Dados pessoais de mais de 1,79 milhão de capixabas estão nas mãos de bandidos. Eles se juntam a 97.459.881 de brasileiros que fazem parte de uma lista que está sendo compartilhada no submundo da internet.
Em janeiro do ano passado, o Brasil foi surpreendido com a notícia de um vazamento de dados pessoais de proporções jamais vistos no País, prato cheio para os golpistas, que passaram a vender as informações, causando prejuízos e muita dor de cabeça às vítimas.
A reportagem de A Tribuna revela agora que na base de dados que está nas mãos de bandidos há 1.794.607 capixabas.
Os números, assim como o perfil das vítimas, foram divulgados por um hacker capixaba, que teve acesso ao banco de dados. Ele trabalha como pesquisador de segurança em uma empresa na Grande Vitória.
Pedindo que seu nome seja preservado, ele conversou com a reportagem durante dois dias, numa entrevista que foi acompanhada pelo especialista em Segurança Digital Eduardo Pinheiro.
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O vazamento corresponde a dois arquivos com registros de dados distintos, porém relacionados. As bases foram compiladas em 2019 e publicadas pelo mesmo usuário em um fórum conhecido por ser utilizado para divulgação de informações dessa natureza.
O primeiro arquivo, ao qual o hacker teve acesso, contém nome completo, telefone, CPF, data de nascimento e renda. Os dados, de acordo com ele, atualmente são comercializados por meio de compra de assinatura. Ou seja, por mês, o interessado nas informações pessoais paga cerca de R$ 250.
De posse desses dados, os criminosos conseguem abrir contas bancárias em nome de laranjas, fazer abertura de cartões crédito, empréstimos, financiamentos de veículos e imóveis. “Eles também usam as informações para clonagem do WhatsApp e para pedir dinheiro”, contou o hacker.
Sobre a renda, ele disse que o banco de dados traz remunerações de R$ 788 até R$ 30 mil. “Apesar de o maior valor ser de R$ 30 mil, existe a renda presumida. Um dos exemplos é de um empresário, que na lista aparece com um salário de R$ 30 mil, mas o capital social da sua empresa é de R$ 100 mil”.
Já Eduardo Pinheiro lembra que, além dos dados que o hacker possui, há outra base vazada, com 223 milhões de dados de brasileiros.
SAIBA MAIS
Megavazamento de dados pessoais
- Divulgado em janeiro de 2021 pelo Dfndr Lab, laboratório especializado em segurança digital da startup PSafe, o vazamento de dados expôs mais de 223 milhões de CPFs de brasileiros e é considerado o maior da história.
- No Estado, segundo levantamento de um hacker capixaba, em uma base de dados que está nas mãos de bandidos há 1.794.607 de capixabas.
Dados expostos
- Foram reveladas na ocasião algumas listagens de vazamentos: a primeira inclui dados como nome completo, CPF, data de nascimento, gênero e renda.
- Ela foi disponibilizada para download em fóruns conhecidos por divulgar esse tipo de informação.
- O outro vazamento, muito mais abrangente, inclui dados de escolaridade, benefícios do INSS e programas sociais (como o Bolsa Família), renda e score de crédito.
- Também há lote de dados que está à venda, incluindo informações sobre empresas.
O que é vendido?
- Os criminosos estão vendendo pacotes que contêm as seguintes informações:
- Dados básicos relativos ao CPF (os mesmos já inclusos no arquivo público, como nome, data de nascimento e endereço).
- Endereços.
- Fotos de rosto.
- Informações financeiras sobre score de crédito, renda, cheques sem fundo e outras.
- Imposto de renda.
- Dados cadastrais de serviços de telefonia.
- Escolaridade.
- Benefícios do INSS.
- Dados relativos a servidores públicos.
- Informações do LinkedIn.
Valores
- US$ 30 mil (R$ 156 mil) – Valor que listagens completas chegavam a custar.
- R$ 250 – Mensalidades de “pacotes” que permitem consultas de dados (com número de CPFs limitados).
Dados sobre a renda
- O hacker capixaba apontou que o banco de dados traz informações desde remunerações no valor de R$ 788 até R$ 30 mil.
- Essa renda é a mesma encontrada no banco de dados vazados de quem tem mais de 60 anos de idade. A quantidade de idosos que consta no banco de dados é de 673.233 no Estado. Já no Brasil, são 39.679.056.
O que é possível fazer com os dados pessoais?
- Segundo especialistas, o vazamento dos dados pode ser altamente perigoso, já que, com os dados, é possível cometer vários outros crimes ou ainda aplicar golpes.
- Com esses dados, é possível, por exemplo, abrir uma conta bancária, realizar um empréstimo, habilitar uma linha telefônica e, até mesmo, criar um cartão de crédito.
- “Esses dados, certamente, serão utilizados para prática de fraudes financeiras e comerciais”, afirmou o especialista em Segurança Digital Eduardo Pinheiro.
- Além disso, é possível também cometer outros tipos de crimes, como os golpes do WhatsApp.
Quem vazou os dados?
- Ainda não se sabe de onde esses dados foram roubados, mas há possibilidade de que o pacote tenha sido consolidado a partir de diversas fontes, incluindo outros vazamentos anteriores. Instituições financeiras chegaram a ser apontadas como fontes do vazamento.
- Os dados foram publicados por um criminoso em um fórum on-line dedicado à comercialização de bases de dados. O indivíduo que ofertou a lista de CPFs gratuitamente é o mesmo que vende as outras informações.
Como saber se tive os meus dados vazados?
- O número de CPFs vazados (223 milhões) supera a população brasileira (estimada em 212 milhões). Então é provável que pelo menos dados básicos de cada cidadão estejam disponíveis e que, entre eles, estejam dados de pessoas já falecidas.
- As pessoas não têm como saber se alguma informação específica a seu respeito consta em um dos vazamentos.
- Serviços que prometem verificar vazamentos exigem o CPF, ou seja, é necessário fornecer dados pessoais para fazer a consulta, o que não é considerado uma prática segura.
- No entanto, é possível verificar junto aos bancos que contas, movimentações de crédito (fatura do cartão, financiamentos e empréstimos) e cambiais foram feitas em seu nome.
Como se proteger
- Apesar de ser difícil evitar que dados pessoais caiam nas mãos de criminosos, já que vazamentos expõem muitas informações, é possível se proteger de alguns crimes e golpes com medidas de segurança.
1 – Transferências
- Desconfiar de pedidos on-line de empréstimos ou transferências de dinheiro feitas por parentes e amigos.
- Priorizar acertos presencias referentes à transferência de quantias em dinheiro.
- Alerte parentes e amigos que jamais irá solicitar dinheiro por mensagens de texto.
2 – Cuidados com contatos
- Bloqueie a foto do perfil do WhatsApp para estranhos, já que elas costumam ser usadas em golpes em que criminosos se passam pela vítima para pedir dinheiro a parentes.
- Ative no aplicativo a “Confirmação em duas etapas”.
3 – Notificações e consultas
- Consulte com frequência o site cadastropre.com.br para verificar se o CPF está sendo utilizado por bandidos em linha de telefone pré-pago.
- Desconfie de facilidades e busque sempre os canais oficiais de bancos e órgãos públicos ao receber notificações.
- Consulte o serviço Registrato do Banco Central e verifique se há contas bancárias desconhecidas em seu CPF.
- Como o criminoso pode criar uma empresa no nome da vítima, é importante que ela cheque nos dados da Receita Federal se existe algum CNPJ em nome dela.
4 – Conta
- Esteja sempre atento ao extrato da conta-corrente, fatura de cartão de crédito, contas digitais e outros.
- Se por acaso o usuário descobrir que as suas senhas foram vazadas, é importante mudá-las imediatamente.
5 – Links suspeitos
- Não clique em links enviados por SMS, principalmente os que dizem ser de bancos.
- Entre os golpes comuns, estão aqueles em que criminosos enviam mensagens se passando por instituições financeiras para falar que solicitou um empréstimo ou está com alguma dívida.
- Desconfie dos telefones disponibilizados em mensagens como se fossem de bancos.
- Não passe dados, como número de cartão e senha, por telefone e não forneça senhas ou outros dados de acesso em sites ou aplicativos.
6 – Segurança
- Verifique se o link possui o https para uma conexão segura para a inserção de dados.
- O mesmo vale para o cadeado antes do endereço. O usuário pode clicar nele para verificar o certificado de segurança e data de validade.
7 – Denúncias
- Caso constate a utilização indevida dos seus dados pessoais faça um boletim de ocorrência da delegacia.
Fonte: Eduardo Pinheiro, especialista em segurança digital, Agência Globo e hacker capixaba.