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Compulsão por jogos: “Me transformei em outra pessoa”, diz gerente de loja

Hoje, após um ano e três meses de tratamento, com apoio dos Jogadores Anônimos (JA), ele segue em tratamento

O que começou como diversão virou dependência: o impacto das apostas on-line na vida de um trabalhador
Foto de perfil de Francine Spinassé

Francine Spinassé

Graduada em Jornalismo pela Faculdade Estácio de Sá de Vitória, atua como repórter de A Tribuna desde 2008. Em 2011, passou a integrar a equipe responsável pelas reportagens especiais diárias do jornal, ao lado da jornalista Eliane Proscholdt.

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O que começou como passatempo virou uma doença grave. Aos 36 anos, um gerente de loja viu a rotina, as finanças e os vínculos pessoais serem “engolidos” pela compulsão por apostas on-line.

Hoje, após um ano e três meses de tratamento, com apoio dos Jogadores Anônimos (JA), ele segue em tratamento. “Não é preguiça, não é falta de caráter. É uma doença. Me transformei em outra pessoa”.

Entenda

Com o avanço do vício em apostas on-line e jogos digitais, o governo do Estado está reforçando a atenção ao problema. A partir de agora, a Rede Abraço passa a oferecer atendimento gratuito especializado para dependentes, incluindo apoio psicológico, avaliação médica e orientação às famílias.

O anúncio foi feito na segunda-feira (26) pelo governador Renato Casagrande, que destacou que se trata de um tema de saúde pública que afeta não apenas a pessoa em situação de dependência, mas toda a família e a comunidade ao redor.

“A Rede Abraço já é referência no cuidado a dependentes químicos desde 2013 e agora damos um passo a mais, ampliando o acolhimento para essa nova realidade. Queremos oferecer ao capixaba uma porta de entrada segura para que ele possa buscar ajuda e encontrar um caminho de saída dessa dependência”.

ENTREVISTA

A Tribuna — Como começou sua compulsão pelos jogos?

Gerente de loja — No meu caso, eu comecei com apostas esportivas, mas também jogava em cassinos virtuais. Comecei a jogar por diversão mesmo. Aquela aposta no time do coração, que a gente faz de R$ 5, R$ 10, R$ 20. Seria para olhar o futebol “com mais graça”. Mas isso, aos poucos, foi tomando uma intensidade muito grande.

Foi colocando valores maiores?

Sim, mas mais que isso, começou a tomar mais meu tempo. No começo, eu apostava quando tinha jogos do meu time. Depois, eu fazia o tempo todo. No trabalho, eu saía um pouco da minha área para apostar. Chegou a um ponto em que eu ficava 3, 4, 5 horas jogando e nem percebia.

Os valores, que eram R$ 10 no começo, chegam a um ponto de estar jogando R$ 1.000.

Tem noção do prejuízo que teve e em quanto tempo?

Eu cheguei a ter um prejuízo de R$ 300 mil, ao longo de dois ou três anos, que foi quando eu jogava com mais frequência.

E o problema maior é que eu não jogava apenas com o meu dinheiro. Quando eu não tinha mais, passei a pedir emprestado para meus pais, minha irmã, meus amigos. Aí, nesse estágio, você já começa a mentir, dizer que precisa do dinheiro para outra coisa.

Você inventava histórias?

Sim. O jogador compulsivo é mentiroso. Não é a pessoa em si que é assim. Mas o vício transforma. Eu me transformei em outra pessoa. Comecei a criar histórias mirabolantes para conseguir dinheiro emprestado.

E quando você percebeu que tinha um problema?

Cada um tem um fundo do poço. Eu cheguei a um ponto que dormia às 3 horas ou 4 horas e acordava às 7 horas para trabalhar. Estava dormindo 3 horas por noite e notei que estava fora do controle. A gente não consegue parar por conta própria e, ao mesmo tempo, tem vergonha de falar para alguém.

Então, mesmo sabendo que tinha problema, ficava tentado sempre recuperar o que perdi, achando que ia sempre conseguir, mas só ia perdendo mais.

Em algum momento eu tive um grande ganho, de R$ 100 mil, mas no dia seguinte, meio-dia, já tinha perdido tudo de novo. Se eu tivesse colocado na ponta do lápis, eu já tinha perdido mais que isso antes.

O problema da compulsão é muito grave. Minha esposa notou a mudança de comportamento, pois eu estava preocupado, tinha muitas dívidas. Então buscamos ajuda, com psicólogo, cheguei a ir em psiquiatra. Há um ano e três meses, eu comecei também a frequentar os Jogadores Anônimos.

Desde então não jogou mais?

Na verdade, nesse tempo tive ainda duas ou três recaídas, mas desde a última, há cinco meses, tenho estado firme. Não perco os encontros, pois sei que hoje é como um remédio para minha doença.

Também tenho sorte, pois mesmo com toda dificuldade, contei para os meus pais, os meus amigos, tudo o que estava passando. Eles me deram muito apoio, buscaram informações e também vão a encontros comigo, quando é aberto.

Muita gente não entende que a maioria das pessoas que joga é trabalhador, honesto, mas que acabou transformado por uma compulsão, que precisa de ajuda.



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