Acreditando ser um meio de transporte mais rápido para chegar ao seu destino, muitas pessoas têm trocado os ônibus por vans clandestinas. Porém, quem usa esse tipo de locomoção arrisca a própria vida utilizando um veículo que não passou por uma vistoria rigorosa e que, na maioria das vezes, só circula lotado.
Em Vila Velha, aproximadamente 2.400 pessoas fazem uso desse serviço diariamente. Por lá, 30 vans irregulares circulam por 11 bairros do município. Elas podem ser flagradas em vários pontos de ônibus de bairros como Praia da Costa, Glória, Ataíde, Santa Rita, Alecrim, entre outros.
A reportagem de A Tribuna percorreu vários pontos de ônibus de alguns bairros onde as vans atuam e conversou com passageiros e ex-passageiros. A opinião sobre o uso do serviço irregular dividiu opiniões.

Já a auxiliar de serviços gerais Regina Guimarães, 63 anos, prefere aguardar um pouco mais para chegar em casa com segurança. “Não tenho coragem de usar este tipo de serviço, pois um veículo que não está autorizado a circular não me passa segurança alguma. Prefiro esperar um ônibus, mesmo que demore mais”, disse.
O transporte irregular de passageiros é considerado infração gravíssima e, além de multa, também gera remoção do veículo, conforme aconteceu com um motorista de uma van, durante uma fiscalização conjunta entre Guarda Municipal de Vila Velha, Polícia Militar e fiscais da Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado do Espírito Santo (Ceturb-ES), nesta semana.
O secretário de Defesa Social e Trânsito da Prefeitura de Vila Velha, Geovanio Ribeiro, disse que a pessoa que se submete ao uso desse serviço se coloca em um risco evidente.
“O objetivo dessa fiscalização é trazer a segurança para a população, coibindo a atuação desses motoristas. Infelizmente, por conta da pandemia, nós não conseguimos realizar um trabalho focado neste grupo, mas a partir de agora as ações serão intensas”, afirmou.
Motoristas querem trabalhar legalizados

De acordo com um dos representantes da categoria, o pedido já foi solicitado algumas vezes junto à prefeitura, mas ainda não foi obtida uma resposta. Ele alega que a maioria dos veículos estão em condições de circular.
“Minha van está toda revisada, mas, ainda assim, insistem em nos multar. A gente se sente perseguido. Fica complicado para a gente, todo mundo tem filho para criar, nós queremos ser legalizados, mas não contamos com um bom senso de ninguém”, disse o motorista Francisco Emílio, de 56 anos, que trabalha há quase 30 anos com transporte de passageiros.
Atuando há mais de 20 anos como motorista deste tipo de transporte, Marcos Antônio Carvalho, 60 anos, justificou o porquê de não abandonar o transporte clandestino.
“Estou nessa situação porque eu não tenho emprego fixo. Eu tenho 60 anos. Quem vai me dar emprego para alguém com essa idade? Preciso trabalhar”.
Um motorista de 28 anos, que também dirige uma van clandestina e que preferiu não se identificar, falou sobre a escolha de se trabalhar de forma irregular.
“E daqui que sai meu sustento. Pago aluguel, tenho contas… Estou nessa vida há oito anos. Por mim eu trabalharia legalizado, só que infelizmente não é tão fácil quanto parece. As dificuldades que enfrentamos são grandes”, disse.
Passageiros
Durante o período da quarentena, imposta pelo governo como forma de conter a pandemia da covid-19, muitos passageiros deixaram de usar o transporte clandestino, segundo os motoristas que atuam nesse ramo.
A baixa demanda fez com que muitos se reinventassem e buscassem novas formas de atrair “clientes”. Um dos modos encontrados pelos motoristas foi mudar a forma de pagamento da passagem.
“Muita gente usa aplicativos como forma de pagamento. Para não perder clientes, eu resolvi aceitar”, contou um motorista de 28 anos.
Prefeitura diz que vai debater caso
A Prefeitura de Vila Velha informou que continuará realizando fiscalizações com intuito de inibir o serviço de transporte clandestino na cidade, a fim de trazer mais segurança para a população. Além disso, ao ser questionada sobre a demanda dos motoristas, que desejam se legalizar, o órgão afirmou que está aberto ao diálogo.
“Existe uma coordenação de transporte coletivo individual, que fica localizada na Rodoviária de Vila Velha, em Itaparica. Eles (motoristas) podem a qualquer momento procurar a coordenação para iniciar esse contato e ter essa orientação. A prefeitura estará sempre aberta a tornar essa atividade legal. Estamos sempre abertos para o diálogo”, afirmou o secretário de Defesa Social e Trânsito, Geovanio Ribeiro.
O secretário lembrou ainda que as ações de fiscalização ao transporte irregular de pessoas continuará na cidade.
Ele afirmou que elas ocorrem não só com o transporte irregular de passageiros, mas também com as empresas que já atuam na cidade de forma regular.
“A demanda pelo serviço de transporte é muito grande e é um desafio para o serviço público manter a segurança dos passageiros. Por isso, a partir deste ano, nós começamos a fiscalizar até as empresas regulares. Algumas foram até notificadas. A questão toda é que vamos continuar com as ações rotineiramente”, disse.