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Inspiração do mar vira arte nas mãos de pescador

Aos 70 anos, José Luiz Ramos, morador de Guarapari, faz sua paixão pela natureza e sua rotina na pesca virarem arte em telas

O pescador José Luiz transforma suas memórias do mar e do dia a dia na Aldeia de Perocão em quadros, num universo artístico inspirado na natureza

Última atualização

A vida simples do pescador José Luiz Ramos é feita de idas e vindas ao mar, da venda dos seus pescados e da convivência com a família e os amigos da Aldeia de Perocão, em Guarapari. Um universo de inspiração que virou arte. 

 













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Aos 70 anos, é na tela que ele expressa toda sua paixão pela natureza. Sem estudos, e tendo feito somente até a 3ª série do ensino fundamental, “Zé Dubú”, como é carinhosamente conhecido, passou a desenhar as paisagens que o encantavam durante as pescarias. 

“A natureza é a coisa mais linda que existe. E nossa mente é como um computador: tudo que vemos e que nos marcam de alguma forma fica arquivado ali na memória.  São essas imagens que eu passo para as telas”, revela.  

Desde novo, a praia se tornou uma verdadeira tela real para o pescador. No início, as imagens que gravadas em sua memória eram desenhadas na areia da praia. Um dia, universitários da Ufes que estavam passando pela praia do Boião viram os desenhos de Zé e perguntaram se ele não tinha uma tela para pintar. 

O pescador respondeu que nunca havia tido contato com tela, e acabou ganhando o primeiro cavalete e as primeiras telas desses universitários.  “Disseram que iam me dar de presente, mas eu não imaginei que pudessem trazer mesmo. E eles trouxeram. Eu guardo o cavalete até hoje”. 

As telas chamam atenção pela riqueza nos detalhes, e são esses traços diferentes que levam o pescador a vender as obras. Ele conta que guarda em um pen drive todos os quadros já vendidos.

Eles são pintadas no quintal da casa do pescador, onde a calçada é dividida com o mar.

Alguns turistas chegaram a comprar as telas de Zé por R$ 600, e foram eles próprios que dão o valor. O pescador conta que já foi aconselhado a não vender as telas para que elas possam ser valorizadas em uma exposição.  

“Mas aqui, nessa vida simples que vivo, acabo vendendo quando aparece alguém que paga o preço mais justo. Vendo por R$ 600, R$ 700. Tem gente que quer comprar por R$ 50, mas eu não vendo porque não paga os custos que tenho de material. Hoje, só tenho dois quadros em casa”.


 “Terapia” em desenhos com caneta e papel

Além dos quadros coloridos, as folhas em branco do caderno de desenho que o pescador “Zé  Dubú” ganhou da nora são usadas para expressar a arte na ponta de canetas esferográficas comuns.

 













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O artista pescador expressa tudo o que vê no mar. “Faço o que eu vejo, as paisagens do dia a dia, e até me arrisco em misturar  assuntos”.

Zé revela que a arte é como uma terapia. Os desenhos no papel ele faz  com uma frequência maior, já os quadros levam dias. “Tem que ter calma, estar bem com você. Se você está bem, consegue dominar o que quer. Mas se não estiver, não vai dar certo. Eu sempre espero esses momentos. Se tenho que trabalhar, ir para o mar, não tenho como me concentrar nos quadros. Por isso eu começo a pintar, paro e volto  dias depois”, revela.  

O pescador conta que  aprendeu no mar essa busca pela calma e o momento certo.  “No mar estamos sujeitos a tudo. Já peguei um mero de 280 kg no mergulho. Já coloquei para dentro do barco um tubarão de 200 kg e 126 dentes. Quando você se concentra no que vai fazer e mantem a calma, é possível dominar o que parece impossível”.

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