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“Isolamento é uma boa chance de vencer insônia”, disse especialista em medicina do sono

A pandemia do novo coronavírus mudou a rotina de muita gente e as consequências já estão sendo sentidas. Por conta do isolamento social, a ansiedade, ...

Simone Prezotti diz que é preciso desacelerar e evitar uso excessivo de celular próximo ao horário de dormir

Última atualização

A pandemia do novo coronavírus mudou a rotina de muita gente e as consequências já estão sendo sentidas. Por conta do isolamento social, a ansiedade, o estresse e a incerteza em relação ao futuro fizeram a insônia interromper o sono de milhares de pessoas.

Simone Prezotti diz que é preciso desacelerar e evitar uso excessivo de celular próximo ao horário de dormir (Foto: Thiago Coutinho - 28/8/2018)Mas os dias em casa são justamente uma boa oportunidade para mudar de vez a rotina e melhorar o sono, segundo a pneumologista especialista em Medicina do Sono Simone de Oliveira Prezotti.

“É a grande oportunidade que temos de colocar uma nova rotina em prática e vencer a insônia. Dormindo melhor, melhoramos a nossa imunidade, nosso humor e nossa disposição. São muitos benefícios”, afirmou a especialista.

Mas como conseguir ter uma noite de sono tranquila em meio ao caos? Simone garantiu que é possível e conversou com a reportagem de A Tribuna para dar algumas dicas.

A Tribuna – É normal que a insônia se apresente com mais força nesta época de pandemia e quarentena?
Simone de Oliveira Alvarenga Prezotti – Sim, principalmente por conta do estresse, da preocupação e do medo que esse momento traz. Além disso, existe a falta de rotina, pois as pessoas não estão indo trabalhar, perdem seus horários e não fazem mais atividades físicas.

Também contribui o uso excessivo do celular, ainda mais nesse momento em que ele é muito mais utilizado para se informar e se conectar com outras pessoas.

A Tribuna – Até mesmo quem não tinha insônia está tendo agora?
Simone de Oliveira Alvarenga Prezotti – Acaba atingindo quem não tinha e quem achava que não tinha. Por exemplo, quem dorme tarde e acorda cedo para trabalhar pode achar que dormia tarde por conta das condições sociais da rotina. Mas agora está percebendo que não é isso, pois, mesmo fora da rotina, continua dormindo tarde.

A Tribuna – É possível acabar com a insônia justamente nesse momento em que o problema tem aparecido mais?
Simone de Oliveira Alvarenga Prezotti – O isolamento é uma boa chance de mudar a rotina e vencer a insônia. É a grande oportunidade que temos para colocar isso em prática.

A Tribuna – Como?
Simone de Oliveira Alvarenga Prezotti – A principal recomendação é ter regularidade com o horário de dormir e acordar. Na nossa vida normal, com a rotina, temos sinalizadores sociais, com horários estabelecidos de comer e dormir. Mas muitas vezes eles não são compatíveis com a qualidade do sono.

Agora que estamos mais em casa, temos a liberdade de estabelecer esses horários de maneira mais tranquila. A pessoa pode determinar para ela mesma: vou dormir às 22 horas e acordar às 7 horas, por exemplo.

A Tribuna – Mas como conciliar essa mudança no isolamento para quando a quarentena acabar?
Simone de Oliveira Alvarenga Prezotti – Estabelecer uma rotina durante o período de confinamento vai permitir que o corpo se acostume com esses novos horários, que precisam bater com sua rotina normal. É preciso se dedicar a isso. Acordar sempre na mesma hora e desacelerar no horário em que é preciso dormir. Temos a oportunidade de colocar nosso relógio em dia.

A Tribuna – Cochilar durante o dia é bom ou atrapalha o sono da noite?
Simone de Oliveira Alvarenga Prezotti – Cochilar depois do almoço é saudável, mas por um tempo curto, de 40 minutos no máximo. Agora, existe a oportunidade de fazer isso, então é importante fazer, mesmo que depois (da quarentena) você não consiga manter. O que não pode é dormir a tarde inteira ou várias vezes ao dia.

A Tribuna –  O celular está sendo ainda mais utilizado nessa quarentena. Por que o aparelho é prejudicial para o sono?
Simone de Oliveira Alvarenga Prezotti – Por duas questões. A primeira é a luminosidade. O tipo de luz dos dispositivos eletrônicos entra pela nossa retina e vai direto para nosso cérebro, enganando ele e dizendo que “ainda está de dia e é hora de ficar acordado”.

A luz inibe a produção de melatonina, hormônio que inicia o processo de sono. Com a exposição à luz, demoramos mais para sentir sono. Além disso, o conteúdo que a pessoa está acessando no celular influencia no sono. Principalmente nessa época, há muito conteúdo que traz estresse, medo e discussão com outras pessoas, além de ansiedade.

A Tribuna – O que fazer em relação ao celular?
Simone de Oliveira Alvarenga Prezotti – Devemos ser mais rigorosos e desligar um tempo antes do horário de dormir. O ideal é entre uma e duas horas antes. É preciso desligar totalmente. É difícil, mas precisamos evitar o uso, pois quem consegue tem um ganho enorme na qualidade do sono.

A Tribuna – O que a insônia pode causar para a pessoa?
Simone de Oliveira Alvarenga Prezotti –Quando dormimos mal ou pouco, várias coisas podem ir mal na saúde. Neste momento em que vivemos, a principal é a imunidade. Dormindo bem, melhoramos nossa imunidade.

Quem tem insônia tem mais chance de ter infecção viral. Já quem dorme bem, adoece menos e até mesmo reage melhor às vacinas. Além disso, interfere no humor, no bom relacionamento, na empatia, tolerância, capacidade de memória e concentração. Dormindo bem, tudo isso fica melhor.


PERFIL


Simone de Oliveira Alvarenga Prezotti 
– Pneumologista especialista em Medicina do Sono;
– Ex-presidente da Associação Brasileira de Sono no Estado;
– Formada em Medicina na Ufes, fez residência em Pneumologia e doutorado na Universidade de São Paulo (USP).

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