhas não são lidas. Áudios com mais de um minuto não são ouvidos. As pessoas querem consumir tudo muito rapidamente em doses  pontuais e finalizar por ali sem aprofundamento, sem  busca,  comprovações, certificações das informações adquiridas. É tudo muito rápido. 

Por isso, tudo é assimilado como verdade, por falta da análise. Isso depende de tempo que ninguém tem  ou quer dispor.

A mentira se tornou algo socialmente aceito?

Temos vários tipos de mentiras. Um tipo que é aceito socialmente, como o nome mesmo diz, é a mentira social. Aquela que a gente fala apenas para agradar.  A mentira social  é natural.

Agora,  o enorme movimento das  fake news, que está acontecendo agora, fez com que o pecado se tornasse mais aceito. 

Como o volume é muito grande, as pessoas não estão dando mais a importância como ou davam no passado. Hoje,  uma fake news é só mais uma entre tantas outras. Já não existe mais aquele impacto emocional de uma mentira deslavada. Parece que é mentira, faz parte do mecanismo da sociedade. Não é que ela seja aceita, ela é tolerada de uma forma mais branda do que era no passado. 

O grande problema é que as fake news  não são feitas somente de coisas inventadas. Usam uma pitada de verdade,  um fato que pode inclusive ser verificado, e o tempero é que é mentira.  Os ingredientes apimentados são  realmente os que  causam o dano. Então, é assim que é constituída a mentira  nesse momento,  midiaticamente. 

Quais os principais sinais de que estamos diante de um mentiroso ou uma mentira?

Em uma análise do comportamento não existem sinais definitivos, eles vão depender da motivação da mentira. Então, não existe isso de como eu identifico o mentiroso. Primeiro,  tem que saber qual a motivação da mentira.

É um trabalho que precisa de técnica, precisa de uma abordagem  protocolar e para isso, é necessário um investimento e aprendizado. Não é simples.

Quando se trata de um fake news que recebemos, uma áudio, uma coisa é a questionar fonte, se perguntar de onde veio a informação. Verifique em fontes confiáveis Porque há  também  a fake news bem plantada que  vai em oito, nove blogs para que quando a pessoa busque e encontre as referências, geralmente são sem  base, não vem de um grande portal jornalístico,  de uma grande emissora, são blogs que qualquer pessoa pode montar em dois minutos. Então, é complicado!

Quanto ao vídeo, temos o deepface, que é uma nova tecnologia que faz o sincronismo do rosto, que deixa ainda mais complicado identificar. É um momento de perda de abismo. Talvez seja a próxima fronteira  ser vencida.

A mentira pode ser relativizada? Pode haver mais de uma verdade?

Sempre!  Existem versões da verdade. Dependendo do ponto de vista e da relação que a pessoa tem com o fato pode ser verdade ou  mentira. Não existe uma verdade absoluta. Sempre a verdade pode ser alterada. Está aí os livros de História,  onde nós vemos os fatos que são escrito pós-fatos por alguém que tem uma interpretação do que aconteceu.  

Então, uma mentira pode ser uma verdade que não foi totalmente esclarecida. É uma visão deturpada. 

Em um país polarizado como o nosso é muito complexo. As pessoas confundem verdades e mentiras. Então,  fato é que  precisaríamos de uma melhor educação entre as pessoas para uma análise mais  imparcial. O que não é possível porque as pessoas escolhem partes do universo de informações  para colocarem com justificativa de suas ideias. São pequenas verdades que são escolhidas para justificar provavelmente uma grande farsa.

O mais importante é que as pessoas entendam que não devem aceitar nenhuma informação, nem mesmo essa que estou passando agora, de pronto como verdade absoluta. Cada um deve buscar a sua, questionar.  A boca fala o que quer. É preciso ter mais olhos que ouvidos para identificar a mentira ou verdade.


Quem é 


João Batista de Oliveira Filho

  • Psicólogo clínico.
  • Mestre em Cognição e Linguagem pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
  • Ministra cursos e treinamentos direcionados a Análise Comportamental, Hipnose Clínica e Liderança.
  • Diretor do Instituto de Psicologia Ser e Crescer.
  • Autor dos livros: Análise Comportamental: Relacionamento em Crise;  Mente Humana; A Importância dos Sonhos; Ativando o Cérebro Para Provas e Concursos, e outros.

Mais Lidas

Ver tudo ›