- Vitória, ES 22°C

Anúncio
Cidades

Famílias do Espírito Santo esperam mais de 20 anos por herança

Especialistas alertam que disputas judiciais prolongadas podem desgastar as relações familiares e elevar os custos do processo

Alexandre Dalla Bernardina disse que não são raros os casos de inventários que se prolongam por décadas

Última atualização

00:00
Modo claro
Modo escuro
A+ A-

Entre disputas por imóveis, dinheiro e até objetos de valor sentimental, a falta de acordo entre herdeiros pode transformar a partilha de bens em uma longa batalha judicial.

Embora não exista um prazo máximo para a conclusão de um inventário, advogados relatam que no Espírito Santo há famílias que chegam a passar mais de 20 anos tentando dividir heranças deixadas por parentes falecidos.

O problema não se restringe a famílias anônimas. Quase quatro anos após a morte de Pelé, em dezembro de 2022, os familiares do Rei do Futebol ainda enfrentam pendências judiciais relacionadas à divisão da fortuna deixada pelo ex-jogador.

Especialistas em Direito de Família e Sucessões alertam para as consequências de disputas judiciais prolongadas, que podem desgastar as relações familiares e elevar os custos do processo.

O advogado, procurador do Estado e doutor em Direito das Sucessões Alexandre Dalla Bernardina destacou que não são raros os casos de inventários judiciais que se prolongam por décadas.

“Já acompanhei situações em que a partilha do patrimônio se arrasta há mais de 25 anos, muitas vezes em razão de divergências entre os herdeiros quanto à forma de divisão do patrimônio e à avaliação e administração dos bens”.

Um caso emblemático, segundo ele, envolve uma família de seis irmãos, cujo patrimônio era constituído por imóveis rurais, especialmente fazendas, e participações em empresas.

“As divergências entre os herdeiros impediram que a sucessão fosse concluída e comprometeram a própria administração do patrimônio. Ao longo dos anos, as propriedades rurais sofreram um processo de deterioração, as lavouras deixaram de ser renovadas e as empresas perderam competitividade, tornando-se obsoletas”.

Ele ressalta que a forma mais eficaz de enfrentar esse problema é a prevenção, por meio do planejamento sucessório realizado ainda em vida. “Quando a pessoa organiza previamente a destinação de seu patrimônio, utilizando instrumentos como testamentos, doações e sociedades patrimoniais, reduz possibilidades de conflitos”.

A advogada especialista em Direito de Família e Sucessões Flávia Brandão revelou que um dos casos que atuou foi um inventário em que a família precisou de 22 anos para terminar.

“Essa família em questão chegou a brigar até por um porta-retrato de prata. Eram três irmãos e um excelente patrimônio, mas a inimizade financeira não deixou acontecer uma divisão em curto tempo. E aí pequenas coisas se tornaram grande briga”.

Saiba mais

Demora

A falta de acordo entre os herdeiros sobre a avaliação dos bens, a forma de divisão e sua administração está entre os principais motivos que fazem inventários durarem décadas.

Sem prazo máximo

Não há um prazo máximo absoluto para a conclusão de um inventário. Embora a legislação estabeleça prazos para abertura e encerramento, eles podem ser prorrogados.

Quem administra os bens?

Enquanto o inventário não é concluído, o patrimônio fica sob a responsabilidade de um inventariante. Em situações de paralisação do processo por problemas na administração, o juiz pode nomear um inventariante de fora da família.

Uso dos imóveis

O uso dos imóveis deve respeitar os direitos dos demais herdeiros. Quem utiliza um imóvel da herança pode ser obrigado a pagar aluguel aos outros sucessores.

Venda de bens

Herdeiros não podem vender individualmente bens específicos que integram o espólio.

Prejuízos

A demora pode provocar deterioração de imóveis, desvalorização de veículos, perda de competitividade de empresas e aumento das despesas com manutenção. Inventários prolongados podem gerar gastos elevados com honorários advocatícios.

Como evitar conflitos?

O planejamento sucessório, realizado ainda em vida, pode reduzir disputas futuras. Entre os instrumentos estão testamentos, doações e a constituição de sociedades patrimoniais, respeitados os direitos dos herdeiros.

Disputas por heranças de famosos

Marcos Paulo

A herança do diretor Marcos Paulo, que morreu em 2012, foi alvo de disputa entre Antonia Fontenelle, com quem manteve um relacionamento estável entre 2005 até sua morte, e as filhas do ator. A disputa se deu em razão da existência de dois testamentos.

O primeiro, de 2005, determinava que o patrimônio deveria ir para as filhas Mariana, Giulia e Vanessa. O segundo, de 2006, colocava Fontenelle como herdeira principal. Após anos de disputa, em 2019 a Justiça determinou que Fontenelle deveria receber parte da herança.

Gugu Liberato

Cinco anos após a morte do apresentador Gugu Liberato, sua família chegou a um consenso sobre a divisão de sua herança, avaliada em R$ 1,4 bilhão. Gugu morreu em 2019, deixando em testamento 75% de seu patrimônio para seus três filhos. Os outros 25% foram destinados a cinco sobrinhos. A mãe dos filhos de Gugu, Rose Miriam, não foi mencionada no testamento, o que deu início a uma batalha judicial.

Wando

O cantor morreu em 2012 e deixou um patrimônio avaliado em mais de R$ 10 milhões. A fortuna virou alvo de disputa de nove pessoas, entre filhos, netos, uma irmã e duas ex-companheiras.

Como o artista não deixou testamento, a divisão dos bens gerou um impasse prolongado. Em 2022, a psicóloga Renata de Vasconcelos conseguiu provar que vivia uma união estável com o artista. Com isso, ela passou a ter direito à parte da herança.



Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.