Usados desde o início da pandemia para indicar se a pessoa já teve a Covid-19, testes que indicam a presença de anticorpos contra a doença passaram a ser usados também após a vacinação. Com alguns casos de resultados negativos, famílias têm se preocupado com o efeito dos imunizantes.
Médicos e especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, enfatizaram que os testes disponíveis no mercado não fornecem uma resposta de forma satisfatória e que um resultado negativo para anticorpos não significa que a pessoa não está imune.
Já vacinado com as duas doses da Coronavac desde março, o aposentado Arno Potratz, de 81 anos, decidiu fazer o exame. No entanto, ao pegar resultado no laboratório, uma surpresa: a resposta do exame mostrou que ele não possui anticorpos contra o vírus. “Fiz o teste, pois estava curioso, e o resultado mostrou que eu não tinha anticorpos. Fiquei surpreso”, disse.

O coordenador geral de teste de Covid do Laboratório Espírito Santo, Edson Mezadri Vieira, disse que a resposta para a imunidade ao vírus varia de cada pessoa, e que em casos como o de Potratz, a pessoa deve repetir o exame.
O infectologista Lauro Pinto afirmou que esse tipo de exame não deve ser considerado como resultado absoluto. “A própria Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) já emitiu uma nota técnica sobre isso, pois esses testes são no máximo uma imagem indireta de algum grau de proteção, mas sem afirmar se é real ou não. Por isso, não é recomendado”.
O doutor em Imunologia e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Daniel Gomes, revelou que, de fato, muitas pessoas têm usado a dosagem de anticorpos após a vacinação como forma de saciar uma curiosidade. No entanto, ele salientou que a negatividade não indica que o indivíduo não está protegido.
“O sistema imunológico tem outros mecanismos para a proteção. Muitas pessoas que foram vacinadas ou até que tiveram Covid não convertem para anticorpos, ou ainda, produzem anticorpos muito específicos para os componentes da vacina, que nem sempre são usados para a detecção com estes testes comerciais”, explicou.
Ele citou, inclusive, que é um desses casos, pois teve Covid e já foi vacinado, porém sem apresentar conversão de anticorpos.
Síndica imunizada se submete a exame
A síndica Jerusa de Lima Santos, 64 anos, da Praia do Canto, Vitória, resolveu fazer o exame para detectar se o organismo já desenvolveu anticorpos contra a Covid.
Ela foi vacinada com as duas doses da Coronavac, e quis ter certeza de que estava mais segura.
“Quis fazer o exame para ter certeza. Não fiquei muito em casa por esses dias, e como estava vacinada com as duas doses, resolvi fazer o exame, e foram detectados os anticorpos”, revelou Jerusa.
Mais aliviada por saber que a vacina fez efeito, ela celebrou.
“Estou muito feliz e mais tranquila, pois a cada dia vemos pessoas indo para o hospital por conta do vírus, e saber que eu estou bem é um alívio”, declarou Jerusa.
TIRE SUAS DÚVIDAS
1 – Os testes que detectam anticorpos podem ser usados para avaliar se a vacina “funciona”?
Não. Apesar de estarem sendo feitos como forma de saciar uma curiosidade de muitas pessoas, os chamados testes rápidos ou mesmo exames de sangue para detectar a presença de anticorpos contra a Covid, sozinhos, não são indicados para avaliar se vacinas têm “efeito” ou não.
Segundo especialistas, o sistema imunológico tem outras “armas” e mecanismos desencadeados pelas vacinas e que protegem a pessoa contra os vírus, além da dosagem de anticorpos. Entre eles, há respostas celulares desencadeadas que não são detectadas por exames comercializados.
2 – O fato de um exame apresentar anticorpos significa que a pessoa está imune?
Uma nota técnica publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforçou que não existe até o momento definição da quantidade mínima de anticorpos neutralizantes necessária para conferir proteção imunológica contra a infecção pelo novo coronavírus.
Dessa forma, destacou que testes após a vacinação não devem ser utilizados para determinar proteção vacinal.
Ainda reforçou que não há embasamento científico que correlacione a presença de anticorpos contra o SARS-Cov-2 com a proteção à reinfecção.
Especialistas enfatizam que, independente do status imunológico da pessoa, não existe uma carta branca para que as pessoas abram mão dos cuidados, como uso de álcool, de máscara e distanciamento.
3 – Se um teste de anticorpos dá resultado negativo após duas doses da vacina, significa que a pessoa não está imune? Ela precisa tomar outra vacina ou dose de reforço?
Não. Não há necessidade de se revacinar, segundo especialistas. Eles ressaltam que todas as vacinas disponíveis passaram por testes de segurança e eficácia.
Disseram que, mesmo que a pessoa não apresente anticorpos, a vacina oferece proteção, independente da origem ou fabricação. Em tempos de pandemia, com quantidade de vacinas limitadas, é preciso fazer uso de todas aquelas disponíveis para vacinar o maior número de pessoas e, só assim, frear a circulação do vírus.
4 – Há algum teste que seja capaz de identificar se a vacina contra a Covid-19 ofereceu proteção?
Não há hoje nenhum teste comercializado que seja capaz de avaliar com precisão se uma vacina contra a Covid tem efeitos. Para especialistas, não há motivo para tanta suspeita com relação às vacinas.
Eles frisaram que a vacinação tem não só uma ação individual de proteção, mas uma estratégia coletiva para reduzir a circulação do vírus.
Fonte: Anvisa e especialistas consultados.