
Desenvolvida pelo Hospital do Coração (HCor) em parceria com o Departamento de Imunologia da Universidade de São Paulo (USP), a vacina é, segundo os especialistas, uma esperança para tumores malignos cerebrais, em especial o chamado glioblastoma.
“O grande avanço está no fato dessa nova vacina não precisar ser injetada diretamente no cérebro, como na experiência americana, e sim na pele, como uma vacina BCG (contra tuberculose). Desse modo, o tratamento é bastante seguro”, explica o neurocirurgião e professor de Medicina da USP, Guilherme Lepski.
A vacina não é preventiva, e sim terapêutica. “A proposta é que essa terapia estimule os sistemas de defesa do corpo do paciente e o ensine a combater a doença por si só, para diminuir a progressão da enfermidade e promover a cura”.
Júlio descobriu a doença em 2017, após uma convulsão. Ele passou a sentir fortes dores de cabeça e foi submetido a exames e tomografias. Em setembro foi diagnosticado com o câncer cerebral, no caso dele, o glioblastoma multiforme grau IV.
O tumor tinha 3 cm na descoberta, e em uma semana dobrou de tamanho. Passou pela cirurgia e fez quimioterapia até o final de 2018, quando o tumor desapareceu. Em 2019, Júlio parecia curado. Em janeiro deste ano, o tumor voltou de maneira ainda mais agressiva.
A família já gastou mais de R$ 160 mil com medicamentos.
“Houve a recidiva do tumor. Com essa recidiva, passamos a buscar outros tipos de tratamento, e encontramos a vacina em fase de teste no hospital Hcor, em São Paulo. Júlio está na 4ª dose. A vacina é um tratamento em teste ainda, mas tem a esperança de uma nova vida para ele”, conta a esposa, a professora e nutricionista Suemar Botelho Riani, 41.
Paciente vai casar amanhã
Mesmo em meio ao desafio da doença de Júlio, o casal resolveu realizar um sonho antigo, de se casar na igreja. Os dois já são casados no civil e são pais da Júlia de Fátima, de 7 anos, e da Cibele de Cássia, 4. A cerimônia será amanhã.
Os planejamentos para o casamento seriam para o ano que vem, mas eles resolveram preparar tudo em quatro dias.
“Na terça-feira recebemos a notícia de que poderíamos receber a benção de Deus já no próximo sábado. Nossa família é extremamente católica”, disse Suemar.
Ela já tinha casado na igreja e não poderia casar pela segunda vez, sem a nulidade do primeiro casamento. “Entrei com o processo de nulidade, e há um mês essa anulação saiu. Como é uma vontade dos dois, decidimos oficializar o matrimônio perante Deus”, afirmou.
“Recebemos praticamente tudo de presente, e o casamento vai ter vestido de noiva e terno para o noivo. Nossas filhas serão daminhas”, revelou.
“Tempo de vida dos pacientes duplicou durante estudo”, Guilherme Lepski

A Tribuna – Em que fase a pesquisa está?
Guilherme Lepski – A pesquisa está na fase dois. Vinte pacientes participam dessa segunda fase. A sobrevida desses doentes, que possuem bioblastoma recorrente, ou seja, um bioblastoma que retornou após o tratamento padrão ouro, é o objetivo principal dos estudos.
A Tribuna – Há resultado preliminar?
Guilherme Lepski – A análise que foi feita recentemente mostrou que a sobrevida dos doentes duplicou. Então a sobrevida esperada para essa população nos estudos é de 15 meses. E na nossa casuística, isso foi para 33 meses, ou seja, quase três anos depois do retorno do bioblastoma, e isso é bastante significativo.
A Tribuna – Tem um prazo para finalizar as pesquisas?
Guilherme Lepski – Agora vamos seguir com dois caminhos. Vamos continuar uma nova fase com esses 20 doentes, e vamos iniciar uma fase ‘três’ controlada com um grupo que vai receber a vacina e outro grupo vai receber um placebo, e vamos ver o que acontece com o tumor nos dois grupos.
O blastoma não tem cura. O tratamento não visa à cura, visa prolongar a vida do doente e proporcionar qualidade de vida.