
A Sociedade Brasileira de Cardiologia mantém o Grupo de Estudos em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular (Gemca), formado por 850 médicos para debater ambos os assuntos. Vice-presidente do grupo, o cardiologista Mário Borba contou que a espiritualidade e a religiosidade são diferentes, mas ambas trazem benefícios para a saúde.
“As duas fazem bem. Mesmo que a pessoa não seja religiosa, mas mantém valores e busca a espiritualidade, ela se beneficia disso. Não é um credo específico, mas um conjunto de atitudes”, disse.
“Se a pessoa faz uma caminhada de 30 minutos, ela vai sentir o bem-estar imediatamente. Se fizer meditação por 30 minutos, a longo prazo, o bem-estar será bem mais significativo do que o da caminhada”, destacou.
Os números passados pelo especialista chamam atenção. Quem frequenta um grupo de oração, culto, missa ou encontro religioso ao qual acredita, apenas uma vez por semana, tem 34% a mais de proteção cardíaca e menor risco de desenvolver câncer do que se parasse de fumar. Esse acompanhamento, de longo prazo, foi feito com 80 mil mulheres durante 20 anos.
“Outras 70 mil pessoas foram acompanhadas durante 10 anos e ficou comprovado que quem pratica a religiosidade tem cinco vezes menos chance de se suicidar do que quem não tem nenhuma prática religiosa. São números que produzem impacto”, avaliou Borba.
Na opinião domédico, a espiritualidade (paz) é ainda mais eficaz do que a religiosidade. “Pessoas que enfrentam adversidades de forma positiva, sem estresse ou ataque de fúria, têm menos chance de desenvolver hipertensão arterial, ansiedade edepressão”, lembrou o cardiologista.
A TRIBUNA – É verdade que cultivar a paz e a espiritualidade fazem bem para o coração? MÁRIO BORBA – Muito bem. Hoje a gente já pode falar que tanto aespiritualidade quanto areligiosidade fazem bem. A espiritualidade faz ainda mais, pois traz benefícios para pessoas muito diferentes, que não são religiosas. É um conjunto de atitudes externas e internas que não são perceptíveis a curto prazo, mas bem mais duradouras.
> Já existem evidênciasdos benefícios da espiritualidade para a saúde?
Temos mais evidências relacionadas à religiosidade. É mais ou menos assim: quem vai ao culto religioso, frequenta semanalmente, não importa se está prestando atenção ou não, essa religiosidade, por si só, já traz benefícios para o coração. Aparentemente, é uma coisa absurda, pois ela não ouviu nada, ficou no celular, conversou e, mesmo assim, foi beneficiada. Já se sabe que essas pessoas têm cinco vezes menos chance de cometer suicídio do que os indivíduos que não têm essa prática.
> Dá para manter a paz em meio ao estresse do dia a dia?
Quando falamos de estresse, colocamos como se ele viesse lá do fundo do mar e atacasse a gente aqui na cidade.Mas ele, na verdade, não é exterior. Quando fazemos monitoramento para ver onde as pessoas têm mais picos de arritmia, elas estão se estressando justamente naqueles momentos em que não estão trabalhando. Todo mundo atribui o estresse ao trabalho, ao barulho, e não é bem assim. As pessoas saem do trabalho e acompanham notícias ruins e coisas que não trazem calma. É preciso mudar as nossas atitudes.
> Quais são os benefícios com sentimentos como a gratidão, por exemplo?
Em pacientes infartadosque receberamo tratamentoconvencionale foram trabalhadas situações de gratidão, a recuperação foi bem mais rápida.
> Perdoar as pessoas também faz bem para o coração?
Sim. Já temos evidências de que o perdão, o verdadeiro, promove a longevidade e controla a ansiedade, depressão e o estresse, evitando infarto e derrame. Mas aquele do “eu te perdoo, mas Papai do Céu está vendo e o mundo vai girar” não vale. Se fica ruminando no pensamento, não tem validade. Tem de ser um perdão genuíno.
> É preciso haver uma mudança na forma como as pessoas se relacionam com o corpo e a mente?
A primeira coisa que temos de entender é que o nosso corpo é um templo.O autoamor faz com que você não coloque porcarias dentro de ti. Fazemos exercícios, tiramos férias. Precisamos trabalhar a nossa espiritualidade com essa mesma prioridade.