Uma das mais tradicionais comunidades quilombolas do Espírito Santo, a localidade de Monte Alegre, em Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Estado, reúne lendas e “causos de assombração”, que até hoje provocam arrepios em seus moradores.
A aposentada Maria Laurinda Adão, de 76 anos, mestre de caxambu (dança afro-brasileira), conhece vários mistérios que mexem com o imaginário da população.
Uma delas é a da “cobra de leite”, que, segundo a lenda, subia na cama, durante a noite, e mamava nos seios da mãe, no lugar do bebê.
Maria Laurinda é bisneta do Negro Adão, escravo que tinha o dom de escapar do tronco à noite, para participar das festas e namorar as negras de outras senzalas. “Ele fazia uma oração forte e o cadeado se abria”, afirma.
Os feitos do Negro Adão viraram lenda. Certa vez, contou Maria Laurinda, ele matou uma grande cobra surucucu de madrugada. Ao saber disso, o patrão, que até então não conhecia seus poderes místicos, nunca mais o prendeu.
Outro caso misterioso é do Mangula, um feiticeiro que vivia no meio da mata e teria poderes sobrenaturais. Moradores diziam que ele era perverso e fazia mandingas, principalmente, para crianças que passavam sem pedir benção. Muitos tinham medo de passar perto de sua casa.
O sobrenatural parece algo comum para os moradores antigos da vila. A aposentada Neuma Verediano, 74, conta que seu bisavô conseguia atravessar o ribeirão, mesmo cheio, sem molhar as calças.
“Ele só dobrava a calça e atravessava. Devia ter uma fé muito grande, pois o único que andou sobre as águas foi Jesus, mas meu pai, que contou a história, não mente”, relatou a aposentada.
Caçada ao cavaleiro fantasma

“O cavaleiro passava aqui todo dia. Uma mulher chamou os moradores para cercar o cavalo, mas ele passou, derrubou a mulher e foi embora. Passou um tempo e ela acabou morrendo”, comentou.
Alguns moradores chamavam o cavaleiro de “Boiadeiro Fantasma”, devido ao chapéu que usava. Outros deram o apelido de “Ventania”, pois corria igual ao vento.
Rimbo lembra que, na sua juventude, as estradas eram bem estreitas, não havia luz. Algumas vezes, a iluminação feita por lamparina. Ver fantasmas era comum.
Uma vez, ele passou por um homem de chapéu, perto de uma porteira. Depois soube que era o “Velho Mangula”, que já havia morrido há muito tempo.
No distrito de Pacotuba, Monte Alegre tem 700 habitantes e mantém vivas suas raízes culturais, trazidas da África com os escravos. Com a abolição, alguns negros da Fazenda Monte Alegre, que deu origem à comunidade, ganharam pedaços de terra ou continuaram como empregados, morando na região.
Você conhece outras histórias de assombração da vila na edição deste domingo (8) do jornal A Tribuna.
