A cozinha pode ser um espaço de troca de afeto e de partilha de tradições. Algumas receitas são até uma viagem pela própria história, principalmente no Espírito Santo, que é formado por povos de todo o mundo.
As famílias capixabas mantêm a tradição e fazem as receitas originais dos avós e bisavós.
Com os pratos, as famílias preservam a memória dos familiares e honram as raízes italianas, libanesas ou portuguesas, por exemplo.
A coordenadora do curso de Gastronomia da Universidade Vila Velha (UVV), Marcela Bourguignon, explica que a memória afetiva de algumas receitas pode ser construída, até mesmo, no dia a dia.
“A cozinha afetiva é feita de experiências pessoais, que não são passíveis de valoração. Quando se ensina um prato da minha família, as ‘Bourguignons’, se transmite a experiência de construção histórica do indivíduo que vivenciou esse prato. É possível criar experiências com o nosso repertório”.
A alimentação está ligada à afetividade e à intimidade, explica a psicóloga Vanessa Cristina.
Ela afirma que, em momentos ruins, o cérebro busca amenizar o sofrimento psíquico de imediato e, dessa forma, as receitas de famílias podem ajudar.
Benefícios
“Quando estamos passando por algum momento difícil, as receitas antigas da ‘vovó’, por exemplo, podem nos beneficiar. Preservar essas tradições familiares fortalece relacionamentos sociais saudáveis, como família e amigos, e outros parâmetros que afetam a vida humana”.
O terapeuta de família e psicopedagogo clínico Cláudio Miranda defende que as famílias podem criar as tradições alimentares no dia a dia. Ele explica, inclusive, que é natural que receitas familiares passem por adaptações na transmissão de geração a geração.
“A hora da comida agrega, une, alegra e satisfaz a família. Todo mundo lembra de uma comidinha especial que a mãe ou a avó preparavam. As receitas de família são dinâmicas e, ao mesmo tempo, passam de um para o outro e podem ir sofrendo modificações e adaptações”.
Culinária libanesa vira negócio no Estado
Descendente de libaneses e de portugueses, a publicitária e empresária Brígida Batista Alexandre, 58 anos, fez da cozinha de sua família – com ingredientes de origem e receitas da avó, também chamada Brígida, das tias e da mãe – um negócio: fundou, em 2019, seu próprio restaurante de culinária libanesa contemporânea.
Os quibes fritos da família levam ingredientes incomuns à culinária brasileira, com misturas feitas de forma tradicional.
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“A comida árabe tem suas particularidades e muito sentimento. Nossa culinária oferece aromas e sabores que não encontramos no cardápio brasileiro. Reproduzir essas receitas e usar o nome da família traz muita responsabilidade”.
Caderno da avó ensina a fazer granola
Quando a pandemia começou, a fotógrafa Débora Benaim, de 50 anos, resgatou o caderno de receitas, escrito à mão, da avó Beatriz.
A fotógrafa, quando criança, via a “vovó” fazendo a tradicional receita de granola, mas ainda não se interessava em aprender. Com a morte da avó, o caderno de receitas ficou com Débora.
“Quando a saudade apertava, eu abria o caderno onde estava a receita de granola e fazia do jeito que está escrito lá. Isso nos mantinha conectadas, parecia que ela estava comigo na cozinha”, afirmou.
Em 2020, Débora Benaim adaptou a granola e, agora, compartilha a receita da avó com seus clientes.
Sabor que lembra os bisavós
Descendente de italianos, a empresária Graziella Ferrari ama reunir a família para um almoço de domingo com a tradicional receita de molho de macarrão dos bisavós Pietrângelo De Biase e Maria Arcângela Vivacqua De Biase.
A receita está na família há gerações. “A casa fica até com o perfume do molho do macarrão. É uma mistura de sentimentos com o paladar. Meu filho, João Vitor, já prepara a receita para os amigos de São Paulo”.
RECEITAS DE FAMÍLIA
I. Família Nader-Receita de Quibe Frito
Ingredientes
– 500g de triguilho
– 500g de carne
– 1 cebola picada
– 1 maço de hortelã
– Pimenta síria
– Sal
Recheio
– 1kg de carne moída
– 1 cebola picada
– 4 dentes de alho socados
– Sal Pimenta síria
– Azeite
– 1 maço de hortelã picada
Modo de preparo
– Coloque o trigo para quibe em uma vasilha, lave bem e deixe-o com água o suficiente que cubra por 1 hora. Reserve.
– Misture todos os outros ingredientes e, após misturados, adicione o trigo para quibe.
– Misture tudo ou passe pela máquina de moer. Para o recheio, refogue 1 kg de carne moída no azeite, cebola, alho, sal e pimenta síria. Finalizar com hortelã picada.
– Abra os quibes e, em cada um, recheie com um pouco da carne moída pronta e fria. -Após moldá-los, frite-os em óleo quente.
II. Família De Biase-Receita de molho de macarrão
Ingredientes
– 12 tomates italianos bem maduros
– 1 cebola grande picadinha
– 5 dentes de alho picadinhos
– sal a gosto
– 1/2 kg cubos de acém (3 dedos)
– 1/2 kg calabresa em rodelas (2 dedos)
– 1 maço de salsa amarradinho
– 2 folhas de louro
– 1 colher de sopa rasa de açúcar e queijo ralado
Observação: a quantidade de molho atende a 1 kg de espaguete.
Preparo
– Em uma panela, acrescente azeite para selar o acém, sem tempero, até que fique dourado. Após, reserve o acém.
– Ao terminar, use o “escurinho” da panela para refogar a cebola e, quando estiver no ponto, acrescente o alho e mexa até que fique refogado. Depois, jogue os tomates e mexa, com sal a gosto.
– Acrescente um pouco de água para encorpar o molho e, após, coloque o acém na panela para cozimento em fogo médio.
– Tempere com sal a gosto e coloque o maço de salsa amarradinho. Quando o molho borbulhar, coloque uma colher rasa de açúcar. Mexa o acém e acrescente água ao molho durante as próximas 4 horas.
– Após três horas, coloque a calabresa e as folhas de louro. Não esqueça de acrescentar água durante todo o tempo para cozinhar o acém. Desligue quando o acém estiver desmanchando e a calabresa estiver cozida.
– Separe a carne e o maço de salsa do molho. Em uma travessa, misture o espaguete ao molho. Sirva a carne de forma separada. Use queijo ralado.