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Gari brilha como modelo, mas quer ser policial

Luiza Scrivani, de 24 anos, divide a rotina entre posar para fotos de moda e trabalhar na limpeza de ruas

Luiza Scrivani diz ser adepta da vida saudável

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Na varrição pelas ruas de Guarapari ela é notada como a gari simpática  que distribui sorrisos por onde passa. Nas horas vagas, o uniforme é substituído por roupas de  diferentes lojas da cidade e a modelo entra em ação. 

Aos 24 anos, Luiza Scrivani, que  diz ter orgulho do trabalho na limpeza pública, divide sua rotina de gari com a de modelo e ainda treina pesado para realizar o sonho de  ser policial militar. 

“Em 2018 eu passei no concurso da Polícia Militar, mas reprovei no TAF (Teste de Aptidão Física) e, por isso, decidi ter uma vida mais saudável e praticar atividade física.  Comecei fazendo musculação, depois migrei para  calistenia (método de treino com o peso do corpo) e hoje faço CrossFit”, contou.

“Além disso, amo correr na praia e faço acompanhamento com nutricionista para manter a boa forma e chegar mais preparada para a prova física”.  

Na cidade onde Luiza mora, os garis são concursados. A jovem foi aprovada no concurso da Companhia de Melhoramento e Desenvolvimento Urbano de Guarapari (Codeg) feito em 2019. Ela passou em 4º lugar. 

 













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“Comecei a atuar em 2020 e, em um ano e meio, já passei em algumas turmas como capina, praia e hoje estou em uma turma de varrição, que é uma turma de bairro. Na época eu tinha um trabalho que eu gostava bastante, em uma academia da cidade, mas como era somente um salário mínimo, decidi fazer o concurso”.  

Luiza conta que fez a inscrição incentivada pelo marido. “Ele se inscreveu e me incentivou também. Ele passou em 11º lugar, mas recebeu uma proposta melhor na empresa em que  trabalhava e  decidiu ficar na iniciativa privada”, lembra a gari.

 O trabalho como modelo teve início há seis anos, quando Luiza decidiu ajudar uma amiga que vendia roupas. “Eu fazia sessão de fotos quando as  mercadorias novas  chegavam. As fotos divulgavam as  peças da loja. Fui expandindo para outras lojas e passei a monetizar com as fotos. Hoje faço provador para diversas lojas, faço presença vip para estabelecimentos e divido a carreira de modelo com a de gari”, enfatiza.


Luiza Scrivani,  gari e modelo

“Ame a vida que você tem”


Questionada pela carreira de gari, Luiza Scrivani, de 24 anos,  ressalta que é muito grata pelo trabalho que desempenha, mas ressalta que está se preparando para realizar  o sonho de ser policial.  

A Tribuna: O julgamento de que você deveria seguir outra carreira te incomoda? 

Luiza Scrivani: Uma frase que me define é “Ame a vida que você tem, enquanto constrói a vida que você sonha”. Trabalhar como gari não é o trabalho dos meus sonhos, mas é o trabalho que me permite realizar muitos outros sonhos pessoais. Sou muito grata pelo meu trabalho. Em  pouco tempo conquistei muitas coisas. Comprei minha  moto, troquei  de celular, tirei minha habilitação pagando à vista,  fora as outras coisas.  

 E paralelamente estuda para passar em outro concurso?

Na minha cabeça é um degrau. Estou aqui hoje e vou dar o meu melhor valorizando o meu trabalho. A gratidão abre portas. Porque quando a gente deixa de olhar as coisas com gratidão, a gente passa a entrar em um mundo de reclamação muito grande e de comodismo. Hoje tenho minha casa, minha família, saúde e um  emprego estável. Eu sonhava com isso, e hoje eu tenho. 

Quando assumiu como gari, chegou a sofrer preconceito? 

Eu não digo preconceito, mas vejo que  as pessoas se espantam porque  parece existir um estereótipo da profissão. Geralmente as pessoas esperam que o gari seja uma pessoa mais velha, com pouco estudo, e quando se deparam com uma pessoa mais nova, que conversa com todo mundo e cumprimenta quem passa pela rua, isso  se torna diferente. Algumas pessoas me dizem “era para você estar modelando” e eu respondo que sou modelo também.  

Você é conhecida pelas ruas como uma pessoa  simpática, sorridente e que cumprimenta a todos. É uma forma de ser educada com as pessoas? 

Eu tenho como princípio que educação não pode ser seletiva. Ao ser educada, você precisa ser educada com todo mundo. Com o gari, com o porteiro do seu prédio, com a moça da limpeza da sua empresa. Eu sinto que as pessoas, em geral,  são educadas  somente com quem pode  retribuir algo. 

Aí quando se depara com alguém inferior, não faz questão de ser educada. E isso não é educação. Eu sinto um prazer enorme em falar com todas as pessoas que eu vejo e cumprimento todo mundo mesmo. Mas não é sempre que as pessoas me cumprimentam.  

 A população de  forma geral trata o gari como um ser invisível?

 Se cada um fizesse sua parte em relação ao respeito alheio teríamos um mundo melhor. As pessoas não dão valor ao trabalho do gari. É um trabalho que enquanto está sendo feito ninguém percebe. Mas se você deixar de fazer, todo mundo percebe e  reclama.  É importante que as pessoas tenham mais respeito, mais empatia e mais carinho ao passar por um gari. 

Não é um trabalho fisicamente fácil. Quando a gente recebe um bom dia, boa tarde, quando se está acostumado a ser invisível na sociedade, isso muda o nosso dia. É preciso pensar no próximo e fazer cada um a sua parte.

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