O álcool é frequentemente utilizado, por alguns, para lidar com emoções difíceis. Com tantos sentimentos para administrar durante a pandemia, problemas inesperados e, ainda, a restrição às atividades físicas, ocorreu um aumento no consumo de bebida alcoólica.
O problema preocupa especialistas. Para eles, esse será o novo desafio da pandemia, já que, muitas vezes, esse comportamento leva a outros vícios, como abuso de drogas ilícitas e medicamentos, por exemplo, que também tiveram consumo elevado em 2020 e 2021.
Estudo da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), divulgado no Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, 20 de fevereiro, aponta que 74% dos brasileiros beberam durante a pandemia, e 42% beberam de forma pesada em algumas situações.
Os quadros de ansiedade aumentam em mais de 70% as chances de que as pessoas bebam de forma mais pesada.
“A pandemia provocou o aumentou de casos de transtorno de ansiedade, transtorno depressivo e mudanças no padrão do sono. Em consequência disso, as pessoas passaram a consumir mais bebidas alcoólicas e cigarro, além de recorrerem a substâncias ilícitas, como maconha e cocaína”, cita o psiquiatra Jairo Navarro.
A psicóloga Camilla Viana diz que tais vícios são formas encontradas para anestesiar temporariamente a dor emocional. “Entretanto, não são soluções duradouras, já que a raiz do problema não está sendo verdadeiramente tratada. Este será um desafio a ser enfrentado nos próximos anos, pois as consequências da pandemia tendem a perdurar”.
Tais reflexos fazem parte do que os pesquisadores e estudiosos estão chamando de quarta onda da pandemia, que é o aumento de doenças e transtornos mentais devido aos impactos da covid.
“A quarta onda começou já na primeira semana da pandemia de covid e vem numa crescente. As consequências são o aumento de novos casos de transtornos mentais, alguns já identificados e outros que ainda não foram identificados ou reconhecidos”, explica o psiquiatra Valdir Ribeiro Campos, presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (Apes).
Ele ressalta ainda para, a médio prazo, a piora de transtornos mentais já conhecidos, como ansiedade e depressão, e para o aumento do consumo de álcool.
Mais riscos de depressão entre recuperados de covid
Muito ainda se estuda sobre os efeitos do novo coronavírus em quem teve a covid-19. Mas, pesquisas já mostram que eles podem ser longos e diversos entre os que superaram a doença, como reflexos na saúde mental.
Pessoas que se recuperaram da doença, mesmo aquelas que não precisaram ser hospitalizadas, têm probabilidade maior, de 60%, de sofrerem problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão.
É o que mostra um estudo publicado pela revista científica British Medical Journal, coordenado pela Universidade de Washington em St. Louis, nos Estados Unidos.
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“Há também impactos na qualidade do sono, estresse, transtornos de adaptação e declínio cognitivo. A covid-19 causa um processo inflamatório sistêmico e o cérebro também é acometido por fatores neurotóxicos, que geram transtornos mentais e manifestações neurológicas”, explica a psiquiatra Carolina Coser, da Rede Meridional.
Dor no luto das mortes pelo vírus
Durante os dois anos de pandemia milhares de pessoas passaram pela dor da perda de um familiar pelo novo coronavírus. Apesar de serem mais de 14 mil mortes pela covid no Estado, a dor é única e as consequências da perda são sentidas de forma diferente até mesmo dentro de uma casa.
A auxiliar de cozinha Ariana Bastos da Vitória, de 34 anos, ainda chora sempre que fala do marido, Tiago Oliveira Passos, que morreu aos 32 anos, vítima de covid.
Foram vários anos de casamento e agora, além de precisar superar a dor da perda do marido, Ariane tenta ser forte para cuidar das três filhas, Ana Clara, de 17 anos, Clarice, de 14 anos, e Lara, de 4.
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Mas, além das dificuldades do dia a dia, porque teve de voltar a trabalhar fora de casa depois de quatro anos, Ariane sente que a saúde emocional da família está muito prejudicada.
“Minhas filhas se fecharam completamente. Não conseguem expressar o que estão sentindo e não gostam de falar sobre o pai. A Lara, a mais nova, diz que o pai está morando no céu. Percebi que ela ficou muito sensível, chora por tudo e adoece com frequência”, conta.
Em lágrimas, ela cita que, mesmo depois de quase um ano da morte do marido, ainda não teve tempo para pensar em seus próprios sentimentos. “Está muito difícil! Nem consigo pensar em mim agora. Há muita coisa para resolver. Ainda nem acredito que isso aconteceu”.
A endocrinologista e estudiosa do Estilo de Vida Marina Pazolini alerta que ter uma vítima de covid na família está ligado a um risco elevado de declínio da saúde física e mental e implicações adversas mais amplas para o bem-estar social, econômico e de relacionamento dos indivíduos.
“A covid-19 pode render uma segunda onda de preocupações com a saúde da população, relacionadas ao luto e às reduções de apoio social. O peso do luto das mortes pela doença será maior do que o número de mortes. Cada morte deixa cerca de nove vezes mais enlutados, entre avô, pai, irmão, cônjuge ou filho”.