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Desde que decidiu usar as redes sociais como uma ferramenta de empoderamento da mulher e de combate à discriminação, a influenciadora digital Rayane Souza, de 31 anos, já sabia que teria que lidar com os chamados “haters” (do inglês “odiadores”).
Mas o que realmente a assustou e a fez ficar um mês longe da internet e com o perfil das redes sociais desativado foi uma perseguidora. “A impressão é que ela queria ter minha vida”.
O caso aconteceu antes da lei que tipificou o crime de perseguição, mas ela contou que conseguiu, com um ofício extrajudicial, fazer com que a mulher parasse com as investidas.
A Tribuna – Como começou a perseguição?
Rayane Souza – Sou influenciadora digital, então tenho um público considerável, com um engajamento frequente. A pauta que eu trato nas redes é do empoderamento da mulher. Eu sou uma mulher gorda, então eu falo muito sobre gordofobia, sobre discriminação. Então acaba atraindo haters também. Hoje lido melhor com isso, mas teve uma situação que me assustou, de uma seguidora que falava que era minha fã.
– Ela falava pra você?
Sim. Dizia que tinha muita vontade de ser modelo e começou a procurar as mesmas empresas que eu trabalhava como modelo plus size. Ia em todas as marcas que eu trabalhava, falava meu nome, que era minha fã, falava que também queria fazer trabalhos como eu.
– Quando desconfiou de algo errado?
Ela começou a ir nos mesmos eventos que eu ia, seguia as pessoas que faziam parte do meu ciclo de trabalho, e, depois começou a seguir as redes sociais das pessoas do meu ciclo pessoal. Onde encontrava uma pessoa que pudesse me conhecer, falava meu nome, falava sobre mim. Chegou a um ponto em que as pessoas vinham me contar, diziam que era estranho. Em um momento ela foi até no meu no meu namorado. Comecei a ver que era um padrão obsessivo.
– E o que fez?
Entrei em contato com a família dela. Eles me alertaram que ela já tinha tido problemas assim no passado. Tive que emitir uma notificação extrajudicial que ela estava proibida de falar meu nome para outras pessoas, de entrar em contato com meus amigos. Informei que se ela não parasse, iria entrar com um processo, uma medida de proteção. Eu não sabia o que ela estava falando de mim por aí.
– Ficou com medo?
Sim. Como ela ia nas marcas que eu trabalhava, seguia as pessoas que eu seguia, tentou se aproximar do meu namorado, entendi que parecia que ela queria a minha vida. Isso me chocou e me perturbou muito, pois eram cinco meses de perseguição, de agonia.
– E a medida que tomou surtiu efeito?
Depois das notificações ela sumiu e bloqueou tudo. Mesmo assim, por causa disso, fiquei um tempo longe das redes sociais, publiquei para os meus seguidores que estava acontecendo uma situação pessoal na minha vida e que precisaria me afastar para dar uma tranquilizada. Desativei minha conta esse tempo.
– Mudou algo na forma que se relaciona e com o que expõe nas redes sociais depois disso?
Hoje aprendi melhor a lidar com isso, principalmente com algumas questões juridicamente, como me defender nesses casos. Hoje tenho todo um auxílio jurídico se eu me sentir ameaçada. Tenho também conhecimento do meu direito na rede social, principalmente entendo que a internet não é terra de ninguém, que as pessoas podem ser punidas, investigadas e descobertas pelo que fazem e falam. Isso tem sido muito importante.
– E como lida com os “haters”?
Sobre os haters, hoje, eu lido com isso bem, porque eu entendi que isso faz parte do meu trabalho. Mas se eu sentir que aquilo passou do limite da opinião e da crítica e me sentir ameaçada, sei que posso procurar meus direitos.
Hoje sei reconhecer que as pessoas que trabalham com a internet têm o direito de se proteger. Não é porque você está exposto na internet que tem que ouvir aquilo e que tem que aceitar ser xingada ou perseguida. Temos mecanismos jurídicos de proteção.
Perfis e números falsos usados para ameaças
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Com a popularização das redes sociais e aplicativos de mensagens, perfis falsos e chips de telefones diferentes têm sido usados por perseguidores para vasculhar a vida das vítimas ou até mandar mensagens com ameaças.
Os perfis falsos e ligações de números desconhecidos durante todo o dia têm sido rotina na vida de um fotógrafo de 41 anos desde outubro do ano passado.
Ele contou que atua como síndico em um condomínio e foi informado por uma moradora que tinha uma medida protetiva contra o ex-companheiro e que ele não poderia mais entrar no local.
“Por ter morado muitos anos no local, era conhecido e guardava a sua moto na garagem do condomínio. Então, quando entrou, comuniquei a ele sobre a proibição. Além disso, pelas normas do condomínio só morador e proprietário podem estacionar”.
O fotógrafo revelou que, sem aceitar, a perseguição começou por ligações e mensagens no WhatsApp. “Também cercava o entorno do condomínio, perguntando aos funcionários do condomínio se estava em casa, que horas saía e voltava. Ele chega a ligar 70 vezes por dia e até de madrugada. Também manda mensagens de perfis falsos, com ameaças de morte”.
O fotógrafo contou que mesmo bloqueando os perfis, outros aparecem. “Chegou ao ponto de ter de fechar minhas redes sociais. Fiz 14 boletins de ocorrência e, em junho, consegui na Justiça uma medida cautelar de afastamento. No entanto, ele vem descumprindo”.
Polícia alerta para exposição
Os casos de perseguição pelas redes sociais e aplicativos de mensagens também têm chegado à Polícia Civil. O titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), delegado Brenno Andrade, reforçou os cuidados com a exposição de alguns dados, como o de localização em que a pessoa está.
“Muitas pessoas fazem stories nas redes sociais marcando locais onde frequentam com habitualidade, onde estão naquele momento. Isso pode ser um caminho para criminosos saberem a rotina, locais que costumam ir”.
A orientação, segundo o delegado, é não fazer essa divulgação em tempo real dos locais em que frequenta. É possível fazer as postagens em outros horários.
Ele ainda frisou que, na maior parte das vezes, as vítimas de crimes de stalking são mulheres perseguidas por ex-companheiros, além de outras situações envolvendo problemas até de trabalho.
O delegado Brenno Andrade reforçou que redes sociais como Facebook e Instagram são as mais usadas para as perseguições, na maior parte das vezes com a criação de perfis falsos.
O que fazer
Rede de apoio
– Forme rede de apoio, com familiares e amigos que possam ajudar. Também informe sobre a situação para eles.
Sem interação
– Não interaja com o agressor, pois isso pode reforçar o comportamento dele.
Dados pessoais
– Não divulgue dados pessoais: evite publicar telefone, endereço e local de trabalho ou estudo. Também evite marcar locais em que está nas redes sociais em tempo real.
Bloqueio
– Bloqueie o contato: evite que ele consiga te contatar e o denuncie às redes sociais.
Provas
– Guarde provas: tire “prints” ou grave todas as possíveis evidências da perseguição. Áudios e imagens são fundamentais.
Ocorrência
– Registre a ocorrência na polícia.
Fonte: Especialistas e Polícia Civil.