A pandemia deixou quase metade dos adolescentes, com idades entre 12 e 17 anos, nervosos, ansiosos e de mau humor. É o que aponta pesquisa realizada pela Fiocruz, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Unicamp.
Esses problemas foram relatados por 48,7% dos jovens ouvidos no estudo “ConVid Adolescentes – Pesquisa de Comportamentos”, realizada de forma online com 9.470 adolescentes de todo o Brasil, de junho a setembro de 2020.
Segundo a pesquisadora Celia Landmann, coordenadora do trabalho, quase metade dos adolescentes ouvidos relatou ter sentido preocupação, nervosismo e mau humor na maioria das vezes. Também mais de 30% relataram sentir isolamento e tristeza.
“Chama atenção o estado de ânimo desses jovens, que relataram tristeza, ansiedade e a ausência de amigos. A falta de atividade física entre os adolescentes foi um dos resultados que mais se destacou”, aponta Landmann.
Para a psicóloga Lana Francischetto, especialista em terapia cognitiva comportamental na infância e na adolescência, os jovens sofreram muito com os impactos da pandemia, entrando em estado de vulnerabilidade.
Ela disse que esses impactos precisam ser observados pelos jovens e seus familiares, principalmente mudanças de comportamento e humor.
“As rotinas foram ceifadas de modo abruto, e o convívio interpessoal, escolar, esportivo, dentre outros, tiveram impactos. Os sinais estão desde o ócio à intensidade aumentada dos estados de ansiedade, angústia, medo e até casos deprimidos”.
Já a psiquiatra da Infância e Adolescência Fernanda Mappa destacou que algumas desordens psíquicas podem continuar sendo sentidas pelos adolescentes mesmo após o fim da pandemia, no momento de retomada da rotina.
“Alguns adolescentes podem ter dificuldades no processo de saída, vivenciando insegurança, medos excessivos, sensação de mal-estar na rua ou em locais com mais pessoas”, afirmou Fernanda.
Para a especialista, muitos adolescentes estão vivenciando as diversas formas de comportamentos compulsivos, dentre eles aumento no consumo de doces ou massas.
Preocupação com nota em vestibulares
A estudante e estagiária Naila Manthay, de 18 anos, viu seu mundo virar de cabeça para baixo durante a pandemia. A jovem, que já fazia tratamento para ansiedade e estuda para fazer o vestibular, ficou ainda mais preocupada.
“Os relacionamentos ficaram ruins, fiquei mais distante da família e dos amigos, não só por causa do isolamento. Em muitos momentos de crise de ansiedade, eu não conseguia conversar com ninguém, nem mandar uma mensagem ou fazer uma ligação”, afirmou.
Com a realidade de ter de estudar online, ela se sentia ainda mais ansiosa. “Não consegui me organizar, tinha falta de concentração. Por muitos momentos desisti de estudar por achar que não iria conseguir”.
Falta de concentração em aulas
A pesquisa da Fiocruz apontou ainda que 59% dos adolescentes afirmaram ter dificuldades de se concentrar nas aulas online. Cerca de 38,3% mencionaram a falta de conexão com os professores, e 31,3% ausência de interação com amigos como dificultadores.
Para o médico psiquiatra Jairo Navarro, o rendimento das aulas virtuais para a maioria dos alunos não será bom como no presencial.
“Primeiro que o ambiente domiciliar não é um ambiente acadêmico. É muito mais difícil para um jovem se concentrar em casa do que na escola. Não existe uma preparação para um ensino online, é uma adaptação urgente que surgiu”.
Já o professor de História do Ifes de Linhares Max Dias afirma que a principal problemática das aulas a distância é o condicionamento de alunos, que acaba influenciando no nível de concentração.
“Para esses alunos a capacidade de concentração já é difícil na sala de aula, porém ali existem as sociabilidades. O aluno tem o costume desde a infância de perceber os momentos que eles podem falar, levantar, ir ao banheiro. A distância, isso está o tempo todo corrompido. A escola mais do que nunca se mostra com um espaço necessário para a aprendizagem”.
Saiba mais
Os resultados
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Pesquisa da Fiocruz com adolescentes de 12 a 17 anos apontou que sentir-se preocupado, nervoso ou mal-humorado foi descrito por 48,7% dos adolescentes. Entre as meninas, o percentual foi de 61,6%.
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O consumo de alimentos não saudáveis em dois dias ou mais por semana aumentou em 4%.
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Sobre as dificuldades para acompanhar as aulas online, 59% informaram ter dificuldade de concentração, 38,3% mencionaram a falta de conexão com os professores.
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O percentual de estudantes que disse estar entendendo pouco do conteúdo repassado de maneira virtual ultrapassou os 47%, e 15,8% declararam que simplesmente não conseguem compreender as aulas.
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Aumentou o número de adolescentes que não praticam sequer uma hora de atividade física na semana. Antes da pandemia esse contingente era de 20,9%, e com a chegada da Covid-19 ultrapassou os 43%.
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Quase 24% apresentaram problemas para dormir.
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A maioria (71,5%) aderiu às medidas de restrição social, com 25,9% em restrição total e 45,6% em restrição intensa, saindo só para supermercados ou casa de familiares.
Fonte: Pesquisa da Fiocruz.
