A pandemia deixou sequelas, não só na área da saúde dos brasileiros, mas também na educação. Quase dois anos de escolas fechadas ou aulas remotas resultaram em perda de aprendizado em todas as idades, principalmente na alfabetização.
Para recuperar o que não foi absorvido pelos alunos e colocar o Brasil no ranking dos melhores países em educação, será preciso mudar a forma de ensinar, transformando a escola em portadora de sonhos de futuro. É o que defende a diretora do Centro de Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas, Cláudia Costin.
Ex-diretora Global de Educação do Banco Mundial e ex-ministra da Administração e Reforma do Estado, ela defende que as escolas devem munir os alunos não só de conhecimento, mas também alimentar sonhos e mostrar que o que é aprendido pode ser usado para conquistar aqueles desejos.
– A Tribuna: O que é uma educação pública de qualidade?
Claudia Costin: Podemos nos inspirar no objetivo do desenvolvimento sustentável número quatro, que coloca que uma educação de qualidade quer dizer resultados de aprendizagem para todos. Ou seja, equilibrar excelência com equidade.
– Existe um caminho para chegar nesse ponto?
Em tempos que percebemos que precisamos nos basear em evidências científicas, temos de olhar o que os países de bons sistemas educacionais fizeram para garantir essa qualidade.
Se olharmos, por exemplo, para os 40 primeiros colocados no Pisa, que é um exame internacional que é aplicado a jovens de 15 anos, vamos notar que eles não têm, como nós, 4 horas de aula. Eles têm uma jornada letiva de turno único, a escola integral. As crianças e adolescentes ficam na escola de 7 a 9 horas por dia.
E não é só tendo aula ou depositando conteúdo na cabeça dos alunos. São aulas, clube de ciências, clube de danças, atividades esportivas, ou seja, eles têm uma vida escolar bem mais rica que a nossa.
Além disso, os professores têm dedicação exclusiva a uma única escola, não passam o dia percorrendo diferentes municípios e escolas para completar sua carga horária. Eles ficam o dia inteiro na mesma escola e lá eles conseguem colaborar com seus colegas, planejar juntos, corrigir trabalhos e ter ações de tutoria com seus alunos. Isso faria uma grande diferença na educação brasileira.
– Muitas dessas medidas já estão na Base Comum Curricular (BNCC). O que está faltando?
Olha, não vai ter bala de prata! Ou seja, não tem uma medida mágica. Mas, progressivamente, ir colocando escolas em turno único e tornar a profissão de professor mais atrativa, para começar esse processo.
Hoje, os salários dos professores são baixos, eles têm de trabalhar em escolas diferentes, e porque há um diminuto reconhecimento social da profissão. O que não acontece nos bons sistemas educacionais.
Outro ponto importante é a educação infantil de qualidade. Há muitas pesquisas que mostram o impacto que uma atenção na primeira infância pode ter na aprendizagem futura dos alunos. É importante ter boas creches e pré-escolas, mas também é fundamental ter políticas públicas que ajudem e apoiem na primeira infância.
Com isso, no futuro, vamos poder nivelar diferenças de origem socioeconômica no desempenho escolar no futuro.
– Quais são as propostas inovadoras para as escolas de tempo integral?
Em primeiro lugar, trabalhar a ideia de projeto de vida do aluno. Olhar para esse aluno, não como alguém que recebe sem criticar o conteúdo, onde os professores despejam a matéria durante 4 horas e depois cobram em uma prova. Mas olhar como um portador de sonhos de futuro.
Todo aluno, desde criança, tem sonhos de futuro, que depois vão se transformando à medida que ele vai sendo exposto a informações sobre o que pode ser construído com a sua vida. A escola tem de ser uma portadora de sonhos de futuro.
Os professores deveriam ter um tempo reservado para mentorar seus alunos, para converter esses sonhos em projetos de vida. E esse jovem entender que o que ele aprende na escola é instrumento para construção do seu futuro.
– A pandemia afetou bastante a educação no Brasil. Como vamos recuperar para ter essa educação de qualidade?
Olha, não vai ser fácil! Por isso, a profissão de professor não é para amador (risos).
O que vamos ter de fazer agora é, não só ter, eventualmente, um horário para reforço depois da aula. Os que mais precisam de reforço escolar, acabam não tendo a chance de ficar na escola após o seu turno.
Vamos ter de começar a migrar para escola em tempo integral, para ter tempo dentro da aula para esse reforço. E, enquanto isso ainda não é feito, ter dentro do próprio turno em que o aluno estuda, mais professores em sala e material que o apoia para que essas lacunas e insuficiência de aprendizagem possam ser endereçadas.
Uma das estratégias que vem sendo adotada em outros país é organizar grupos dentro da sala por nível de aprendizagem, especialmente em Matemática e Língua Portuguesa, que são competências básicas que vão estar presentes nas outras disciplinas.
– Aplicando essas medidas, vamos ter resultados de aprendizado rápidos?
Primeiro precisamos agir rápido, para ter resultados em médio prazo. Não será em um ano que esses problemas vão se resolver. Quanto mais rápido a gente agir, melhor será.
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quem é
Claudia Costin
– Fundadora e diretora do Centro de Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas, CEIPE FGV.
– Foi Diretora Global de Educação do Banco Mundial e, em 2019, membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
– É professora visitante da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard, tendo lecionado também na PUC-SP, no Insper e na Enap (Canadá).
– Foi ministra da Administração e Reforma do Estado.