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“Estamos estragando nossa saúde cada vez mais cedo”, diz especialista

Uso excessivo de dispositivos eletrônicos e a falta de equilíbrio emocional têm levado jovens e adolescentes à vida sedentária

Bianca Vilela: “A desculpa da falta de tempo já está fora de moda”

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Em uma sociedade em constante transformação, é inegável que as facilidades da vida moderna têm contribuído para uma mudança radical nos hábitos diários, se comparados a gerações anteriores.  

Uso excessivo de dispositivos eletrônicos,  preferência por atividades com pouco movimento e  falta de equilíbrio emocional têm levado adolescentes e jovens a uma preocupante condição: a vida sedentária.

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A mestre em Fisiologia do Exercício Bianca Vilela alerta para essa preocupante constatação de que os maus hábitos  do dia a dia estão comprometendo a saúde da população cada vez mais cedo, já na adolescência com a perda muscular, o que levará a uma velhice precoce e fragilizada. 

A Tribuna – Em suas publicações, você diz que estamos tendo perdas musculares cada vez mais cedo,  já na adolescência. Por que isso está acontecendo?

Bianca Vilela –  Exatamente! Por uma questão,  principalmente,  de alimentação e sedentarismo. Os jovens estão com menos massa muscular do que deveriam estar. 

A flor da idade, como a própria expressão já diz, é a fase mais dourada da saúde. Mas, mesmo tendo tudo a favor deles, esses jovens estão degradando a saúde. 

Sabemos que a partir dos 30 anos   começamos a  perder alguns hormônios que são estratégicos para a manutenção dessa massa muscular, como a testosterona. 

Outro que é secretado durante o sono é o hormônio do crescimento. Mas, como os jovens estão dormindo muito mal, isso também causa esse déficit e perda muscular. 

Ainda há um terceiro, que é a insulina. Ela não pode ficar muito alta ao longo do dia ou  dando grandes picos. Mas, com a alimentação rica em açúcar, a insulina tem muitos picos ao longo  de todo o dia. 

Com esse tipo de rotina, esses três hormônios estão totalmente bagunçados e isso vai favorecer a uma perda de massa muscular. 

Quando envelhecemos, há uma doença chamada sarcopenia, que é a perda de massa muscular, e é considerada uma doença do idoso. Mas nem mesmo eles deveriam ter sarcopenia. 

Se tiver cuidado com a saúde ao longo da vida, como os idosos das chamadas Blue Zones (zonas azuis), consegue chegar aos 90 anos  muito bem. 

As Blue Zones são cinco regiões do mundo que têm as pessoas mais longevas. Então,  podemos ver em Okinawa, no Japão, por exemplo, um idoso de 95 anos andando de bicicleta. Isso poderia ser a nossa rotina, mas infelizmente não é, por causa do nosso estilo de vida. 

Quais são  os principais  erros nesse estilo de vida atual?

As pessoas estão muito em defesa do que faz mal, como os doces e bebidas alcoólicas, por exemplo. Depois da pandemia, esse alcoolismo social, que  já era um problema antes por ser tão aceito,  tornou-se mais evidente e muito mais robusto.  

Já o consumo de  álcool, as gorduras industrializadas, o açúcar e o sedentarismo vão favorecer à perda de massa muscular e óssea em qualquer idade. 

Há muitos advogados dos maus hábitos? As pessoas estão inventando desculpas demais?

Exatamente, a gente passa pano na nossa própria cabeça. Para mudar alguma coisa, precisamos de uma palavra mágica que é o esforço, que só vamos ter se sairmos da zona de conforto.

Faço muitas palestras e, sempre quando abro para perguntas, as pessoas,  muitas vezes antes  do questionamento, já se posicionam como um advogado do sedentarismo, do açúcar, da bebida alcoólica. 

São sempre aquelas frases: “açúcar é vida”, “meu vinho é a minha terapia”. Olha o perigo! As pessoas associam a bebida alcoólica,  que é categorizada como uma droga lícita, a um patamar de cura, terapia.

Percebo também que as pessoas têm uma forma de pensar antiga. Brinco que Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil há mais de 500 anos, mas a nossa atitude é muito parecida com a dele. 

Mas, com um estilo de vida menos ativo, será que faz sentido consumir tanto açúcar? Não! Porque já não há mais aquele gasto calórico que minha avó, que ficava em pé o dia inteiro limpando a casa,  ou o meu avô, que ia de bicicleta para o trabalho, tinham. 

Então, é preciso mudar a forma de pensar. Os tempos mudam e os nossos pensamentos e atitudes também precisam acompanhar essa evolução. Estamos estragando  nossa saúde cada vez mais cedo. 

Mas não há como ter um equilíbrio?

Precisamos entender que a palavra equilíbrio tem de ser usada como está no dicionário. A gente acaba usando essa palavra de uma forma equivocada.

Não há como ter equilíbrio se começa a beber na terça-feira e só para no domingo. Isso é equilíbrio? Comer doce, açúcar todo dia, três vezes por dia. Isso é equilíbrio?

Nós precisamos focar em duas questões quando se trata de álcool e açúcar, por exemplo. Frequência, ou seja, quantas vezes por semana, e quantidade. 

Se as pessoas refletirem sobre esses pontos, vão entender o que estou falando de forma prática. Hoje vemos que frequência e quantidade são muito altas no dia a dia. 

Esses exageros na frequência e na quantidade já estão começando na adolescência?

Não, muito antes! Todo dia no meu prédio, por exemplo, vejo a criançada indo para a escola e cada uma tem um pacote de bolacha na lancheira. Antes, um pacote dava para todo mundo e estava tudo bem comer naquela quantidade. 

Mas hoje a criança senta na frente do videogame e come um saco de salgadinho, depois come um de bolacha. Por isso que eles estão, já desde cedo na adolescência, tendo essa perda de massa muscular significativa. 

Há como frear ou reverter essa perda para chegar bem à terceira idade?

A gente só se transforma por meio de novas atitudes. Sem uma reflexão crítica e verdadeira, não  há como sair do lugar. Então,  é preciso entender o que está acontecendo  com você e como vai reverter isso. Será mudando hábitos alimentares, consumindo mais alimentos in natura? 

Vale comer bem, de forma equilibrada durante a semana e fugir da dieta no final de semana?

Bem, o que se come no domingo não é o que se come de domingo a domingo. Então, lógico que é bacana ter uma refeição livre, sem neurose. Acho importante não ter neura, mas observar a frequência e a quantidade.

Agora, vamos imaginar um processo de emagrecimento. A pessoa tem refeições com déficit calórico de segunda a sexta-feira, mas sábado e domingo extravasa. Quando chegar a segunda-feira, ela vai estar no mesmo ponto. É isso que gera frustração! É falta de estratégia! 

Tudo bem ter uma refeição livre, mas tem de ser planejada.   

Hoje enfrentamos um cenário em que temos de forçar a barra para se movimentar e para comer menos. Esses processos deveriam ser mais naturais, porque senão gera compulsão alimentar. Se radicalizar, abolir, pode promover os desequilíbrios mentais.

Aí fica de segunda a sexta: “sou espartano, regrado” e  sábado a domingo: “sou Zeca Pagodinho, deixo a vida me levar”. Isso não faz sentido. São duas pessoas, é uma bipolaridade nutricional. 

Mas como encaixar exercícios e alimentação em uma rotina tão atarefada?

A desculpa da falta de tempo já está fora de moda. Não dá mais para usar essa desculpa, vai passar vergonha. Então, se quiser advogar a favor do sedentarismo, terá de usar outra desculpa. 

Não é difícil. A gente não paga boleto? Não trabalha? Isso não é mais difícil do que fazer uma atividade física. Conviver com pessoa tóxicas é difícil, manter atividade física não. Isso deve ser encarado como prazer e não como dificuldade. 

É necessário que sejamos o mais saudável possível nessa vida, se não vai sofrer no início, no meio e ao final dela, principalmente ao final.

A longevidade não é só viver mais, é viver com qualidade e não tem de ser encarada como uma métrica de tempo e sim de qualidade.

PERFIL

Bianca Vilela

Consultora em saúde corporativa, com foco na ergonomia. Graduada pela Unesp, pós-graduada e mestre pela Unifesp em Fisiologia do Exercício.

Autora do livro “Respire”, palestrante, produtora de conteúdo em saúde corporativa.

Mais de 17 anos de experiência, já ministrou mais de 200 palestras e presta consultoria para  empresas do País em diversos segmentos.

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