Equipes de resgate do Nepal intensificaram nesta segunda-feira (31) as buscas para alcançar centenas de trabalhadores presos em túneis de projetos hidrelétricos atingidos pela enchente no Himalaia na semana passada. Socorristas da China e da Índia foram mobilizados para ajudar na operação.
Segundo as autoridades, ao menos 933 trabalhadores estão presos nos túneis. Ainda não há informações sobre quantos deles estariam vivos.
O desastre, atribuído ao colapso de uma geleira, matou ao menos 919 pessoas e deixou 4.793 desaparecidas. Do total de mortos, 903 foram registrados no Nepal, segundo balanço da polícia, e 16 do lado chinês, de acordo com a imprensa estatal. A Cruz Vermelha estima que mais de 90 mil pessoas foram afetadas pelo desastre.
O foco dos trabalhos concentra-se nos distritos nepaleses de Rasuwa e Nuwakot, os mais atingidos, onde 11 projetos hidrelétricos foram bloqueados.
Fotos e vídeos compartilhados pelas equipes de resgate mostram máquinas de terraplenagem escavando e retirando lama e pedras durante a noite, sob iluminação. Em uma grande escavação aberta para tentar encontrar um espaço que permitisse a entrada em um dos túneis, militares e socorristas usam lanternas para vasculhar os destroços.
O Exército nepalês informou que as equipes de busca utilizavam explosões controladas e escavadeiras e para retirar água e lama e chegar às pessoas presas. Três corpos foram recuperados depois que as equipes entraram em dois túneis. Outras áreas continuavam soterradas pela lama e eram vasculhadas.
“Uma grande quantidade de detritos foi depositada, e isso está representando um grande desafio para abrirmos os túneis”, disse à Reuters o porta-voz do Exército do Nepal, Raja Ram Basnet. “Nosso principal foco é abrir os túneis.”
Em meio às buscas, o calor úmido nas planícies acelera a decomposição dos corpos arrastados pela correnteza, forçando o sepultamento de centenas de vítimas ainda não identificadas em valas rasas.
O recém-empossado primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, classificou o episódio como um “desastre natural sem precedentes e devastador” e ressaltou a dificuldade de mensurar o impacto total dos danos.
A tragédia expõe a vulnerabilidade do modelo de desenvolvimento nepalês. Desde a virada do século, o país vive um boom na construção de usinas hidrelétricas nas montanhas para combater a escassez crônica de energia interna e exportar eletricidade para a Índia. A topografia íngreme exige a perfuração de extensas redes de túneis para transportar a água das elevadas altitudes do Himalaia até as turbinas.
Ao menos 590 estrangeiros de 39 países estão desaparecidos no Nepal, informou o Ministério das Relações Exteriores nepalês nesta segunda. Até o momento, 323 turistas foram resgatados, disse o porta-voz Lok Bahadur Chhetri.
Quase 100 cidadãos chineses estão incomunicáveis do lado nepalês, segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun. Pequim enviou assistência financeira emergencial, ajuda humanitária e especialistas em engenharia de túneis para auxiliar o país vizinho.
Embora o Nepal tenha declarado que dispensaria ajuda internacional para as operações de resgate, abriu exceção para equipes da Índia e da China. A cooperação, contudo, esbarra em riscos operacionais e em atritos.
Funcionários nepaleses relatam à Reuters que Pequim não compartilhou informações detalhadas sobre os riscos glaciais e o nível dos rios após reuniões bilaterais feitas no início do ano.
O regime chinês sustenta que tem fornecido continuamente dados meteorológicos e hidrológicos e que continuará a apoiar o país vizinho. O dirigente Xi Jinping afirmou que Pequim não poupa esforços nas operações de busca pelas vítimas da tragégia, segundo a agência estatal Xinhua.
As operações de resgate já foram interrompidas diversas vezes pelo mau tempo e pelo temor de transbordamento de um novo lago formado na fronteira. A emissora estatal chinesa CCTV alertou que geleiras no entorno do local do colapso continuam instáveis, com alto risco de novos desmoronamentos e represamentos fluviais.