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Aumentam casos de depressão em jovens

De repente, toda rotina mudou. As aulas presenciais são suspensas, o convívio com os colegas também, e ficar dentro de casa passa a ser regra.Em nove ...

Amigas lutam contra ansiedade

Última atualização

Mãe de duas jovens com depressão: fé para ver as filhas curadas da doença (Foto: Divulgação)De repente, toda rotina mudou. As aulas presenciais são suspensas, o convívio com os colegas também, e ficar dentro de casa passa a ser regra.

Em nove meses lidando com a pandemia do novo coronavírus, as mudanças no convívio social, no lazer e na rotina têm provocado reflexos também na saúde mental, com aumento de casos de depressão entre jovens, adolescentes e até mesmo crianças.

Segundo médicos e psicólogos, muitas famílias têm buscado ajuda para tratar o problema que afeta os filhos. Alguns casos, mais graves, chegam a resultar em mortes.

Letícia Mameri, psiquiatra e diretora da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo, relata aumento significativo na procura por atendimento psiquiátrico, especialmente de adolescentes a partir de 15 anos até jovens que estão terminando a faculdade, com 24 anos.

Para ela, a pandemia e as suas restrições acabaram impactando no estresse e na ansiedade.

Letícia Mameri: alerta a pais  (Foto: Kadidja Fernandes - 06/08/2020)Mas ela observa que muitas vezes os pais não reparam os sinais e, quando observam, atribuem à questão do período da adolescência. “É um diagnóstico complexo e precisa ser feito por um médico psiquiatra, já que as mudanças inerentes da adolescência podem se confundir com quadros de oscilação de humor, de depressão e até bipolar”, alertou a psiquiatra.

O médico psiquiatra Jairo Navarro também confirmou o aumento de casos nos últimos meses. Entre os sinais, ele apontou que as crianças podem ficar tristes, perderem o prazer nas atividades ou ficar irritadas.

“O desempenho acadêmico também pode ser alterado e podemos ter mudança de comportamento. Quanto mais velha for a criança, e nos adolescentes e jovens, mais vemos os sintomas afetivos; quanto mais nova, maior é a evidência de mudança comportamental”.

A psicóloga e professora universitária Paula Costa destacou que o aumento tem sido muito percebido nos consultórios, entre 12 e 16 anos.

“A adolescência é uma fase já mais introspectiva. Mas, com a pandemia, esses meninos e meninas ficaram mais em casa, sem a escola para socializar e interagir. Então a busca por profissionais aumentou, pois os pais não estão sabendo, muitas vezes, lidar com esse momento”, revelou.

Amigas lutam contra ansiedade

Duas amigas de 20 anos, que enfrentam crises de ansiedade, lutam juntas para que esse problema não se agrave e evolua para a depressão.Amigas lutam contra ansiedade (Foto: Fábio Nunes/AT)

A ansiedade surgiu na vida delas em situações distintas, mas ambos os casos se agravaram na pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

A primeira a lidar com a ansiedade foi a universitária de Ciências Biológicas. Ela conta que isso se manifestou na infância, quando tinha crise de epilepsia e necessitava tomar remédio controlado.

De lá para cá, ela não deixou de ser ansiosa, mas admitiu que foi na pandemia que o problema ficou mais acentuado.

Sem poder sair de casa, estudar de forma presencial, ela foi se isolando até que chegou ao ápice: uma semana trancada no seu quarto, deitada na cama, de onde só levantava para comer.

Abusando da alimentação, a jovem ganhou 14 quilos, motivo que a deixou ainda mais triste.

“Chorava muito e não tinha forças para nada. Não gostava do meu corpo, pois achava que não era o padrão ideal”, contou.

Recentemente, ela resolveu dar um passo importante para tentar driblar o desânimo, voltou a praticar exercício físico, está se alimentando de forma mais saudável e voltou a se encontrar com amigos preferencialmente em locais mais ventilados para reduzir o risco de contágio da Covid-19.

Outro passo importante, como ela mesmo relatou, é procurar ajuda psicológica, a exemplo da sua amiga, uma técnica de enfermagem, que já está sendo assistida.

A técnica de enfermagem, inclusive, contou que o problema surgiu em sua vida na pandemia, quando se viu na linha de frente contra a Covid-19 e de teve de assumir sozinha o sustento da família, já que sua mãe ficou afastada do trabalho por um período.

Para manter as despesas, ela teve que arrumar mais um emprego, na mesma função.

“Trabalhava 24 horas e nas poucas horas de folga só queria saber de ficar trancada em casa. Não tinha força para nada e ainda tinha que lidar com uma frustração, já que sonhava em ser médica e não podia mais continuar fazendo cursinho”.

Ela, contudo, decidiu mudar de área e já não trabalha mais na saúde. “Agora quero ser jornalista. Estou muito feliz com a escolha. Isso tem me deixado mais leve”.

Problema tem sido detectado em escolas

Estudante: sinais em sala (Foto: Arquivo/AT)A percepção do aumento de casos de depressão entre crianças e adolescentes também tem chegado ao conhecimento das escolas. Em muitos casos, são os educadores que, dentro de salas de aula, ajudam as famílias a identificar o problema.

Mestre em Educação e membro da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Estado, o professor e deputado estadual Sergio Majeski afirmou que essa é uma realidade que tem crescido nas escolas nos últimos anos.

Ele, que também é presidente da Frente Parlamentar de Políticas para Juventude, ressaltou que o problema tem sido observado tanto na rede pública quanto na particular.

“Nas visitas que fiz em escolas, temos relatos de adolescentes com depressão e que chegam a se automutilar. Isso tem aumentado assustadoramente”, citou.

Ele reforçou que, mesmo com um ano marcado pelo novo coronavírus, nunca foi tão necessário pensar na criação de equipes multidisciplinares, com psicólogos e outros profissionais para atender esses casos.

“Na rede pública, por mais que professores e pedagogos tentem ajudar, eles não estão preparados para isso. Para onde podem encaminhar esse aluno? Onde ele vai ter um acompanhamento?”

Nas escolas, educadores também têm notado casos, principalmente, diante de mudanças de comportamento e das notas.

Em uma escola particular, um dos professores, que preferiu não se identificar, afirmou que, entre os sinais que são percebidos, está a falta de interesse do estudante, além da queda brusca nas notas.

“Nesses casos, os pais são chamados a conversar e são orientados a buscar ajuda. Tem casos de alunos que chegam a arrancar fios de cabelo ou a cortar os braços”, disse.

Um outro educador, que atua na rede particular, ressaltou que a parceria entre a escola e a família é crucial na percepção dos casos.

“O grande problema é que os sinais nem sempre são visíveis. E é justamente na introspecção dos alunos que pode morar o perigo. Sem dúvidas, o diálogo é o caminho, bem como a vigilância”.

Uso de técnicas mais modernas

Com o aumento da depressão, principalmente neste momento de pandemia do novo coronavírus, a procura por outras técnicas para o tratamento da doença também tem crescido.

Leandro Valiengo: estimulação (Foto: USP/Divulgação)O médico psiquiatra do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Leandro Valiengo, afirmou que, além do tratamento com antidepressivos, há opções de diferentes formas terapêuticas.

Entre elas, ele citou os tratamentos biológicos como a estimulação neuroelétrica (eletroconvulsoterapia), a estimulação magnética transcraniana e a estimulação cerebral por corrente elétrica contínua.

Apesar de algumas das técnicas já serem usadas há alguns anos, elas foram aprimoradas e têm sido adotadas em ambiente hospitalar para pacientes com depressão leve, moderada ou grave.

No caso da eletroconvulsoterapia, Leandro explicou que é a mais antiga delas. No entanto, diferentemente do passado, o tratamento é realizado seguindo protocolos de segurança e eficácia, sob sedação, de forma indolor e com o mínimo de efeitos colaterais.

“A técnica é a mais eficaz, geralmente com resposta em até 80% dos casos. A partir de uma carga elétrica, induz-se uma crise convulsiva de curta duração”.
No Instituto de Psiquiatria, são realizados cerca de 30 procedimentos diários.

Outro tratamento é a estimulação magnética transcraniana, que segundo o médico, incita a ativação dos neurônios. Ela não é invasiva, tem mínimos efeitos colaterais e dispensa a sedação.

O resultado das novas técnicas estimulou a criação de um curso acadêmico inédito que passará a fazer parte da grade de cursos de especialização latu sensu do hospital, o curso de Psiquiatria Intervencionista.


SINAIS DE DEPRESSÃO


Alerta para redução ou aumento de apetite

Em crianças
> São diferentes dos sinais em adultos, podendo se manifestar de formas sutis:
>  Queda de rendimento escolar;
>  Recusa escolar (faltas ou dificuldade de ficar até o final das aulas);
>  Irritabilidade e falta de atenção;
>  Alterações de sono são comuns, com presença de mais medos ou mais idas ao quarto dos pais;
>  Redução ou aumento do apetite, perda de peso ou aumento;
>  Isolamento social e choro fácil.

Em adolescentes e jovens
>  Os sinais podem ser mais semelhantes aos sintomas em adultos:
>  Isolamento e mudanças bruscas de comportamento e hábitos;
>  Perda de interesse por atividades de que gostava;
>  Falta de entusiasmo, energia ou motivação;
>  Descuido com a aparência;
>  Piora do desempenho na escola ou no trabalho;
>  Alterações no sono ou no apetite (perda ou aumento).

Como ajudar
> Especialistas alertam para a necessidade de os pais “enxergarem” os filhos, percebendo de forma precoce as alterações de comportamento e procurando ajuda especializada.
> Também devem acolher suas queixas, evitando frases do tipo: “É frescura”, “Na minha época, resolvia com chinelo”, “Para que tanto chororô?”.
> Criar o hábito de escutar e conversar sobre os problemas é essencial.

Fonte: Especialistas consultados.

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