
Leia a entrevista na íntegra:
A Tribuna – Em meio à dor, consegue falar algo que vem direto do seu coração?
Katiucia Cosine – Na verdade, a gente nunca espera, mas todos nós estamos aqui de passagem. Todos nós vamos um dia, uns mais tarde, outros mais cedo, e a gente está aqui para cumprir uma missão, e eu creio em Deus que o meu filho cumpriu lindamente a dele.
A gente fica (emoção)… É triste, né? A gente tem de aprender a agradecer as coisas ruins, que parecem ruins aos nossos olhos. Eu vi a dor do meu filho e eu fugi de entrevistas porque em cada entrevista a gente revive tudo (choro). E pior do que enterrar o corpo dele ontem (quinta-feira) é você ter de falar sobre a dor dele no hospital pedindo, “meu Deus, me ajuda”, “mamãe, tá dodói”, sem chorar.
Meu filho era tão lindo, tão abençoado que ele nem chorava, mas travava os dentes de dor. Desde que ele foi entubado, entramos em corrente de oração, pedindo para que ele ficasse. Mas o pedido foi feito de forma errada.
A gente tinha de pedir ao Senhor o que fosse melhor para ele. E a gente pedia a cura, mas acho que, de certa forma, Deus deu a cura porque agora o meu filho não sente mais dor.
A dor é nossa, e eu pedi a Deus para trocar de lugar com ele, e Deus me concedeu essa maravilha de sentir dor no lugar dele. Hoje a dor é minha, mas vai passar. Quando eu saí do hospital eu disse: “Meu filho, a mamãe vai papar e já volta”.

Não, estava entubado. Já tinha feito os testes de apneia, só não tinham conversado comigo, mas como eu fiquei na hora do teste, vi que ele já tinha entrado em morte cerebral. A gente se agarra às esperanças de que para Deus nada é impossível.
Deus é tão perfeito que eu pedi que o meu filho não sofresse, e eu tenho certeza de que, se ele ficasse, iria ficar em sofrimento, talvez fazendo diálise para o resto da vida, com sequelas cerebrais, vegetando em uma cama, e eu não podia desejar isso, não podia ser egoísta ao ponto de pedir para ele ficar com dor.
Quando o entregou para Deus. Foi na quarta-feira?
Isso. Ele foi a óbito 15 minutos depois que eu falei com ele. Ele esperou só eu sair para o coraçãozinho dele começar a falhar e os médicos tentarem ressuscitar. Saí do hospital para ir almoçar e depois voltar. Quando eu cheguei em casa, o telefone tocou. Os médicos queriam conversar comigo.
O que pensou?
Pensei que devia ser para dar o parecer, como foram os exames. Pensei que eles iriam falar o que a gente não queria ouvir. Eu queria voltar na hora e meu marido falou para eu comer só um pouquinho, porque estava sem comer. Comi agoniada. Quando eu entrei no quarto e vi todo mundo em pé, já senti no coração que o meu filho tinha partido.

Eu peguei o meu bichinho no colo (choro), agradeci a ele por tudo, pedi perdão a ele por qualquer coisa que poderia ter feito melhor, mas eu tenho certeza de que fui mãe 24 horas (choro). Eu dediquei todo o meu tempo a ele, sabe, sem essa de ficar em WhatsApp, de ficar em televisão. Ele queria brincar, dizia: “Vamos, meu filho”. Eu dancei com ele, eu brinquei de esconde-esconde, de futebol, de tudo com ele. E eu pude ouvir as últimas palavras dele, que era que me amava, quando eu falei: “Filho, vai passar essa dorzinha, mamãe te ama”. E ele respondeu: “Te amo mamãe”, e não falou mais.
Quando ele falou essa frase?
Foi quando ele foi entubar. Ele estava tomando remédios para dor e eu falei: “Gente, meu filho está com muita dor”. Deram morfina e ele travava os dentinhos e falava: “dodói, dodói mamãe”. Foi quando eu falei com ele, antes de sair da sala, e ele disse que me amava também. Tenho certeza que fomos bons pais.
Falando sobre os sintomas, quando eles começaram?
Começaram na segunda-feira, dia 18, com quadro de diarreia com sangue. Nós ficamos hidratando em casa, porque ele estava bem, estava se alimentando. À tarde, ele parou de comer. Consegui dar uma bananinha para ele, porque ele adorava bananinha amassada e ovinho mexido. Ele comeu tudinho, mas vomitou.
Quando ele vomitou e não queria mais tomar água de coco, eu fui para o hospital. Ele sofreu muito.
Disseram que eu cheguei a ser hospitalizada. Eu não tomei nenhum medicamento, nem para dor de cabeça, nada, nada. Estava sustentada por Deus, porque meu filho fez isso durante nove dias. Meu sofrimento maior vai ser agora, com a falta dele. A gente tem de aceitar.

Sim. Ele foi um milagre na minha vida. Eu não podia ter filho. Eu não podia nem fazer inseminação, na verdade. Primeiro tinha de fazer uma cirurgia. Eu estava com cirurgia marcada na segunda e descobri que estava grávida de quatro meses um dia antes. Graças a Deus, não precisei da cirurgia. Ele já foi um milagre. Eu não podia pedir outro milagre na vida.
Durante esses dois anos, o que o Théo foi para você?
Um menino muito alegre. Tudo dele era “filho, vamos à escolinha”, e ele “partiu baby”. “Filho, vamos à praia”, e ele “partiu praia”. Quem vai falar “partiu praia” agora? Agora é partiu céu. Sempre foi muita alegria, alto astral, nunca acordou de mau humor, mesmo quando eu precisava acordá-lo. Eu falava “filho, vamos acordar”. Ele olhava de lado, dava um sorrido. Que coisa gostosa, gente. Nunca adoeceu, nunca pegou uma virose. Essa foi a primeira vez que ele ficou doente. Ele só tinha um pouco de refluxo, mas sempre foi um menino muito saudável, muito brincalhão. Onde ele passava perto dos coleguinhas, todo mundo “Théo, Théo, Théo”. Sempre foi um menino muito iluminado, muito grandioso. Ele não cabia neste mundo não, este mundo era muito pequeno para ele.
Ele chegou a ir ao quiosque? Foi com o outro colega que também passou mal?
Foi na quinta-feira (14) e comeu batata frita, tomou água de coco. O coco estava sujo e ele queria segurar, queria colocar no colinho dele. Ele tomou o dele e depois do amiguinho, porque o amiguinho não quis tudo. Eles ficaram brincando na areia da praia, mas só. No outro dia, ficou normal, foi para a escolinha. O final de semana, todo normal. Na segunda, ele amanheceu com diarreia e já não levei mais para a escola.
O que tem a dizer sobre a creche?
Não tinha nada a reclamar. Eles sempre foram muito cuidadosos. Ele estava lá desde os 11 meses de idade. É igual quando você confia seu filho para um médico, sabe, confiei na escola, e se tiver sido lá que pegou (a infecção) acho que não seria por falta de zelo, porque o filho deles (proprietários) estuda lá, e fica o dia todo lá.
Mesmo que saia o laudo que diga que foi lá, eu sei que não foi porque eles quiseram. Não adianta arrumar culpado agora. Mas é bom saber, para que não aconteça mais.
E sobre o hospital?
Eu não tenho o que falar da UTI. A equipe deles é fantástica. Eles abraçaram o meu filho com enfermeiros maravilhosos, inclusive ontem (quinta) estiveram no velório, choraram por meu filho. As médicas me abraçaram, disseram que era difícil e que eu tinha de confiar em Deus.

Ter fé e acreditar que os planos de Deus são muito maiores do que o que a gente acha que é o melhor. Só Ele sabe o que é melhor. Como eu falei, eu imaginava que o melhor era o Théo sair vivo e estar aqui do meu lado, mas Deus sabe o que é melhor para o Théo. De repente, ele podia até sair com vida, mas ficar vegetando, dependendo de ficar em hospital todo dia. Deus sabe o que é melhor para a gente sempre. A gente tem que entregar na mão de Deus.
Ontem (quinta), o padre Gudialace falou que, quando acontece uma fatalidade, a gente fica se perguntando “por que, por que”, tentando achar culpado e aquilo vira um labirinto. Você não sai daquilo e acaba se machucando mais.
Então, a gente sai por outro caminho e imagina Deus perguntando “Katy, você prefere viver 2 anos e meio com o Théo ou você prefere não viver com o Théo”. Então, para mim, 10 minutos, um minuto bastaria do lado dele, porque ele realmente foi um milagre.