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A saúde mental dos adolescentes está em perigo. O clima violento no mundo, as negligências das emoções, pais autoritários e a presença maciça da internet têm sido algumas das ameaças, segundo Hugo Monteiro Ferreira, pós-doutor em Estudos da Criança.
O também doutor em Educação, especialista em neuropsicologia e autor do livro “A geração do quarto: quando crianças e adolescentes nos ensinam a amar”, diz que as suas últimas pesquisas mostram que a saúde do adolescente brasileiro não está bem.
A Tribuna – Como está a saúde mental do adolescente brasileiro?
Hugo Monteiro Ferreira – A saúde mental dos adolescentes brasileiros, segundo meus estudos, não está bem. Em julho de 2020, entrevistei 1.684 meninos e meninas, com idade entre 11 e 18 anos, numa pesquisa cujo objetivo central era saber como eles e elas estavam emocionalmente diante do confinamento provocado pela covid-19.
O resultado ratifica o que eu já havia pesquisado, em 2017, quando coletei dados, com essa mesma faixa etária, para a pesquisa “A geração do quarto: quando crianças e adolescentes nos ensinam a amar”, ou seja, temos meninos e meninas com basicamente dois blocos situacionais: primeiro, os comportamentos autodestrutivos; e, em segundo, sintomatologias e diagnósticos psicopatológicos, como transtornos de humor, depressão, fobias e transtorno alimentares.
Quais foram as causas disso?
Acredito que existem muitos fatores os quais nos trouxeram até esse quadro preocupante. Entre eles, destaco quatro.
O primeiro: há um intenso e denso clima violento no mundo e a violência psicológica, simbólica e física é a matriz de muitos transtornos e comportamentos.
Segundo: as sociedades contemporâneas. Negligenciaram as emoções, preterindo os afetos e hipervalorizando a razão, atribuindo maior valoração à cognição e reduzindo os sentimentos a elementos de pouca valia ou valia nenhuma no campo social.
Além disso, as famílias contemporâneas confundem autoridade com autoritarismo, liberdade com permissividade, cuidado como narcisismo, não sabendo como estabelecer regras e normas as quais sejam cuidadosas e não-violentas. E, por fim, a presença maciça da internet na vida de garotos e garotas, alterando comunicação, comportamentos, convivências, linguagens, memórias, decisões, modos de escolha, desejos e vontades.
Quais são os perigos para a saúde mental dos adolescentes?
Nos dias atuais, adolescentes, a depender da sua condição identitária – então temos de considerar que há adolescências –, experimentam muito medo, insegurança, desorientação e ausência de políticas públicas voltadas a eles e elas.
A saúde mental desses meninos e meninas está em perigo, porque em perigo está a sociedade quando cria e mantém o bullying, o ciberbullying; quando cria e mantém preconceitos ou redes sociais instituídas a partir e pelo ódio; quando a escola se torna um espaço e um tempo de competição, excluindo os sentimentos de colaboração e cooperação.
Os perigos à saúde mental dos adolescentes não têm exatamente a ver com o fato de que eles e elas são adolescentes, mas com o fato de que são adolescentes num mundo atravessado por desequilíbrios individuais e coletivos.
De forma geral, é mais difícil para os pais identificarem o sofrimento mental dos filhos adolescentes?
Infelizmente, por razões variadas, mas todas equivocadas, os pais não costumam escutar seus filhos e suas filhas. Não escutar é a mesma coisa que não acolher. Não acolher é a mesma coisa que rejeitar. Rejeitar é a mesma coisa que negar amor. Negar amor é o mesmo que tratar com violência.
Os pais não identificam, porque não olham bem para os filhos, os que olham, identificam e agem. Mas há uma negligência familiar muito grande.
Quais os sinais de sofrimento mental que os pais podem perceber?
Os adolescentes com sofrimento e adoecimento mental se isolam excessivamente, costumam ter alterações nos modos de pensar e agir; por vezes, frequentes atitudes compulsivas, impulsivas, pensamentos obsessivos, problemas com o sono, problemas com a alimentação, dificuldade de convivência, muito tempo isolado dentro do quarto, espécie de fobia à convivência familiar.
Nem sempre vai haver relação entre sofrimento e adoecimento mental e problemas no desempenho escolar, ou seja, problemas com notas. Nesse sentido, é importante ficar atento aos sinais sobre os quais tratei aqui.
De que forma se aproximar e ajudar um adolescente com problemas de saúde mental?
Toda pessoa acolhida e cuidada com genuíno afeto melhora a saúde mental. Para se aproximar, é preciso não condenar, é preciso tentar entender, é preciso se pôr no lugar, ter compaixão, confiar. Se aproximar para ajudar pressupõe partilha de bons afetos, de bons sentimentos.