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O game que meu filho joga é perigoso?

Com as restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus, crianças e adolescentes têm utilizado cada vez mais os games para brincar e ocupar o ...

A administradora Adélia Viana acompanha e orienta o filho Nicolas, 12 anos, quando se trata de games eletrônicos

Última atualização

A administradora Adélia Viana  acompanha e orienta o filho Nicolas, 12 anos, quando se trata de games eletrônicos (Foto: Beto Morais/AT)

Com as restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus, crianças e adolescentes têm utilizado cada vez mais os games para brincar e ocupar o tempo. Apesar de serem distrações e terem potencial de aprendizagem, os pais precisam ter cuidados para que os jogos não se tornem perigosos para os filhos.

De acordo com especialistas, é importante evitar games com estímulo à violência, como os de tiros, luta e roubo, que ilustrem morte e sangue, e aqueles que incitem à discriminação e à intolerância. Segundo a neurologista infantil Larissa Freire Krohling, games violentos podem estimular comportamentos agressivos.

“Isso porque a criança está vendo a violência na imagem. Ela também pode ficar com pensamentos de medo e insegurança, já que o cérebro dela ainda está imaturo”.

A neurologista explicou que a frustração gerada por não conseguir ganhar o game, por ser inapropriado para a idade, também pode provocar atitudes violentas.

“Os pais precisam estar atentos porque são muitos criminosos e pedófilos nos games. Muitas vezes, eles se passam por criança ou adolescente, para criarem um vínculo e, depois, obterem imagens íntimas”, revelou o especialista em Segurança Digital e colunista de A Tribuna, Eduardo Pinheiro.

O maior medo que a administradora Adélia Viana Gonçalves, 42 anos, sente com os games é a influência que podem exercer sobre o filho Nicolas, de 12 anos.

Adélia contou que pede que ele não jogue games com violência, e que costuma usar os que estimulam habilidades. Ela também monitora os games que o filho joga, por meio de uma câmera no quarto dele.

“É uma geração diferente da minha, que tem muito acesso à informação. E internet é terra de ninguém, alguns usam para o bem e outros para o mal”, disse.

Para o professor de Desenvolvimento de Games da Universidade Vila Velha (UVV) Saulo Pereira Ribeiro, o controle dos parentes é essencial. “Entre os riscos, há o bullying virtual, a invasão de privacidade, o aparecimento de vírus e o roubo de informações”, ressaltou.

Monitoramento por aplicativo

 (Foto: Beto Morais/AT)

Diante da imensidão de informações na internet, o especialista em Segurança Digital e professor da Faculdade UCL, João Paulo Chamon, 41 anos, monitora por aplicativo os jogos que a filha, Giovanna, 12 anos, usa no celular.

“Falo para ela jogar somente com pessoas que conheça. Quando joga pelo computador, faz videoconferência com as amigas”, relatou. Ainda assim, João Paulo contou que ocorreu de, uma vez, a filha estar em um game de criar desenhos e um menino desconhecido desenhar o órgão genital masculino.


Características e classificação


Jogos eletrônicos: Ministério da Justiça disponibiliza uma página com a classificação indicativa dos games (Foto: Divulgação)

Games perigosos

  • Podem ser considerados perigosos para crianças e adolescentes games com conteúdo violento, como os de tiros, luta e roubo, que ilustrem morte e sangue, porque podem estimular comportamentos agressivos, segundo os especialistas.
  • Jogos que incitem à discriminação e à intolerância podem ser negativos para os pequenos e estimulá-los a comportamentos semelhantes.
  • É importante evitar também que crianças joguem games inapropriados para a idade. A frustração por não conseguirem ganhá-los, por serem para outra faixa etária, pode gerar pensamentos e sentimentos agressivos.
  • Todos os games, independentemente do conteúdo, devem ser acompanhados pelos pais, para que supervisionem o filho e o impeçam de fazer contato com desconhecidos em chats ou compras em excesso, o que pode ser perigoso.

Classificação indicativa

  • No Brasil, o Ministério da Justiça disponibiliza uma página com a classificação indicativa dos games.
  • Basta acessar o portal do Ministério e procurar pelo nome.

Tipos de games

First Person Shooter (FPS)

  • Tiro em Primeira Pessoa, em inglês. São centrados no combate com armas de fogo. Alguns famosos são Counter-Strike e Call of Duty.

Real Time Strategy (RTS)

  • Os jogos Estratégia em Tempo Real abordam temas como a construção de exércitos, de forma a criar defesas para se proteger dos inimigos. Entre os exemplos estão o StarCraft II, Warcraft III e Age of Empires.

Multiplayer Online Battle Arena (MOBA)

  • Os jogos do gênero Estratégia de Ação em Tempo Real é uma batalha de equipe. Entre os mais famosos estão o League of Legends (LoL), Heroes of the Storm (HotS) e Smite.

Role-Playing (RPG)

  • A interpretação de Papéis, em inglês. Os RPGs apresentam configurações medievais ou de fantasia.
  • Um exemplo é a franquia Witcher.

Massively Multiplayer Online (MMO)

  • Jogos Multijogador Online apresentam gigantes, mundos abertos e milhares de usuários jogando de um mesmo servidor. Exemplos são Minecraft e DC Universe Online.

Battle Royale

  • Nesse gênero, jogadores são colocados em uma arena para duelarem, até que só um sobreviva.
  • Exemplos são Free Fire e Fortnite.

Player versus Player (PvP)

  • A categoria Jogador versus Jogador inclui jogos em que um ou mais jogadores se enfrentam.
  • Entre os Exemplos estão os famosos Super Smash Bro, Mortal Kombat X (MKX) e Street Fighter.

Games são divididos em gêneros (Foto: Divulgação)

Alguns jogos educativos

  • Grapho game: lançado pelo Ministério da Educação, ajuda estudantes da pré-escola e dos anos iniciais a aprender a ler as primeiras letras, sílabas e palavras. Disponível para dispositivos Apple, Android e Windows.
  • Minecraft Education Edition: estimula a criatividade e a resolução de problemas. Faixa etária varia conforme o jogo. Disponível para dispositivos Windows e Apple (Mac e IPad).
  • Kahoot: permite jogar games educativos e fazer quizzes e desafios. Classificado para acima de 4 anos. Disponível para Apple e Android.
  • Como São Feitas as Coisas? Mostra de onde elas vêm e itens do cotidiano, como chocolate, camisa e pães. Classificado para idades acima de 4 anos. Disponível para Apple e Android.
  • Matific Student: game com problemas matemáticos, para crianças de 4 a 11 anos resolverem. Disponível para dispositivos Apple e Android.

Fonte: Especialistas e pesquisa A Tribuna.


Geração cada vez mais dependente

Cada vez mais cedo, crianças e adolescentes têm tido contato com celulares, computadores, notebooks e tablets, diante da maior facilidade de acesso.

Para o especialista em Avaliação dos Sistemas Educacionais Edebrande Cavalieri, essa proximidade em excesso causa dependência e chega a “disputar” o tempo da criança, em que o contato físico acaba ficando de lado.

“Estamos criando uma geração cada vez mais dependente da internet. É preciso avaliar até que ponto isso é positivo. Muitas vezes, é importante o adulto chamar a criança e a colocar para brincar com os amigos na rua. Na pandemia, isso é mais difícil, mas antes também estava assim”, ressaltou.

Edebrande afirmou que o contato corporal, como o olhar, o gesto e o abraço fazem parte da formação da personalidade da criança.

De acordo com o psicólogo e psicoterapeuta Gerson Abarca, entre os impactos psicológicos que a criança pode sofrer com o contato intenso com a internet estão a perda de potencial cognitivo, em nível de estrutura cerebral, o isolamento social e a ausência de contato afetivo com pessoas.

“Os sistemas de tecnologia de informação neutralizam o relacionamento real com o outro. E a criança, principalmente de 0 a 12 anos, precisa de mais contato físico”, disse. Em muitos games, ainda, para a pessoa passar de fase ou conseguir itens diferentes precisa fazer compras em dinheiro.

“Os games são elaborados com segundas intenções de consumo, nada é de graça. Às vezes, até adultos entram nos jogos online, sem pagar nada e, depois com o tempo, quando o sujeito já está dependente, perde-se a gratuidade” afirmou.

Até mesmo dentro de casa as interações têm diminuído, devido ao excesso de usos de games, segundo a pediatra Bruna de Paula. “As crianças estão acelerando a puberdade, por contato com imagens impróprias para a idade, e até tendo distúrbio de sono”, disse. “Tem criança que finge que dormiu para jogar de madrugada”.

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar a exposição às telas as crianças menores de 2 anos; limitar a até uma hora por dia o tempo de crianças entre 2 e 5 anos; limitar a até duas horas por dia o tempo de tela de crianças entre 6 e 10 anos.

Estímulo à arte

 (Foto: Beto Morais/AT)

A coordenadora disciplinar Brunela Rangel Martinelli Secato, 36 anos, estimula que a filha Maria Eduarda, 8 anos, faça atividades manuais. “Ela gosta muito de fazer arte. Por isso, compro canetinha, papel e cola, para fazer slime. Ela também gosta de brincar de casinha, boneca e maquiagem”, contou.

“Ela não tem telefone. Quando joga, usa aqueles que de fazer tie-dye (amarrar e tingir), maquiagem e de salvar o gatinho”, relatou Brunela.

Jogos usados na educação

Quando utilizados da forma e no tempo correto, muitos games têm potencial educativo e de estímulo à interação e ao desenvolvimento de habilidades cognitivas e motoras.

O uso de dinâmicas de jogos para melhorar o aprendizado, de forma dinâmica e de fácil assimilação, é chamado de gameficação. A estratégia tem sido adotada por escolas, principalmente na pandemia.

No UP Centro Educacional, um exemplo é o jogo UPfighter, usado nas aulas de física do ensino médio, que tem o objetivo de vencer as lutas contra a Chun-Li, personagem ficcional de videogame.

Nesse jogo, são estimuladas a percepção viso-motora, a atenção e a memória de trabalho. Além disso, é uma forma de tornar os conceitos de óptica mais familiares.

Plataformas de jogos educativos como a Kahoot e a Wordwall são utilizadas pela escola Sagrado Coração de Maria em diversas disciplinas, como Português, Matemática, Ciências, Inglês.

O Centro Educacional Leonardo da Vinci também utiliza ferramentas de gameficação. Entre elas, está a Matific, usada nas aulas de Matemática do ensino fundamental I, e a Jovens Gênios, usada em disciplinas do ensino fundamental II.

Segundo a pedagoga e mestre em Educação Maria José Cerutti, os games têm sido um dos recursos didáticos no ensino, tanto em aulas virtuais quanto presenciais, como motivação da aprendizagem.

“Os games podem aproximar o aluno à realidade dele. Isso faz com que se interesse mais pelo conhecimento, porque está dentro do contexto em que vive”, explicou. Maria José ressaltou que é preciso utilizar também outros recursos, como livros e vídeos, para diversificar o aprendizado.

Aumento de miopia e estrabismo na pandemia

Desde o início da pandemia, devido ao crescente uso das telas, houve aumento dos casos de miopia e estrabismo em crianças de todo o mundo, segundo estudos da Academia Americana de Oftalmologia e da BMC Ophthalmology.

De acordo com a médica oftalmologista Hanna Teodoro, o excesso de telas faz com que o olho cresça na parte posterior, o que pode causar a miopia. No caso do estrabismo, olhar as telas muito de perto pode estimulá-lo.

Problemas como olho seco, sensação de coceira nos olhos e dor de cabeça na região atrás dos olhos ou na testa também são sintomas.

“Não aproximar a tela muito do rosto, deixar no mínimo a uma distância de 30 cm e procurar diminuir o brilho da tela, para ficar mais escuro, são dicas para evitar problemas. Se precisar escolher um eletrônico, escolha a televisão”.

Segundo a pediatra Bruna F. B. de Paula, outros problemas que podem ser desencadeados são o déficit de atenção, a hiperatividade e a obesidade.

“Tenho observado casos de crianças com hipertensão, diabetes e mais introspectivas. Mesmo depois que o mundo voltar ao normal, a tendência vai ser essa”.

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