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Além da preocupação com os cuidados essenciais para a não proliferação do vírus da covid-19, a volta às aulas nas escolas da rede pública do Estado, prevista para começar no mês que vem, traz também uma outra aflição para os professores: as ameaças que eles sofrem por parte de seus alunos adolescentes.
Com a suspensão do ensino presencial, devido à pandemia, os casos, que antes eram corriqueiros em escolas, tornaram-se invisíveis, já que os alunos que cometiam o delito não tinham mais contato com os professores. Agora, o medo é que essas ameaças se tornem algo presente na vida da categoria.
“Isso já estava acontecendo desde o ano passado. Os professores contam esses casos informalmente, porque têm medo de sofrer represálias. Eles dizem que não se sentem seguros com esses alunos de volta às salas de aula”, afirmou o diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes), Julio Cesar Alves.
Sobre o perfil dos alunos que cometem ameaças, ele revela que os adolescentes de 15 a 17 anos estão no topo da lista. Entre os motivos que levam à prática do crime, Júlio César avalia vários. “Vai de levar o aluno até a coordenação até o fato de aplicar uma nota baixa”, disse.
Professora e coordenadora há cinco anos na rede pública do Estado, Cassia Lopes expressou sua preocupação com a segurança dos professores em sala de aula.
“Eu vejo vários relatos de professores que foram ameaçados por alunos adolescentes em sala de aula. Então é algo que existe e que me preocupa, principalmente agora na volta às aulas. E é por nos preocupar que já planejamos projetos em cima dessa violência”, disse a professora.
A pedagoga Caroline Farias Almeida conta que já viveu uma situação inusitada com um ex-aluno. Ela, que garante não se sentir intimidada com determinada situações, conta que aprendeu a lidar com esses fatos.
“Um aluno foi filmado fazendo um gesto de arminha, apontando para mim. Acionei a Secretaria de Educação, solicitando intervenção na escola. Mas independente disso eu tenho uma forma de lidar que é tentando ter sempre uma mediação”, afirmou a pedagoga.
“Famílias precisam de ajuda”, diz especialista
Com tantos adolescentes sendo apreendidos todos os dias no Estado, um questionamento tem sido feito frequentemente pela sociedade: o que está acontecendo com este público e o que fazer para resolver de vez o problema?
Para as pessoas que lidam diretamente com esses jovens, o problema está em suas famílias que precisam rapidamente serem tratadas.
“As famílias estão desestruturadas, elas estão doentes e precisam de apoio, precisam ser acompanhadas pelos serviços do Cras, com psicólogos e tudo mais. Essas crianças e adolescentes precisam, junto com a família, serem acompanhados”, afirma Josel Araújo Pereira, professor da rede pública de ensino há mais de 10 anos.
O diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindupes), Julio Cesar Alves, lembra que muitos pais ou responsáveis cada vez menos se sentem responsáveis por seus filhos.
“Quando o responsável é chamado na escola, muitas vezes os pais dizem que não têm domínio sobre seus filhos, se sentindo cada vez menos responsáveis”, disse.
A pedagoga Cassia Lopes, que também acredita que as famílias estão doentes, lembrou que a tecnologia vem afastando muitos pais dos filhos em casa. Ela julga essencial os momentos de união dentro do lar.
“Não existe mais o momento de família, de sentar e assistir ao jornal, por exemplo. A tecnologia nos trouxe uma individualidade muito grande. É preciso que os pais se aproximem mais de seus filhos”, afirmou a pedagoga.
Em nota, a Secretaria de Estado da Educação (Sedu) afirmou que as escolas da Rede Estadual contam com a equipe da Ação Psicossocial e Orientação Interativa Escolar (Apoie).
De acordo com a Sedu, a equipe atua na promoção de ações no âmbito das demandas psicossociais presentes no cotidiano escolar, visando contribuir para o desenvolvimento intelectual, emocional e social dos estudantes.
Treze menores são levados às delegacias todos os dias
Em um ano, pelo menos 4.406 adolescentes foram levados para delegacias do Estado, suspeitos de cometerem algum tipo de crime. O número é da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) e equivale a quase 13 adolescentes apreendidos por dia em todo o Espírito Santo.
Entre os crimes mais cometidos por menores de 18 anos estão os relacionados a tóxicos (2.058), crimes contra o patrimônio (514), de armas e munições (322) e contra a pessoa (291).
Para o titular da Delegacia do Adolescente em Conflito com a Lei (Deacle), Wellington Lugão, o número de adolescentes é ainda maior, uma vez que os casos são subnotificados.
“Muitas pessoas deixam de procurar a delegacia. No caso das pessoas que foram ameaçadas por eles, como é a situação de professores, por exemplo, por medo eles não vão”, explicou.
No caso de ameaças, cometidas por adolescentes, menores de 18 anos, o delegado explicou que o crime será passível de medida socioeducativa, de acordo com decisão do juiz que analisará o caso.
CASOS
Fome é um problema
Ao ser questionada por uma professora sobre uma atitude considerada errada, um aluno de 9 anos disse que preferia ir para cadeia porque na prisão “não iria passar fome”.
“Ele estava no 3º ano do ensino fundamental e falou que era melhor ser preso porque na prisão ele teria comida, bebida e pelo menos, de fome, ele não ia sofrer. Fiquei reflexiva”, conta a professora que pediu para não ter a identidade revelada.
O menino, que era morador de um bairro carente, foi acompanhado por uma equipe da escola e pelo serviço social da prefeitura. Ele não teve mais problemas na escola.
Medo na escola
Por ter sido reprimido, um aluno de 16 anos ameaçou uma professora. O caso aconteceu em Nova Carapina, na Serra.
Ao perceber que o aluno estava incomodando outros alunos durante a aula, a professora informou ao adolescente que iria chamar a coordenadora da escola. Ao reprimir o jovem, ela foi surpreendida pela resposta que ele deu.
“Ele disse que, se ela chamasse, ela ia ver”, contou um professor, que com medo de sofrer represálias, pediu para não ser identificado. O jovem então foi levado para a coordenação da escola e seus pais foram chamados ao colégio.