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Cidades

De Cariacica para o mundo: doce sem açúcar faz sucesso e produtores miram exterior

Cooperativa da Agricultura Familiar de Cariacica já negocia exportações de doce de banana para Argentina, Chile e Israel

Sérgio Baldi entre a esposa, Maria Ivanete, e as filhas Isabella e Gabriela: família unida no cultivo da fruta
Foto de perfil de Fernanda Coutinho

Fernanda Coutinho

Fernanda Coutinho é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em 2007, e tem aproximadamente 20 anos de experiência na profissão. É repórter multimídia das editorias de Cidades e Polícia do Jornal A Tribuna, com reportagens também publicadas no portal Tribuna On-line. Escreve reportagens especiais semanais para a editoria de Polícia do Jornal A Tribuna. Tem experiências com apresentações de podcasts e videocasts, além da participação ao vivo em telejornais da TV Tribuna, em colaboração com apresentadores, em casos de repercussão. Na função de redatora, atuou por 9 anos em editorias como Polícia, Cidades, Economia e Política do jornal impresso.

Última atualização

Se Carmen Miranda cantou “O que é que a baiana tem?”, a Cooperativa da Agricultura Familiar de Cariacica (CAFC) pode responder: “O que é que a banana tem?”.

A fruta, que era usada como adereço pela cantora, representando sua popularidade no Brasil, virou fonte de renda, matéria-prima para um doce sem açúcar e caminho para novos mercados.

A cooperativa já negocia exportações para Argentina, Chile e Israel e prevê produzir 15 toneladas da fruta até o fim do ano. Hoje, a cooperativa fornece a fruta e o doce para órgãos públicos.

“O mercado privado já começou a acontecer e, na exportação, nós estamos caminhando. Estamos finalizando uma precificação com um comprador da Argentina. Também temos negociações com Chile e Israel, e estamos concluindo uma certificação internacional para ampliar as vendas”, disse o supervisor de vendas da CAFC, Ronaldo Monteiro Barcelos.

A produção do doce sem açúcar é feita em uma fábrica parceira, em Vargem Alta, Região Serrana, enquanto uma unidade própria está em construção. A previsão é concluir a fábrica até o fim de 2027.

A CAFC reúne 423 cooperados e foi criada em 2017, durante uma crise na bananicultura, quando produtores enfrentavam dificuldades para vender a produção e abandonavam as lavouras.

Segundo o presidente da CAFC, Davi Dutra de Barcelos, cerca de 60% dos cooperados são de Cariacica e os demais estão espalhados pelo Espírito Santo.

A banana, também comercializada in natura, continua sendo o principal produto, mas a cooperativa também incentiva o cultivo de outras culturas, como café, tangerina, melancia, limão e laranja.

“A partir da união desses pequenos agricultores, hoje a gente consegue alcançar alguns mercados que o produtor não conseguiria sozinho. A gente consegue entregar em mais de 4 mil escolas em São Paulo e no Rio”, afirmou Davi.

Já Ronaldo explica que os produtos chegam a escolas e órgãos públicos por meio de compras da agricultura familiar. A cooperativa também comercializa outros itens, como biscoitos, mel, banana-passa e farinha de banana.

“É o sustento da minha família”

O agricultor e cooperado Sérgio Baldi, 52 anos, é um dos fundadores da Cooperativa da Agricultura Familiar de Cariacica (CAFC).

Casado com Maria Ivanete Tavares Simões, 42, Sérgio é pai de Isabella Simões Baldi, 14 anos, e Gabriela Simões Baldi, 10.

Na propriedade, no Vale do Sabão, em Cariacica, ele cultiva entre 12 mil e 15 mil pés de banana. Neste ano, estima produzir cerca de 3 mil caixas de 20 quilos de banana-prata. Mais de 90% da produção é destinada à cooperativa.

A Tribuna: Como eram as vendas antes da cooperativa?

Sérgio Baldi: Antes da cooperativa, o preço da banana estava muito baixo. Tinha muita banana e não tinha como aproveitar toda a produção. Então surgiu a ideia de criar a cooperativa. Pouca gente acreditava que daria certo.

O que mudou para o produtor depois da criação da cooperativa?

Através da cooperativa, o alcance do lucro fica melhor para a gente, que consegue melhorar a comercialização e ter uma condição melhor para trabalhar.

Como a produção da sua propriedade evoluiu nesse período?

Eu tive uma melhora na produção. Este ano, devo produzir cerca de 3 mil caixas de 20 quilos de banana-prata. Tenho entre 12 mil e 15 mil pés de banana.

Quanto da sua produção vai para a cooperativa?

Mais de 90% da minha produção vai para a cooperativa. É uma parceria que ajuda bastante.

A cooperativa oferece apoio técnico aos produtores?

Tem o engenheiro agrônomo e a cooperativa faz análise de solo, dá orientação técnica, o que ajuda a melhorar o manejo e a produção.

O que a banana representa hoje para a sua família?

A fruta é o sustento da minha família. A gente trabalha na produção e procura melhorar cada vez mais para conseguir uma produção melhor e uma comercialização melhor.

Entenda

Doces vendidos pela cooperativa
Doces vendidos pela cooperativa Foto: Fábio Nunes/AT

Cooperativa

  • A Cooperativa da Agricultura Familiar de Cariacica (CAFC) foi fundada em 2017;
  • 423 cooperados fazem parte da cooperativa, sendo que cerca de 60% deles são de Cariacica e os demais estão espalhados pelo Espírito Santo;
  • 15 toneladas estão previstas para serem produzidas até o fim do ano.

Fornecimento

  • Hoje, a cooperativa fornece a fruta e o doce para órgãos públicos, como escolas e unidades prisionais;
  • A previsão é ampliar as vendas para o mercado privado.

Internacional

  • A cooperativa já negocia exportações para Argentina, Chile e Israel, e está concluindo uma certificação internacional para ampliar as vendas.

Doce

  • A produção do doce sem açúcar é feita em uma fábrica parceira, em Vargem Alta, Região Serrana, enquanto uma unidade própria está em construção. A previsão é concluir a fábrica até o fim de 2027.

Preço da banana é fixo para ajudar os cooperados

Para muitos pequenos produtores de banana, vender a colheita significa enfrentar a oscilação de preços e a dependência de atravessadores. Na Cooperativa da Agricultura Familiar de Cariacica (CAFC), a estratégia é diferente: a entidade estabelece um valor fixo para o produtor e, segundo o supervisor de vendas Ronaldo Monteiro Barcelos, paga acima do preço praticado no mercado.

Um exemplo citado por ele é o da banana-prata de primeira. Enquanto o mercado estaria pagando entre R$ 2,50 e R$ 2,70 pelo quilo, a cooperativa fixa o valor em R$ 3. O pagamento é feito à vista no momento da entrega da produção.

A política faz parte da proposta da cooperativa de dar mais segurança aos agricultores e ampliar o poder de negociação dos pequenos produtores.

Segundo Ronaldo, antes da criação da CAFC, muitos agricultores tinham dificuldade para comercializar o que produziam e recorriam a intermediários.

“Antes da cooperativa, ele tinha uma certa dificuldade de comercializar porque produzia, mas não conseguia vender. A venda dele era para o atravessador, que ganhava o dinheiro. Hoje, a gente paga um preço acima do mercado e passa a pagar preço fixo para o cooperado”, ressalta.

O presidente da CAFC, Davi Dutra de Barcelos, explica que a organização dos produtores também permite enfrentar as oscilações naturais do mercado agrícola.

A CAFC também comercializa a produção para compras públicas e mercados de outros Estados. “A união dos agricultores permite que pequenos produtores tenham acesso a mercados que dificilmente alcançariam individualmente”, afirmou Davi.

Fruta é a mais produzida no Estado

Davi Dutra de Barcelos mostra o doce sem açúcar vendido pela Cooperativa da Agricultura Familiar de Cariacica
Davi Dutra de Barcelos mostra o doce sem açúcar vendido pela Cooperativa da Agricultura Familiar de Cariacica Foto: Fábio Nunes/AT

A banana é a fruta mais produzida no Espírito Santo. Em 2025, foram 427,5 mil toneladas colhidas em aproximadamente 29,3 mil hectares, segundo a Pesquisa Agrícola Municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O volume colocou o Estado na sétima posição entre os maiores produtores do País e movimentou R$ 868,2 milhões.

A cultura está em 76 dos 78 municípios capixabas e tem forte participação da agricultura familiar.

No Espírito Santo são produzidas bananas dos subgrupos terra, cavendish (que inclui as bananas conhecidas como d’água ou nanica) e prata, sendo esta em maior quantidade.

“A banana contribui para diversificar as atividades nas propriedades, gerar trabalho e manter uma fonte de renda para as famílias rurais. Como a colheita ocorre durante praticamente todo o ano, o produtor consegue ter uma entrada mais regular de recursos, o que é importante para a agricultura familiar”, diz Alciro Lazzarini, extensionista do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).

É nesse cenário que as cooperativas ajudam pequenos produtores a ganhar espaço no mercado, melhorar a comercialização e diversificar a produção.

“A agricultura familiar, que antes não tinha essa visibilidade, hoje já está pleiteando exportações”, afirmou Davi Dutra de Barcelos, presidente da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Cariacica (CAFC).

Segundo o Incaper, além do consumo da fruta in natura, parte da produção abastece agroindústrias, com aproveitamento na fabricação de doces, chips, farinhas, biomassa e outros produtos.

“O processamento amplia as possibilidades de aproveitamento e comercialização da banana, inclusive dos frutos que não atendem ao padrão visual exigido pelo mercado in natura. Com isso, é possível reduzir perdas, agregar valor e criar novas oportunidades de renda no meio rural”, diz Lazzarini.

Segundo o Censo Agropecuário de 2017, levantamento oficial mais recente disponível, o cultivo de banana estava presente em 21.339 estabelecimentos agropecuários capixabas. Desses, 14.256 tinham 50 pés ou mais, grupo que melhor representa os cultivos com finalidade comercial.

Os dados

  • O Estado produziu 427,5 mil toneladas de banana em 2025;
  • Área colhida: Cerca de 29,3 mil hectares;
  • Valor da produção: R$ 868,2 milhões em 2025;
  • É 2,6% do valor total da produção das lavouras capixabas;
  • Cultivada em 76 dos 78 municípios do Espírito Santo;
  • Variedades: Prata, terra e cavendish (nanica/d’água);
  • Variedade de maior volume: banana-prata.

Maiores produtores (em toneladas):

  • Alfredo Chaves: 44,8 mil
  • Iconha: 38,6 mil
  • Domingos Martins: 36,3 mil
  • Linhares: 35,3 mil
  • Laranja da Terra: 33,75 mil
  • Itaguaçu: 31,6 mil

Banana é rica em carboidrato e fibra

Rica em carboidratos, fibras, potássio e vitaminas, a banana é uma fruta que pode fazer parte tanto da alimentação diária quanto da rotina de quem pratica atividade física. Versátil e fácil de transportar, ela também pode ser consumida de diferentes formas, desde in natura até em receitas doces e salgadas.

Segundo o nutricionista esportivo Caio Eduardo, o principal destaque nutricional da fruta é o fornecimento de energia. O alimento também possui nutrientes importantes para o funcionamento do organismo e pode ser utilizado antes e depois dos exercícios.

“Hoje, o maior benefício da banana é porque ela é rica em energia, é rica em carboidrato. Além disso, ela tem água, que é importante para que a gente possa hidratar. A gente utiliza muito para quem pratica exercício físico, porque ela também pode contribuir para a melhora da flora e do trânsito intestinal”, destaca o nutricionista.

A fruta ainda é fonte de potássio, mineral relacionado à contração muscular, transmissão nervosa e equilíbrio de líquidos. As fibras contribuem para a saciedade e o funcionamento intestinal, enquanto a vitamina B6 participa do metabolismo energético e dos aminoácidos.

A nutricionista funcional Giselle Guzzo Lorenzoni destaca que a praticidade é outro ponto positivo. Para ela, a banana consegue ser incorporada com facilidade à rotina e combinada com outros alimentos.

“A banana é uma fruta que gosto muito de destacar quando falamos de alimentação saudável, principalmente pela praticidade. É nutritiva, fácil de transportar e muito versátil. Pode ser consumida in natura, em vitaminas, em receitas doces e salgadas e até na nossa tradicional moqueca capixaba”, ressalta.

De acordo com os especialistas, o grau de maturação também interfere na composição da fruta.

A banana verde possui maior quantidade de amido resistente, que chega ao intestino e pode ser utilizado por bactérias da microbiota.

Conforme a fruta amadurece, parte desse amido é transformada em açúcares, deixando a fruta mais macia e doce.



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