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Os carros nos Estados Unidos logo poderão recusar-se a andar se o motorista estiver embriagado, graças a sensores capazes de detectar o álcool no hálito ou pela pele. No entanto, as novas tecnologias são um desafio para os defensores da privacidade e das liberdades civis.
O presidente Joe Biden assinou uma lei esta semana que forçará as montadoras a adicionar esses recursos nos próximos anos.
Em um país onde dirigir embriagado mata mais de 10 mil pessoas a cada ano e onde a taxa de álcool permitida é, em média, mais alta do que em muitos outros países ocidentais, a nova legislação está causando entusiasmo.
“Eu choro de alegria”, comentou Alex Otte, presidente da MADD, ONG que vê esta lei como uma forma de salvar milhares de vidas. “Este é o começo do fim do dirigir embriagado”, frisou.
Mas o texto da lei também levanta questões: o que acontecerá se o carro quebrar e se recusar a dar partida? Os veículos potencialmente se tornarão testemunhas contra seu proprietário em caso de ação judicial?
As autoridades americanas têm três anos, potencialmente renováveis, para se pronunciar sobre essas questões. A previsão é de que a tecnologia entre em vigor em 2027.
A tecnologia está quase pronta. Os pesquisadores desenvolveram sensores que sugam e testam a respiração do motorista. Também desenvolveram um scanner, integrado ao botão de partida do motor, que mede o nível de álcool nos vasos sanguíneos sob a pele dos dedos, por meio de luz infravermelha.
Essas invenções foram desenvolvidas por meio da colaboração entre uma associação de fabricantes de automóveis para segurança no trânsito (ACTS) e as autoridades competentes.
Sistemas antitrapaça serão integrados para evitar que o carro dê partida se a taxa de álcool ultrapassar o limite legal de 0,08%, em vigor na maioria dos estados dos EUA, explicou Robert Strassburger, presidente da ACTS.
“Todos emitimos dióxido de carbono quando expiramos (e o sistema) sabe como detectar se a amostra está vindo do motorista e não de outro lugar”, disse.
Já o sensor de partida digital é conectado a um circuito entre o assento e o computador de bordo: “Se um passageiro aperta o botão, o circuito não funciona e a medição não é feita”, explica Strassburger.
Este tipo de bafômetro no carro é exigido em algumas jurisdições para condenações por dirigir bêbado.
Especialistas temem o risco de falso positivo nos testes
Atualmente, os bafômetros que podem ser acoplados a carros para verificar se os motoristas estão ou não dirigindo bêbados têm uma taxa de erro relativamente baixa, porém, essa taxa existe.
Isso significa que se todos os motoristas tivessem que soprar um desses equipamentos para ligar seus carros, haveria a possibilidade de pessoas sóbrias que não conseguiriam trabalhar.
Isso porque existem os falsos positivos, aqueles casos em que os bafômetros pegam pessoas que tiveram contato com produtos que têm álcool, como enxaguantes bucais, chocolates formulados com bebida alcoólica, mas não beberam efetivamente.
“Imagine que alguém escova os dentes e não consegue ligar o carro ou o sistema não detecta que alguém bebeu demais”, disse Laura Perrotta, presidente da American Highway Users Alliance.
Para os defensores das liberdades individuais, a questão não é técnica, mas legal. “É completamente inconstitucional que nossos carros nos controlem em nome do governo”, protestou Albert Fox Cahn, fundador da ONG Surveillance Technology Oversight Project.
Robert Strassburger, presidente da ACTS, diz que outras tecnologias que coletam informações em carros já são regulamentadas e a polícia precisa de um mandado para acessá-las. Mas a decisão final, segundo ele, vai depender “dos fabricantes ou dos legisladores”.