Esquecer as chaves de casa ou onde colocou o celular e se distrair no meio de uma conversa são comportamentos comuns. Mas, para cerca de 164 mil pessoas no Espírito Santo, a falta de concentração e as falhas de memória se tornaram um sério problema que causa prejuízos na escola, no trabalho e em relacionamentos.
O número representa os 4% da população do Estado diagnosticados com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), com base em estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A psiquiatra Karen Vasconcelos explica que ter dificuldade em manter o foco em uma atividade específica, por si só, não é sinônimo de TDAH. “O déficit de atenção pode acontecer em outras condições, incluindo outros transtornos psiquiátricos, como a depressão”.
O TDAH é considerado um dos transtornos psiquiátricos com maior influência genética, segundo o psiquiatra Fábio Olmo. “A combinação de fatores genéticos e ambientais resulta em uma alteração na estrutura e no funcionamento das áreas do córtex cerebral, fazendo com que o transtorno se manifeste”.
A psiquiatra Janine Moscon frisa que o transtorno não é apenas derivado do excesso de estímulos ou de tecnologia. “Estima-se que entre 3% e 5% das crianças possuam TDAH, mas a prevalência pode ser maior. Os três sintomas principais são desatenção, hiperatividade e impulsividade”.
Tais sintomas são comuns em crianças em idade escolar, lembra a neurologista infantil Karenina Goldberg. “É comum que percam o foco, sejam agitadas ou tenham dificuldade de não agir de forma impulsiva. A chave para diferenciar e identificar um transtorno é a frequência e a intensidade dos sintomas, e o impacto disso na vida delas”.
O psiquiatra Valdir Campos destaca que o transtorno afeta pré-escolares, crianças, adolescentes e adultos.
Mas o adulto manifesta sintomas diferentes das crianças, conforme observa o psiquiatra Valber Dias. “Como tem dificuldade de se manter atento e focado, ele perde a capacidade de resolver problemas e acaba criando problemas de relacionamento e até no trabalho”.
Escolas podem ajudar a identificar sinais de alerta
Os sintomas de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) na criança, geralmente, são identificados na fase escolar. Por isso, professores e coordenadores podem ajudar a identificar os sinais de alerta.
O psiquiatra Vicente Ramatis, da Unimed, pontua que o TDAH pode se apresentar de formas diferentes. “Há crianças que desenvolvem só o transtorno de déficit de atenção, que não tem a hiperatividade; aqueles que apresentam só a hiperatividade; e outros que têm os sintomas combinados, desatenção e hiperatividade”.
As escolas, atualmente, estão mais sensíveis para situações que podem ser identificadas com TDAH, segundo a doutora em Educação Edna Tavares.
“As características do transtorno aparecem nos primeiros anos da infância. O ritmo do aprendizado pode ser mais lento, pois o aluno tem dificuldade de se concentrar e inquietude, com movimentos de pés, mãos ou dedos”.
Há famílias, de acordo com Edna, que não aceitam as indicações da escola e não consideram o TDAH como um transtorno a ser investigado e tratado.
A pedagoga Cláudia Laet salienta que é mais difícil reconhecer os sintomas nas meninas.
“Geralmente, elas não apresentam problemas de comportamento e, por isso, a escola não desconfia. O diagnóstico só é feito quando começam a apresentar baixo rendimento, mas isso pode demorar anos, porque uma pessoa com TDAH não tem problemas cognitivos. Ela tem dificuldade de se concentrar”, frisa a pedagoga.
A neurologista infantil Karenina Goldberg lembra que as escolas devem realizar adaptações para facilitar o dia a dia das crianças.
“São adaptações garantidas pela Lei Estadual 11.076, de novembro de 2019. Nessa lei, há garantia de que a pessoa com TDAH tenha lugar reservado na primeira fila de assentos, afastado de janelas ou outros elementos que sejam possíveis potenciais de distração, por exemplo”.
Tratamento e violino
O modelo e estudante Davi Ameixiera, 11, tem diagnóstico de TDAH desde os 3 anos, quando começou a fazer acompanhamento e tratamento com uma equipe multidisciplinar.
Os pais dele, Mira Ameixiera, 47, e Daniel Ameixiera, 47, dizem que o filho sempre foi agitado, desde pequeno, e tinha muita dificuldade, principalmente para dormir. “Além do tratamento, o violino e a música ajudaram muito, já que ele tem de focar para aprender as notas. Brincamos que é o remédio natural dele”, conta a mãe.
Impulsividade
O estudante Arthur Goldberg, de 8 anos, começou a apresentar sintomas de agitação e impulsividade, além de dificuldades de se concentrar, que foi percebida pela mãe, a médica Karenina Goldberg.
“A parte comportamental dificultava muito o relacionamento com os colegas e os irmãos. Quando entrou no 1º ano na escola, a dificuldade ficou mais evidente. Ele faz tratamento desde os 7 anos, e está muito bem! Ele é alegre, criativo, desenha muito bem, e é sempre cheio de empatia pelas pessoas, sempre tentando ajudar”, relata Karenina.
“Não é o fim do mundo”
O universitário Antônio Emerick, 23, conta que, na escola, era muito hiperativo e descumpria todas as regras. Ele tinha 13 anos quando recebeu o diagnóstico de TDAH e começou o tratamento. Seu desempenho melhorou muito e, hoje, está na faculdade de Medicina.
“Para quem tem TDAH, acreditem, não é o fim do mundo. Buscando o tratamento adequado e seguindo corretamente as recomendações, você pode chegar longe. Fiz cursinho, achava que nunca ia passar, mas com todo o desempenho, passei para Medicina e já estou no 7º período”.
