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DESAFIOS NA EDUCAÇÃO

Desigualdade no ensino das escolas está mais grave

Contraste entre a educação oferecida pelas redes pública e privada aumentou durante a pandemia, segundo especialistas

Última atualização

O ensino remoto, a aprendizagem a distância e a falta de convívio social foram alguns dos problemas enfrentados pelos alunos durante a pandemia. 

Mas, para alguns estudantes, chegar ao fim do ano letivo foi ainda mais desafiador. Esse é o caso de muitas crianças e adolescentes pretas e pardas, de mais baixa renda e sem acesso à internet – concentradas, majoritariamente, na rede pública de ensino. 

Um estudante  de 6 anos de uma escola particular, por exemplo, já começou a aprender as primeiras palavras  e a desenvolver a leitura, mesmo em meio às  aulas virtuais. 

Um outro aluno, também de 6 anos, estuda na rede pública e teve dificuldades com a leitura, por não ter acesso à internet e só ter recebido uma apostila para se alfabetizar. Ele ainda não sabe ler e nem  escrever o nome da própria família. 

Esses são exemplos de contrastes na aprendizagem relatados pelos especialistas e correspondem  apenas a uma das lacunas na educação brasileira. Dentro de cada uma dessas redes – pública e privada – há, também, muitas outras desigualdades, de acordo com professores e educadores.

Segundo a professora e diretora  do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes) Noêmia Simonassi,  na rede privada, por exemplo, há crianças que saem da creche  com 5 anos já sabendo ler. “Por outro lado, na rede pública, há alunos terminando o 4º ou o 5º ano (geralmente, entre 8 e 10 anos)  sem saber ler, interpretar e fazer as quatro operações de Matemática”.

A estrutura de ensino foi outro fator de desigualdade, salientou o  especialista em Sistemas Educacionais Edebrande Cavalieri. “Os alunos da rede pública, além de terem menos aulas presenciais ou remotas, também tiveram muitas dificuldades com estrutura adequada para a aprendizagem”, aponta. 

O coordenador de Políticas Educacionais da organização Todos Pela Educação,  Ivan Gontijo, pontua que as desigualdades na aprendizagem já existiam, mas que foram agravadas pela pandemia.

“Agora, as escolas precisam reconhecer que  entre os estudantes foram  criadas lacunas de aprendizagem. Há uma série de ações que podem ser feitas, como identificar quem são os estudantes com defasagens, tentar fazer turmas menores e separar os alunos por dificuldade, por exemplo”, recomenda.

Desigualdades

As desigualdades no ensino brasileiro podem ser observadas em diferentes esferas: entre os estudantes de uma mesma escola e entre as redes pública e privada.

Em 2018, na avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), o Brasil era uma das cinco economias mais desiguais do mundo na educação. Com a pandemia, a situação piorou ainda mais.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha mostrou   que 37% dos estudantes não possuem acesso à internet banda larga – número significativamente mais alto nas regiões Nordeste (51%) e Norte (46%).

realizado em dezembro de 2021, o estudo  “Educação não presencial na perspectiva dos estudantes e suas famílias”  foi encomendado pela Fundação Lemann, Fundação Itaú Social e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

As desigualdades entre brancos e pretos cresceram em todas as etapas e disciplinas, de acordo com uma pesquisa realizada pela organização Todos Pela Educação. Em Matemática, por exemplo, enquanto 53,4% dos alunos brancos do 9º ano do ensino fundamental  alcançavam nível de aprendizagem considerado adequado, apenas 29,8% dos alunos pretos de mesma série atingiram esse nível. Já com relação aos pardos, 38,5% alcançaram o nível adequado de aprendizagem. Os dados são referentes a 2019.   

As classes menos favorecidas economicamente foram também muito impactadas com a pandemia. A  maioria delas, inclusive, está nas redes públicas de ensino do País.

Esses estudantes mais pobres foram os que mais passaram fome e tiveram familiares que perderam o emprego, segundo o coordenador de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, Ivan Gontijo.  

Outros desafios

Além do aumento da desigualdade no ensino, outro desafio que a educação brasileira enfrenta é o crescimento  do risco de evasão escolar entre os estudantes. Um estudo divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostrou que a evasão escolar aumentou na faixa etária de 5 a 9 anos durante a pandemia, passando de 1,41% para 5,51% entre 2019 e 2020 – um crescimento de 197,8%.

No último ano, 40,8% das crianças de 6 e 7 anos do País não aprenderam a ler e a escrever, o equivalente a 2,4 milhões de estudantes, segundo a organização Todos pela Educação.

Estudantes da rede pública estadual tiveram piora no aprendizado de Português e Matemática, segundo o Programa de Avaliação da Educação Básica do Espírito Santo (Paebes), divulgado na última semana. A queda no desempenho foi registrada, principalmente, no 1º, 2º e 3º ano do ensino fundamental.

Propostas de melhorias

O primeiro passo para enfrentar as desigualdades e defasagens na educação é reconhecer as lacunas de aprendizagem e as principais dificuldades dos alunos. 

Depois disso, uma série de ações podem ser feitas para acelerar a aprendizagem, como tentar fazer turmas menores, separar os alunos por dificuldade e ampliar as escolas de tempo integral, por exemplo. Outra estratégia é realizar a formação específica dos professores para fazerem reforço escolar.

Uma das alternativas de lidar com os impactos da pandemia é o investimento em tecnologia. A  gerente sênior de Educação da Fundação Telefônica Vivo, Lia Glaz, acredita que isso será possível, desde que haja  infraestrutura disponível nas escolas e que os professores estejam   preparados com as habilidades digitais necessárias.

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