
Ela conta que os problemas começaram com o seu celular ficando sem sinal. “Usei outro telefone e liguei para a Claro, que é a nossa operadora. Me disseram que estavam fazendo uma atualização e tudo se normalizaria. Só que depois desse episódio, tive uma sequência de problemas e justificativas até descobrir que a linha tinha sido roubada, ou seja, já não estava mais no CPF do meu esposo.”
Seu advogado, Gustavo Martinelli, contou que a sua cliente foi vítima de um golpe chamado SIM Swap, cujo objetivo é enganar a autenticação de dois fatores (camada adicional de segurança para o processo de login da conta, exigindo que o usuário forneça duas formas de autenticação), fazendo com que o telefone do criminoso se passe pelo telefone da vítima.
“Assim o criminoso consegue ter acesso às contas da vítima, como e-mail, rede social. Só de conseguir acesso ao e-mail da vítima, ele pode potencialmente conseguir trocar a senha de qualquer outra conta dela, ou até mesmo criar novas contas em outros sites, como de rede sociais e sites de e-commerce.”
Foi isso que aconteceu com a empresária. Os criminosos conseguiram transferir R$ 1.500 para a conta deles, além de realizar empréstimos e compras, como iPhone, TV de R$ 11 mil, lava-louças, entre outras transações. Preocupada, ela registrou três boletins de ocorrência e vai acionar a Justiça.
O advogado Gustavo Martinelli disse que já atuou e atua em outros casos semelhantes.
A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil para falar sobre este e outros casos, mas, por nota, obteve a resposta de que não teria como atender a demanda ontem com os dados solicitados.
Além disso, solicitou que as pessoas que forem vítimas de golpe como este realizem o registro na Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Eletrônicos, na avenida Marechal Campos, 1236, no bairro Nazareth, Vitória, onde todos os fatos são apurados.
“A cada dia descubro uma compra”
A Tribuna – Como descobriu que estava sendo vítima de uma fraude?
Yara Marchioni Cézar – Eu fiquei sem sinal no celular no começo de junho, quando estava em Guarapari. Era um sábado. Liguei para Claro e eles falaram que estavam fazendo uma atualização e após quatro horas seria restabelecido, o que não aconteconteu. Não sei se o golpe começou aí, mas foi tudo estranho.
O sinal foi restabelecido?
Fiz tudo o que eles pediram e no domingo ainda estava sem sinal. Liguei novamente e falaram que devia ser problema no meu chip e que eu tinha que procurar uma loja.
Foi uma semana muito corrida e não conseguir ir ao shopping. Fiquei trabalhando de casa só pelo Wi-Fi e Instagram, pois tenho uma loja online. Só no sábado fomos ao shopping e o funcionário da operadora disse que o chip tinha queimado. Comprei um novo.
Celular funcionando?
Sim, até o dia 29 de junho, quando fiquei sem sinal novamente. Achei que era o mesmo problema. Usei o aparelho pelo Wi-Fi. Passou meia hora, recebi uma mensagem do Mercado Pago de que a minha transferência não pôde ser concluída, só que eu não estava fazendo uma transferência.
Vi que tinha R$ 2.795,00 na conta. Transferi R$ 2.700, mas os bandidos transferiram o restante. Percebi que era um golpe. Tentei acessar outras plataformas e vi que eles tinham trocado as senhas. E perdi o acesso ao WhatsApp.
Fui na loja da Claro e descobri que a linha, que era no nome do meu marido, tinha sido movida para outro chip dentro do sistema deles. Roubaram a linha! Quando fomos trocar o número, descobrimos que o CPF e RG eram de outra pessoa. Procurei a polícia, cancelei cartões de crédito, só que eles foram fazendo compras e transferências.
O que mais de prejuízo?
Dia 5 de julho, cadê meu sinal de telefone? Tudo se repetiu, enfim acumulo uma dívida de cerca de R$ 30 mil. A cada dia descubro uma nova dívida, uma nova compra. Eu não paguei e não vou pagar contas que não são minhas. Temo que meu nome seja negativado.
COMO É O GOLPE
O que é?
- Chamado de SIM Swap, este tipo de golpe consiste em transferir a linha telefônica para um chip SIM diferente do que está no telefone celular da vítima.
- Sendo desta maneira, a primeira coisa que precisa acontecer é o golpista conseguir o número de telefone da vítima.
Transferência da linha
- Para conseguir o número da vítima, o golpista normalmente conta com a “ajuda” de um funcionário da operadora ou alguém que tenha acesso ao sistema das operadoras (como ex-funcinários), segundo investigações da polícia.
- Desta forma, o golpista passa a controlar a linha telefônica da vítima, que só percebe quando tenta utilizar seu telefone.
Prejuízos
- Depois que o golpe do SIM Swap é feito e o criminoso controla o número de telefone, fica fácil para ele acessar o WhatsApp da vítima, acessar seus perfis de redes sociais, ter acesso a senhas e realizar compras e empréstimos de toda a natureza.
- Caso a pessoa use autenticação em duas etapas, via código enviado por SMS, é só pedir que essas informações sejam mandadas para o número do celular da vítima – que está sob o controle do criminoso.
Autenticação
- Atuando no caso da empresária Yara Marchioni Cézar, o advogado especialista em Direito Digital, Gustavo Martinelli, explica que esse golpe só é possível quando a autenticação de dois fatores ocorre via SMS (torpedo), já que as senhas são informadas por torpedo e o golpista, que está sob o controle da linha, acaba tendo acesso aos dados da vítima e “faz a festa”.
- Por isso, ele recomenda que a autenticação de dois fatores ocorra via um app (aplicativo) específico para esse fim, como é o caso do Google Authenticator.