Depressão, ansiedade, síndrome do pânico. A pandemia do novo coronavírus contribuiu, significativamente, para o aumento desses e de outros transtornos mentais e comportamentais de profissionais de diversas áreas de trabalho.
Segundo especialistas de Recursos Humanos, cerca de 25 mil empregados no Estado precisam ir ao médico todos os meses devido a problemas no ambiente corporativo. Desses, muitos precisam ser afastados de suas atividades.
Dados divulgados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram que, em todo o ano de 2019, foi registrada a concessão de 36.811 auxílios para transtornos ansiosos. Porém, até setembro de 2020, esse número já era de 40.474. Os números são nacionais.
“Com essa pandemia explodiram os casos. Eu atendo como psicólogo clínico e tive que abrir horários extras à noite. Não tenho mais agenda. Na minha opinião mais do que dobrou”, destacou o consultor de carreiras Elias Gomes.
Segundo a psicóloga Rubia Passamai, os motivos que levam os profissionais a desenvolverem tais transtornos são muitos. “Sobrecarga de atividades, pressão extrema, insatisfação e relações abusivas, como assédio moral, estão entre as causas que desestabilizam a saúde mental e levam as pessoas a buscarem ajuda especializada”.
A psicóloga e especialista em pessoas e carreiras Gisélia Freitas explicou que a crise econômica gerada pela pandemia agravou os quadros. “Isso piorou as questões emocionais. Além de que, ao ficar em casa, a pessoa elimina a vida social, que era sempre uma possibilidade de válvula de escape”.
Ela explicou que o tempo de afastamento de cada profissional que precisa de auxílio vai depender de muitos fatores. “Geralmente o INSS entra a partir do 15º dia de afastamento e aí não tem tempo determinado. Algumas pessoas têm ficado de duas semanas a até três meses afastadas”.
O psiquiatra Fábio Olmo frisou que não são apenas questões relacionadas ao trabalho que levaram ao aumento de casos. Ele destacou a rapidez com que tudo aconteceu.
“O fator estressante não é só o trabalho em si, mas também todas as mudanças, que requerem uma readaptação. E se adaptar gera uma ansiedade. Com a pandemia, essa adaptação não foi estruturada de maneira lenta e progressiva. Os trabalhadores tiveram que se adaptar de um dia para o outro”.
Ambiente saudável no dia a dia

“Este ano, procuramos trabalhar os pilares empatia, positividade e felicidade. E realizamos, inclusive, palestras, abordando a questão da saúde. Fizemos também uma semana de conscientização da felicidade”, explicou a gestora de Recursos Humanos da Viminas, Rubilene Silva Pimenta.
Ela destacou que, quando identificado que algum funcionário está precisando de ajuda, ele é encaminhado ao médico do trabalho e posteriormente para psicólogos e psiquiatras.
Empresa deve respeitar carga horária e o período de lazer
Problemas mentais e comportamentais relacionados ao trabalho podem acontecer com qualquer profissional. De acordo com o médico psiquiatra Jairo Navarro, algumas profissões acabam apresentando índice de adoecimento maior, como professores, profissionais da área de saúde e policiais. E, no processo de prevenção e também no de cura, as empresas exercem um papel fundamental.
“A empresa deve zelar pela saúde de seu funcionário. É importante que os gestores sejam treinados para respeitar a carga horária, para que haja um zelo pelo lazer e descanso dessas pessoas. A empresa pode atuar de forma ativa na promoção da saúde mental de seus trabalhadores”, explicou Navarro.
Kátia Vasconcelos, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos-ES), diz que não se deve permitir que o trabalho invada os espaços pessoais.
“A imposição de limites nesse sentido precisa vir tanto da organização, criando estratégias, orientando as lideranças, respeitando horários, assim como por parte do trabalhador”, disse.
O psiquiatra Fábio Olmo ressaltou algumas práticas que podem ajudar o profissional. “Atividades físicas, boa qualidade de vida, boa alimentação, momentos de lazer e descanso, entre outros. O ambiente de trabalho também tem que contribuir”.
SAIBA MAIS
Assédio moral contribui
- O estresse, a ansiedade, a depressão e outros problemas mentais e comportamentais sempre afetaram milhares de profissionais em seus ambientes de trabalho.
- Porém, com a pandemia do coronavírus, casos assim aumentaram. Por mês, atualmente, cerca de 25 mil profissionais precisam procurar médicos para tratamento.
- Alguns fatores contribuem para este quadro. Segundo o psiquiatra Jairo Navarro, destacam-se a carga horária de trabalho grande, o trabalho estressante, as horas extras excessivas, funcionários que não tiram férias, o assédio moral e a dificuldade de relacionamento com o colega.
- Ele frisou que algumas profissões estão mais propícias ao surgimento desses problemas, como professores, profissionais da saúde e policiais.
Números
- Dados nacionais divulgados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram que, em todo o ano de 2019, foram registrados 36.811 auxílios para transtornos ansiosos. Porém, até setembro de 2020, esse número já era de 40.474.
- Entre as doenças com o maior número de concessões de benefícios estão os transtornos de ansiedade: foram 35.533 em todo o ano passado, e 39.089 somente de janeiro a setembro deste ano.
- Em seguida encontram-se os transtornos depressivos, com 25.803 afastamentos este ano.
Fonte: especialistas ouvidos e INSS.
Aumenta sobrecarga para as mulheres na pandemia
No momento da pandemia, a dificuldade em conciliar as tarefas domésticas com o trabalho fez com que as mulheres sentissem mais o peso do estresse e da ansiedade, segundo especialistas da área de psicologia. O ensino doméstico também ajudou a sobrecarregar mães e pais no período.
“As mulheres sentiram mais esse peso, porque se viram, ao mesmo tempo, tendo que conciliar as atividades profissionais com as tarefas de mãe e de dona de casa”, revelou a psicóloga Rubia Passamai.
Kátia Vasconcelos, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-ES), destacou que o cenário provoca o adoecimento maior do número de mulheres e que muitas organizações já têm pensado projetos de apoio, com atendimentos psicológicos.
“Tem-se pensado em projetos com atendimento psicológico, médico, meditação, enfim, um conjunto de atividades que possam ajudar essas mulher. Além de se pensar horários específicos para que o trabalho seja realizado”.
