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ENTRE PRATELEIRAS

O inconveniente de valer um

Aceitar o resultado e aplicar as mesmas regras a quem pensa diferente são desafios centrais de uma sociedade democrática

O inconveniente de valer um
- Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas
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Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV. Autor da coluna Entre Prateleiras, publicada no jornal A Tribuna e disponível também no portal Tribuna Online.

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A democracia é a arte de aceitar a derrota. E derrotas precisam ser explicadas. Quando esperamos vencer e perdemos, alguma coisa precisa preencher a distância entre aquilo que esperávamos e aquilo que aconteceu. A democracia, do grego “poder do povo”, é um sistema imperfeito que depende de limites e aceitações.

Sua imperfeição é conhecida e pode ser percebida até no singular implícito em “povo”. O povo nunca é um só.

Votar é a parte mais fácil da democracia. Escolher permite afirmar quem somos, reunir semelhantes e tentar transformar preferência em poder.

Mas contar os votos exige mais de nós do que parece. A democracia exige algo que poucas multidões fazem espontaneamente: reconhecer que continuamos pertencendo ao mesmo sistema político justamente quando aqueles que consideramos errados conseguem vencê-lo.

Uma regra parece razoável quando limita aqueles de quem discordamos. Pode parecer excessiva quando alcança aqueles com quem nos identificamos. A regra permaneceu a mesma. Nós mudamos de posição diante dela.

Eu defenderia esta mesma regra se amanhã ela fosse aplicada ao meu grupo? Se a resposta muda quando mudam os personagens, talvez a regra nunca tenha sido exatamente o princípio.

A democracia exige de nós algo psicologicamente custoso: aplicar ao outro a mesma regra que queremos aplicada a nós. A identificação com um grupo modifica a maneira como julgamos quem está dentro e quem está fora dele. Procuramos razões melhores para aquilo em que já acreditamos. Somos mais tolerantes com as contradições dos nossos e mais atentos às contradições dos outros.

O antagonista menos visível é a exceção moral que concedemos a nós mesmos. Eu posso porque estou defendendo a democracia. Meu grupo pode porque está protegendo direitos. Minha instituição pode porque está impedindo algo pior.

Colocamos uma expectativa excessiva sobre a democracia ao imaginar que ela depende de pessoas que pensem democraticamente o tempo inteiro.

Aceitar que alguém que pensa exatamente o contrário tenha o mesmo direito de decidir o futuro que nós é uma das coisas menos intuitivas de todas. Afinal, eu conheço minhas razões, minhas informações, minhas dúvidas e o caminho pelo qual cheguei à minha conclusão. Do outro, recebo principalmente a conclusão. Há uma assimetria difícil de perceber: tenho acesso ao processo que produziu meu julgamento, mas observo sobretudo o resultado do julgamento alheio. Comparo a complexidade do meu raciocínio com a aparência simplificada do raciocínio dele.

Quando ele chega à conclusão oposta, discordar pode não ser suficiente. Precisamos explicar como alguém pôde chegar até ali. E geralmente encontramos uma explicação: faltou informação, sobrou influência, houve interesse ou incapacidade de perceber aquilo que para nós parece evidente.

Nós não defendemos princípios com a consistência que imaginamos. Defendemos pertencimentos e usamos princípios para justificá-los.

Talvez a democracia não seja a expressão política mais natural do comportamento humano, mas uma tecnologia social construída para contrariar parte dele.



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