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“Fiquei chocado ao ver o que a polícia descobriu”, diz diretor do filme de Flordelis

O ano era 2009. Um elenco abarrotado de globais – que iam de Cauã Reymond a Deborah Secco – topava gravar o filme “Flordelis - Basta uma Palavra para ...

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Cineasta Anderson Corrêa dirigiu há cerca de 10 anos filme que conta a história da adoção de filhos da deputada (Foto: Kaidja Fernandes/AT)

O ano era 2009. Um elenco abarrotado de globais – que iam de Cauã Reymond a Deborah Secco – topava gravar o filme “Flordelis – Basta uma Palavra para Mudar”, contando a história da mulher evangélica que adotava dezenas de crianças, livrando-as do crime e dos perigos na rua. Uma história de cinema.

Cerca de 10 anos depois, a mulher, agora uma deputada federal, é ré acusada de mandar matar o marido, o pastor Anderson do Carmo, executado com mais de 30 tiros. Sete, dos mais de 50 filhos adotados da deputada, estão presos envolvidos no crime.

A história de Flordelis se cruza com a de um recente morador do Espírito Santo. Em Vila Velha desde junho, mora Anderson Corrêa, 43 anos. Cineasta com 18 anos de carreira, ele dirigiu o filme e a seguir fala do assunto: “Não podia imaginar que ela mataria uma barata”.

A Tribuna – O jeito de ser de Flordelis (a deputada interpretou ela mesma no filme) de 2009, no set de filmagens, em nada correspondia o das manchetes atuais?
Anderson Corrêa –
Flordelis e Anderson eram um casal perfeito, pleno. E ela tinha essa questão religiosa, doce. Eu não tinha relação anterior com ela, ao contrário do idealizador do filme, Marco Antônio Ferraz. Mas por tudo que eu vi agora, fiquei espantado, chocado. E fiquei chateado. Você não espera que uma pessoa como ela, que adota criança, é contra o tráfico, enfrenta criminosos pelos meninos, fazer o que fez. Foi um choque.

Como ela agia?
Era superobservadora, carismática, tranquila, calada. Falava com todo mundo, mas muito recuada. Ela era muito obediente na questão da direção, mas dava uns toques: “Olha, foi dessa forma que aconteceu, e não dessa. Quando fulano atravessou a rua, foi assim.” Lembro de tudo como se fosse hoje: não tinha margem para duvidar nada. Falo com veemência: nunca poderia imaginar. Se bobear, achava mais fácil o marido dela matar ela, do que o contrário. E nunca vi briga dos dois durante os dois anos de filmagem.

O inquérito aponta ela como uma mulher que tentava envenenar o marido e manter relações sexuais com filho adotivo. A que se apresentava no set mantinha qual postura?
Sempre mantinha uma postura de mulher meiga, com uma palavra religiosa. E acolhedora. Não tem nada que me fizesse pensar que ela poderia matar uma barata. E sempre me mostrou grata pelo filme. Mas muito calada. Era um “oi, tudo bem?” e não puxava assunto. Quando algo podia dar errado, ela falava: “Deus está no caminho, já deu certo”.

Logo, o que se revela hoje é um susto para todos…
Até mesmo pelas vestes dela, pela atitude. Só era presente se fosse chamada. Sem estrelismo, sem dar trabalho. Sempre com uma palavra para amenizar, confortar. Os filhos mais velhos trabalhavam também: um era motorista, outro segurava cabo e as meninas também, levando almoço. E ela, mesmo quando não atuava, estava presente.

O inquérito diz que os filhos estavam envolvidos na trama de assassinato. Como era o comportamento?
Sempre muito carinhosa. Tratava com intimidade: “Mamãe”, “Filinha, vem cá”, Filinho, pega um copo d’água para mãezinha”.

Acha que a Flordelis de 2020 já era assim em 2009 ou houve uma ruptura?
O trem saiu do trilho. Não sei explicar, se é questão de poder que transforma as pessoas. Penso: depois de 10 anos, o que aconteceu para a pessoa sair da curva, assumir outra personalidade?

Ninguém recebeu cachê pelo filme, certo?
Certo. O pastor assumiu o papel de produtor executivo, conseguiu permuta com equipamentos, foi um filme totalmente beneficente. Ninguém ganhou dinheiro com a aquilo. E foi aquela Flordelis que eu comprei a história.

Como você se sente?
Quando você vê uma relato desse, da história de uma pessoa que você comprou o barulho, se envolveu, deu o melhor, não recebeu cachê, pensa: em quem vamos confiar? Depois de um casamento de 20 anos, a pessoa que mata o marido? No fundo, a gente percebe que não conhece ninguém. Não sabe do que o ser humano é capaz.

Bate arrependimento?
Não é a palavra ideal. Aquele foi um momento. Mas, se fosse hoje, bateria uma desconfiança. Mas ganhei experiência de vida, profissional.

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