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“Eu tenho câncer e ele disse que era trauma de infância”

Com um lenço na cabeça por causa da queda de cabelo proveniente de sessões de quimioterapia e sem deixar de lado a fé em Deus, uma comerciante, ...

Última atualização

 (Foto: Leone Iglesias )Com um lenço na cabeça por causa da queda de cabelo proveniente de sessões de quimioterapia e sem deixar de lado a fé em Deus, uma comerciante, decepcionada com uma terapia alternativa a que foi submetida, quebrou o silêncio de quase um ano, e ontem fez uma denúncia ao Ministério Público Estadual (MPE-ES).

Sua decisão foi tomada dois dias depois que uma reportagem foi publicada em A Tribuna, com alerta de médicos sobre pacientes que estão largando tratamentos com comprovação científica por outros procedimentos que não têm reconhecimento médico. A terapia a que a comerciante se submeteu não é reconhecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A denúncia ao Ministério Público foi feita pelo site do órgão de forma anônima, o que é permitido.

Lutando contra a doença desde 2012, ela, que tem 49 anos e pediu para ter sua identidade preservada por conta de sua denúncia, disse que conseguiu um encaixe para ser avaliada por um voluntário que atende em um centro social em Cariacica, ligado a uma paróquia.

Sem abandonar o tratamento médico, a mulher procurou o centro social acompanhada da irmã. Mas, para sua surpresa, durante a sessão, o voluntário teria revelado que ela não tinha câncer, mas sim uma infecção na pleura (membrana que recobre o pulmão) por causa de um trauma de infância.

“Ele começou dizendo: ‘Essa infecção foi algum trauma que você teve’. Aí, perguntou se eu tive algum trauma de infância. Eu disse que não lembrava de nada”.

Segundo a comerciante, o voluntário dava palpites para tentar achar a causa do problema. “Aí, eu disse: ‘Minha mãe teve um problema no parto’. Imediatamente, ele respondeu: ‘Foi isso. Você traz esse problema de lá’”, contou.

“Nessa hora, ele disse que eu estava precisando de um abraço e perguntou se eu me importava de tirar o sutiã e me pediu para eu dar um abraço na minha irmã. Já estava de calcinha e sutiã, e atendi o seu pedido”, relatou ainda.

Toda a esperança cedeu lugar à decepção, já que ela sabia que tinha câncer. “Em 2012 tive tumor na mama e voltou a se manifestar em 2016, na pleura. Hoje está nos ossos, no fígado.”

 (Foto: Leone Iglesias)

“Poderia não estar aqui neste momento”

A Tribuna – Por que decidiu ir até esse voluntário?
Comerciante – A gente, quando descobre a doença, se apavora e quer fazer tudo na tentativa de cura. Uma amiga minha tinha falado desse voluntário. Como falou que era da pastoral, de uma paróquia de Cariacica, decidi ir, junto com a minha irmã.

O que aconteceu lá?
Sentei em um banquinho, tinha muita gente, acho que passei umas duas horas esperando. Na verdade, foi um encaixe. A farmacinha estava a todo vapor, vendendo remédios. Eram pessoas com várias doenças, não só câncer, que vinham de todos os lugares. No começo eu achei que era uma coisa de muita fé e me animei, mas depois fiquei abalada.

O que aconteceu na sala?
Contei o que estava acontecendo e ele (voluntário) me pediu para eu tirar a roupa, ficar de calcinha e sutiã. Tinha uma menina sentada, e minha irmã acompanhava tudo. Aí ele começou com um ferrinho, que ia passando no meu corpo e mandando essa menina anotar em uma ficha.
Quando terminou, falou: “Você não tem câncer. Tem uma infecção na pleura”. Um absurdo!

Mas a senhora tinha o diagnóstico de que era câncer?
Tinha todos os exames. O que também me desanimou é que, por ser uma coisa de Deus, eu esperava chegar lá e ter uma oração, mas em nenhum momento ele tocou no nome de Deus, não fez nenhuma oração. Isso me deixou retraída. Eu cheguei lá mancando porque o meu médico achava que eu estava com problema no nervo ciático. Meses depois, descobri que era uma metástase (quando um câncer se espalha) no quadril. Quando eu falei para o voluntário que não estava conseguindo pisar, ele me mandou deitar em uma maca e passou um óleo na minha perna e começou a fazer massagem até a minha virilha. Sentia muita dor.

Ele tocou em seu corpo?
Só nessa massagem. Mas foi constrangedor quando ele me pediu para tirar o sutiã. Depois de falar que o meu problema não era câncer, mas uma infecção na pleura por causa de um trauma de infância, ele pediu para eu e minha irmã nos abraçarmos por alguns segundos.
Estava nervosa com aquela situação, mas fiquei ainda mais desesperada quando ele me perguntou com quem eu me tratava. Quando falei o nome do meu médico, ele deu um soco na parede e falou: ‘Esse médico só põe quimio, só quer ganhar dinheiro’”.

Ele te pediu para suspender o tratamento médico?
A minha irmã fez essa pergunta e ele disse: ‘Isso a gente deixa a cargo da pessoa decidir.’ Ele passou uma lista de remédios naturais, garantiu que iria curar a infecção e falou que em um mês eu deveria voltar, mas não voltei. Ainda fomos na farmacinha, comprei quase R$ 100. Ele passou líquidos, pozinhos, ervas, e disse que alguns eram para depressão e infecção. Mas quando cheguei em casa, joguei tudo no lixo. Em casa, tive uma crise nervosa, vomitei, desmaiei e fui parar no hospital.

Por que se calou por um ano e agora decidiu denunciar?
Eu bloqueei isso na minha cabeça, mas agora decidi pedir que se investigue essa conduta, pois a minha preocupação é com as pessoas que estão buscando essa terapia e largando o tratamento. Médicos fizeram o alerta para esse fato e vocês denunciaram. Imagina se eu tivesse parado o meu tratamento? Se tivesse parado, poderia não estar aqui neste momento. O meu objetivo é alertar as pessoas para que elas não parem. Podem até fazer a terapia alternativa em paralelo, mas parar o tratamento, nunca!

Tem fé que será curada?
A minha doença não tem cura, mas eu tenho fé de virar uma doença crônica, como uma diabetes. A medicina está muito avançada e quero viver o máximo que puder com qualidade de vida. Quero ver o meu filho (de 14 anos) crescer, se formar, se casar.

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