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IMIGRAÇÃO ILEGAL

Cidade com 264 pessoas deportadas dos EUA

Polícia Federal apura esquema em Mantenópolis, que tem até aluguel de crianças

Mantenópolis abriga esquema para entrada ilegal nos EUA: emissão de mais de 400 passaportes são investigados

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Uma megaoperação contra o tráfico de pessoas e a entrada ilegal nos Estados Unidos colocou no centro das investigações uma pequena cidade do Noroeste capixaba.

Com cerca de 15 mil habitantes, o município de Mantenópolis, na divisa do Estado com Minas Gerais, abriga um grande esquema para entrar ilegalmente nos EUA. 

Mais de 400 passaportes foram emitidos na cidade, que teve 264 pessoas deportadas em dois anos. Mantenópolis se tornou o município capixaba com mais prisões e deportações, na frente de Vitória, que tem população 24 vezes maior.

A explicação é que Mantenópolis abriga um dos maiores esquemas criminosos para a entrada de imigrantes nos EUA. A Polícia Federal identificou na cidade a atuação de um “coiote”, como são chamados os criminosos responsáveis por agenciar a imigração.

A investigação ganhou foco na cidade em setembro, quando um casal com filho chamou a atenção ao tentar tirar o passaporte e sair do País. Por conta do comportamento suspeito e nervoso deles, a polícia investigou e descobriu que, na época em que a criança teria sido concebida, a mãe estava nos EUA e o pai no Brasil. Ou seja, a criança não era filha do casal. 

O registro da criança foi forjado pelo “coiote” (que não teve o nome divulgado pela PF) para facilitar a permanência da falsa família nos EUA, já que casais com filho têm menos chance de deportação com base em uma nova lei americana.

“Quando o casal com criança é detido ao entrar ilegalmente, se não tiver uma solução em três dias, eles são colocados em liberdade e precisam comparecer à Corte sempre que intimados, mas, na prática, vão viver ilegalmente. E, com isso, surgiram os arranjos de famílias falsas”, explicou o delegado da Polícia Federal, Guilherme Helmer.

O esquema envolve até mesmo o “aluguel” de crianças, que são levadas para os EUA com pais falsos e depois retornam para entrar novamente no país com outras famílias.

Ao verificar o passaporte, a polícia descobriu que vinha de um escritório de advocacia de Mantenópolis, onde foram emitidos mais de 400 passaportes. O coiote responsável pelo esquema está sendo investigado, mas ainda não foi preso.

Casa em Fundão era usada como “posto de migração”

Uma casa em Praia Grande, no município de Fundão, na Grande Vitória, era utilizada como  espécie de “posto de espera” para a migração ilegal.

O criminoso responsável pelo envio das pessoas para os Estados Unidos alugava o imóvel no balneário para que os migrantes esperassem a conclusão do processo ilegal. Por lá, quem desejava embarcar ilegalmente aguardava a emissão de documentos, passaporte e passagem.

Na operação, a Polícia Federal encontrou na casa diversos colchões, sacos de dormir e barracas. As pessoas esperavam por até dois meses para o momento certo de viajar.

Na análise do delegado da Polícia Federal Guilherme Helmer, além de funcionar como um posto de espera, o objetivo da casa era omitir a origem das pessoas, já que muitos eram de Minas Gerais, estado já reconhecido como origem de imigrantes ilegais.

“É uma tentativa de desviar a origem da pessoa, pois o voo partia de Vitória. No entanto, o Espírito Santo também já entrou no radar, pois hoje já é o terceiro estado em número de prisões e deportações”.


ENTENDA – COMO FUNCIONA O ESQUEMA


1 – Família falsa

  • Os criminosos criam famílias falsas, com casal e criança. A criança é registrada no nome do casal que pretende ir para os EUA. Ela viaja junto. 

São três formas para isso:

Criança de aluguel

  • Uma criança é “alugada” para ser registrada como sendo filha do casal. Ela embarca junto, e depois do processo de detenção, e com o casal já estabelecido nos EUA, a criança é enviada de volta. Uma mesma criança chegou a entrar três vezes nos EUA com “pais” diferentes.

Pai falso

  • Os criminosos cobram valor menor para mulheres com filhos. Isso porque o acordo para o “desconto” prevê que a mulher forme um casal falso com algum homem sem filho que também pretende migrar. Como é mais difícil de permanecer sozinho no país (já que pessoas sem família logo são deportadas), esse homem paga mais caro pelo serviço e registra a criança.

Filho de parente

  • Um casal com mais de um filho que vai migrar “empresta” a criança para um parente que iria sozinho.

2 – Documento e passaporte

  • Após registrar a criança e formalizar a família falsa, o “casal” tira o passaporte de todos e deixa o Estado para viajar.

3 – Trajeto

  • No Estado, os migrantes ilegais embarcavam do Aeroporto de Vitória, principalmente para São Paulo. De lá, embarcam para o México.
  • No México, a família faz a travessia ilegal.

4 – Detenção e imigração

  • Ao ser detido, a família fica junta, por conta da nova lei. Em três dias, se o processo de deportação não for finalizado, ela é liberada, fica nos Estados Unidos, mas precisa se apresentar sempre que a Justiça solicitar até finalizar o processo.
  • Como já está no País, a família se estabelece de forma ilegal.

Lei americana

  • Até 2018, famílias pegas tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos eram separadas, ou seja, cada um era levado para um centro de detenção diferente, e depois deportados.  Naquele ano, mais de 2 mil crianças foram separadas de suas mães, e muitas ficaram  sozinhas em centros de detenções e depois sumiram.
  • Essa política de separação foi criticada no mundo inteiro, forçando o então presidente Donald Trump a mudar as regras.
  • Desde 2018, famílias pegas tentando entrar ilegalmente passaram a ficar juntas, em um “centro de detenção familiar”. Se o processo de deportação não for resolvido em três dias, a família é liberada e fica nos EUA, se apresentando à Justiça sempre que for chamada.

Brecha na Lei

  • Como as famílias não são mais separadas e têm “mais chance” de permanecer ilegalmente, os criminosos passaram a lucrar com o envio de famílias, criando, inclusive, famílias falsas e alugando crianças para se passarem como filhos.

Fonte: Polícia Federal.

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