Depois de ter anunciado o início da vacinação contra covid-19 para adolescentes, o governo federal mudou a recomendação ontem. Segundo o Ministério da Saúde, a aplicação das doses deve ficar restrita a adolescentes com doenças preexistentes ou com algum tipo de deficiência.
Mas o anúncio provocou reações de médicos, que saíram em defesa da imunização do grupo. Segundo eles, a vacina é segura e o risco da doença é maior.

Hoje, apenas a vacina da Pfizer é liberada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para pessoas entre 12 e 17 anos. Segundo o Ministério da Saúde, a mudança está relacionada a dúvidas sobre a segurança na imunização.
Presidente da Sociedade de Infectologia do Estado, o médico Alexandre Rodrigues da Silva salientou que, do ponto de visto técnico e de segurança, não há contraindicação para vacinar. “Pelo contrário: deve-se vacinar”.
Ele completou que, embora a vacina seja ligada à redução de gravidade e de morte, houve redução de casos nos países que tiveram ampla campanha de vacinação.
A epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Ethel Maciel frisou que a vacina da Pfizer está aprovada pela Anvisa, sendo segura. “Levem seus adolescentes para vacinar assim que puderem. O problema não é apenas a morte, mas sequelas permanentes”.
No Estado, foram registradas 45 mortes de pessoas entre 0 e 19 anos desde o início da pandemia.
Coordenador da Região Sudeste da Sociedade Brasileira de Pediatria, o médico Rodrigo Aboudib ressaltou que o risco de fatalidade é maior na doença do que na vacinação. “A orientação é vacinar”.
O infectologista Luis Henrique Borges reforçou que não há motivo para restrição.
Já a Sociedade Brasileira de Imunizações publicou nota destacando que “não há evidências científicas que embasem a decisão de interromper a vacinação”.
“Estou feliz demais”
Agendar a vacina contra a covid-19 teve um significado especial para a estudante Thalita Ambrósio Patuzzo, de 15 anos, que perdeu os dois avós em decorrência da doença.
Thalita marcou a imunização ontem, em Vila Velha. Ela e a mãe, a autônoma Ângela Maria Ambrósio Rodrigues, 45, ficaram emocionadas com o momento.
Com a restrição anunciada pelo Ministério da Saúde, elas ficaram preocupadas de não conseguirem agendar. “Estou feliz demais, muito aliviada. Já me vacinei contra a gripe, só faltava a da covid-19 para ficar tudo certo”.
Anvisa anuncia que vai manter a imunização de faixa etária
Mesmo com a restrição da vacinação de adolescentes sem comorbidades anunciada pelo Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) manteve a aprovação da vacina contra covid-19 da Pfizer para adolescentes de 12 a 17 anos. A informação consta em boletim emitido pelo órgão na noite de ontem.
“Com os dados disponíveis até o momento, não existem evidências que subsidiem ou demandem alterações da bula aprovada, destacadamente, quanto à indicação de uso da vacina da Pfizer na população entre 12 e 17 anos”, diz a Anvisa, citando a liberação do imunizante para a mesma faixa etária pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido e também pela União Europeia.
“Benefícios da vacinação excedem significativamente os seus potenciais riscos”, afirma o órgão.
A Anvisa também informou que está investigando a morte de uma adolescente de 16 anos após a aplicação da vacina da Pfizer.
Em nota, a agência diz que foi informada na última quarta-feira que no dia 2 deste mês ocorreu uma reação adversa grave em uma adolescente após aplicação do imunizante. “No momento, não há uma relação causal definida entre este caso e a administração da vacina”, afirma a Anvisa.
ENTENDA
Restrição anunciada pelo Ministério da Saúde
- No início deste mês, o Ministério da Saúde havia anunciado o início da vacinação de adolescentes de 12 a 17 anos, sem comorbidades (doenças preexistentes), a partir da última quarta-feira.
- No entanto, ontem, o Ministério da Saúde tirou adolescentes de 12 a 17 anos sem comorbidades da lista de grupos cuja vacinação contra a covid-19 é recomendada.
- Por meio de nota informativa, divulgada no dia em que começaria a vacinação do grupo, a pasta pede que sejam vacinados só os adolescentes com comorbidades, deficiência ou privados de liberdade.
Motivos
- O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse ontem que a decisão de restringir a vacinação tem relação com a falta de evidências científicas consolidadas sobre o benefício da imunização para este grupo.
- O Ministério afirmou que pode rever a posição, desde que haja evidência científica sólida. “Por enquanto, por questão de cautela, temos eventos adversos a serem investigados. Temos adolescentes que tomaram vacinas que não estavam recomendadas, temos que acompanhar”.
- Entre os eventos adversos investigados, está a morte de uma adolescente de 16 anos após aplicação da vacina da Pfizer, em São Paulo.
- A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforçou, porém, que, no momento, não há uma relação causal definida entre esse caso e a administração da vacina.
Manutenção da aplicação
- O governo do Estado publicou ontem uma nota técnica confirmando a manutenção da vacinação deste público, já iniciado nesta semana.
- Na nota, o secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, considerou o apoio das sociedades brasileiras de Imunizações e de Pediatria pela vacinação do grupo, além do posicionamento da Anvisa, “com a competência de definir a autorização do uso de imunobiológicos”.
Vacina aprovada
- Até o momento, no Brasil, apenas a farmacêutica Pfizer recebeu autorização para mudar a bula de sua vacina e incluir os adolescentes acima de 12 anos. A autorização pela agência ocorreu em junho e está mantida.
Segurança
- Segundo médicos, a vacina é segura para esta faixa da população. Eles afirmam que as reações superam o risco de não se vacinar.
- Entre os efeitos adversos comuns, os médicos listaram dor local, febre e dor de cabeça, semelhantes a outros imunizantes.
- A Anvisa ressaltou que, no que diz respeito a eventos cardiovasculares, no caso da Pfizer, foram observados casos raros (16 para cada 1 milhão de vacinados) de miocardite e pericardite após a vacinação.
- Os casos, de acordo com a Anvisa, ocorreram com mais frequência em homens jovens, após a 2ª dose.
- Foi observado que, geralmente, são casos leves e os indivíduos tendem a se recuperar dentro de um curto período após o tratamento padrão e repouso. Não houve relatos de casos de infarto.
Fonte: Anvisa, Sesa e Agência Folha.