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Capixaba procura colegas de viagem ilegal que fez para os EUA há 30 anos

Há 30 anos, a busca pela vida na América do Norte levou 14 jovens capixabas a deixarem suas famílias no Estado e seguirem uma longa viagem pelo ...

Amarildo ao lado da mulher Cláudia Silveira e das filhas Letícia e Júlia

Última atualização

Amarildo ao lado da mulher Cláudia Silveira e das filhas Letícia e Júlia (Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)

Há 30 anos, a busca pela vida na América do Norte levou 14 jovens capixabas a deixarem suas famílias no Estado e seguirem uma longa viagem pelo continente. O grupo, que se submeteu às formas ilegais de imigração, passou por momentos delicados durante os 55 dias que gastou para chegar aos Estados Unidos.

Mas esses momentos ruins ficaram pequenos perto do carinho e da saudade que o capixaba Amarildo Gomes Silveira, hoje com 56 anos, sente pelos amigos de viagem. O pintor, que mora em Nova Iorque, sonha em reencontrar os 13 colegas para relembrar as situações vividas durante o trajeto. Alguns dos amigos, ele não vê há muitos anos.

“Meu sonho é reencontrar todos eles e colocar a conversa em dia, saber como eles estão e relembrar cada momento que passamos. Só não sei como encontrar a todos”, diz o capixaba.

Natural de Cachoeiro de Itapemirim, o capixaba conta que conheceu os integrantes do grupo em 13 de julho de 1990, em Vitória. Dois dias depois, seguiram para o Rio de Janeiro, onde pegaram um voo para a Colômbia.

“Lembro que era época de guerrilha e ficamos uma semana por lá. O líder do nosso grupo se chamava Dicson e ele dizia que já tinha levado outras pessoas para os EUA e que ia nos levar para Belize, um país da América Central, mas as coisas não deram tão certo”, disse.

Dali por diante, segundo o brasileiro, as dificuldades para chegar aos EUA foram grandes. “Sentimos frio, sede, fome, alguns ficaram doentes. Eu, por exemplo, fiquei quatro dias doente em Honduras. Na Costa Rica, em uma viagem de ônibus, o veículo pegou fogo com todos dentro, mas ninguém se feriu”.

Mesmo com todas as dificuldades, o pintor faz questão de falar sobre os momentos de alegria que viveu com os amigos.

“Lembro dos momentos na Colômbia, onde fomos visitar um museu; em Honduras, quando fiquei doente e fui cuidado pelos amigos Carlos e Marcos”, contou, o pintor, que revelou ainda que gastou R$ 20 mil na aventura.

Amarildo deve vir ao Brasil em julho e quer fazer um encontro com quem ele conseguir contato. Quem tiver informações sobre os colegas de viagem dele pode entrar em contato pelo e-mail [email protected].

“Passei fome e sede. Fiquei quatro dias sem comer”

 (Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)Ficar quatro dias sem comer, alguns sem beber água, passar frio, calor de quase 45º e quase morrer asfixiado por estar dentro de um veículo com mais de 50 pessoas, não é para qualquer um.

Foi o que passou o capixaba Amarildo Gomes Silveira, hoje com 56 anos, durante os 55 dias de uma viagem que o fez concluir um sono: morar nos Estados Unidos.

Ele, que hoje mora nos EUA com a mulher, a capixaba Cláudia Barbosa Silveira, 49 anos, e as duas filhas, Letícia, 12, e Júlia, 7, contou os detalhes da viagem.

A Tribuna – Por que decidiu reencontrar seus amigos?
Amarildo Silveira –
É uma história de vida. Eles também participaram da minha história. Eu queria encontrar a turma, saber como eles estão, conhecer os detalhes da vida deles. Quero manter contato daqui em diante.

Por que quis ir aos EUA?
O meu sonho era conhecer uma outra cultura, outro idioma e estar em um lugar que desse mais oportunidade para eu crescer e criar meus filhos.

Qual momento te marcou positiva e negativamente ?
Negativo foi o momento em que entramos em um caminhão, depois de atravessar o rio entre a Guatemala e o México. Foi horrível porque, ali, nós quase morremos sufocados. Quando começo a me lembrar, sinto até falta de ar.

E positivo foi estar junto com os amigos. O percurso da viagem até a saída da cadeia, nos EUA, foi muito bom. Todos os momentos bons com os amigos e a sobrevivência pelo México.

Pensou em desistir?
Não. Jamais. Eu disse que só voltaria morto para o Brasil. Era o meu sonho, objetivo. Eu sabia que aqueles momentos ruins iriam passar. Eu queria mudar a minha história e mudei. Hoje, eu e minha família temos qualidade de vida. Eu vim para mudar minha geração, queria que minha geração fosse criada com a cultura daqui.

O senhor estabeleceu família nos Estados Unidos?
Dois anos depois que cheguei aqui, minha esposa veio, com o visto, e nos casamos. Tivemos duas filhas: a Júlia, de 8 anos, e Letícia, 12. Em 2006, conseguimos o Green Card e, em 2012, conseguimos a cidadania americana.

Valeu a pena a viagem?
Valeu muito a pena. Quem ganhou e cresceu foi eu. Eu só não faço tudo de novo porque, hoje eu tenho família. É claro que se fosse para fazer, fazia tudo de novo, mas de forma segura. Vejo que Deus esteve em cada passo que demos.

Qual recado deixa para os seus amigos?
Que eu gostaria muito de reencontrá-los e pedir que eles entrem em contato comigo. Ano que vem, em julho, devo ir no Brasil. Então, seria bom um encontro no Estado. Mesmo se não puderem ir, que me liguem para mantermos contato.


Características dos 13 jovens


Nomes e apelidos de como eles eram conhecidos

  • Maguila – Moreno alto. Se parecia com um lutador de boxe e na época ele tinha 24 anos. A informação é que ele teria ido para Boston, capital de Massachusetts. Após ser solto pela imigração americana com Carlos, Amarildo, Dande e “Rabugento”, ele foi para casa de um amigo de Amarildo, em Nova Jersey.
  • Crocodilo dundee – Era de Venda Nova do Imigrante. Um homem simples, ingênuo, tinha profissão de barbeiro. Na época, tinha 25 anos. Teria ido para Nova Jersey. Também foi para casa de um amigo de Amarildo, em Nova Jersey.
  • Charles Bronson – Tinha boa aparência e era o mais velho da turma. Tinha uma deficiência no braço. Parecia ter aproximadamente 30 anos e usava óculos de grau. Teria ido para Boston após fugir da imigração com Tainha.
  • Tainha – Lembrava o personagem de um desenho que era policial. É moreno e estava junto de sua esposa, que também era morena. Ela tinha levado uma amiga chamada Neuza. Foram para Boston, em Massachusetts. Ele, a mulher e a amiga conseguiram fugir da imigração com Bronson.
  • Rabugento – Ele hipotecou a casa da tia e tinha medo de não conseguir chegar aos EUA. Tinha 25 anos. Teria ido para Boston.
  • ET – Era mecânico e tinha 22 anos, magro, com 1,70m. Ele teria ido para Nova Jersey, nos EUA.
  • Marcos – Era de Vitória e havia estado nos EUA, um ano antes. Ele era amigo do ET, tinha barba e aproximadamente 25 anos. Teria se mudado para Nova Iorque.
  • Dicson – Líder do grupo, tinha entre 35 e 45 anos quando saiu do Estado. Ele é moreno e tinha cabelo preto e os olhos escuros. Não sabe para onde ele foi.
  • Amendoim – Era músico, sonhador. Ele voltou na segunda semana para o Brasil, quando o grupo estava na Guatemala. É moreno claro e tinha aproximadamente 28 anos. Um tempo depois, Amarildo ficou sabendo que ele voltou para a América, mas não sabe onde ele está hoje.
  • Carlos Olmo – Ele tem hoje 56 anos. É moreno, magro. Após ser solto pela imigração americana com Carlos, Amarildo, Maguila e Rabugento, foi para casa de um amigo de Amarildo, em Nova Jersey e depois foi morar com Amarildo, na Jamaica, região de Nova Iorque. Não atende as ligações de Amarildo.
  • 13° amigo – Não se lembra o apelido ou nome dele. Era uma pessoa nova. Ele tinha um topete na frente e era branco, tinha o cabelo grande.

O trajeto de Amarildo


Cachoeiro de Itapemirim

  • Saiu no dia 13 de julho de 1990 com o amigo Carlos Olmo. Chegou no mesmo dia em Vitória e se encontrou com outras 12 pessoas. Eles ficaram na cidade dois dias e depois foram para o Rio de Janeiro. De lá, saíram no mesmo dia para a Colômbia.

Colômbia

  • Lá, o grupo ficou uma semana e seguiu de avião até o Panamá.

Panamá

  • O grupo chegou pela manhã, ficou algumas horas e foi à Costa Rica.

Costa Rica

  • Ficou em um hotel por horas. A imigração os deteve por algumas horas, mas como a maioria não tinha passagem de volta para o Brasil, deixou eles seguirem viagem. O grupo foi de ônibus para Honduras.

Honduras

  • Amarildo ficou 4 dias doente com um furúnculo na perna. Em seguida, o grupo pegou avião até Guatemala.

Guatemala

  • O líder, que havia prometido levar o grupo até os EUA, desapareceu. Eles ficaram 3 semanas no país e conheceram outro agenciador. Viajaram em um ônibus até a fronteira do México.

México

  • Atravessaram o rio Suchiate, na fronteira entre Guatemala e México, de jangada, com boias.
  • Depois foram colocados em um caminhão. O grupo não conseguiu seguir viagem no caminhão. Precisaram parar na beira da estrada e o motorista os abandonou. Uma mulher acomodou as 52 pessoas na casa dela por 2 dias.
  • Depois, o grupo conseguiu contato com um agenciador e seguiu para San Diego, Califórnia.

Estados Unidos

  • Já na Califórnia, nos EUA, o grupo foi pego pela imigração americana. Alguns conseguiram fugir. Eles foram levados para a prisão, onde permaneceram por cinco dias, sendo liberados após este período.

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