A esperança por dias melhores foi renovada para uma família após um procedimento inédito no Estado. Uma jovem se submeteu, na manhã de ontem, a uma cirurgia para reconstrução do crânio, utilizando placa de titânio impressa em 3D.
Larissa Simões Alves, de 24 anos, foi atropelada por um ônibus em 2014, próximo à Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), quando atravessava na faixa de pedestre para ir à aula do curso de Arquitetura. Ela sofreu um traumatismo craniano gravíssimo, segundo médicos, e desde então luta pela vida.
Agora, segundo o neurocirurgião do Vila Velha Hospital e professor da Ufes, Walter Fagundes, que acompanha o caso desde o acidente, “foi a primeira vez que houve uma cirurgia no Estado para reconstrução de crânio, utilizando uma placa de titânio”.
“A prótese foi moldada de acordo com o perfil craniano da jovem, que teve a retirada de em torno de 15 cm de ossos para aliviar a pressão intracraniana. A falha óssea havia sido corrigida com duas próteses de acrílico, mas houve uma infecção, que é a rejeição do material”, explicou o neurocirurgião.
Segundo Fagundes, essa nova placa possibilita melhoras na coordenação motora da paciente, que atualmente, não fala e nem anda. “A placa dá condições e mais esperança para melhoras na coordenação motora e cognitiva”, disse.
A placa foi confeccionada especificamente para Larissa, a partir de um exame de tomografia com reconstrução em 3D.
“Ela já vem pronta da fábrica para ser encaixada e fixada de forma perfeita na falha óssea. O rosto dela voltou ao que era antes do acidente. Na falha óssea, o osso não cresce. A prótese faz papel de osso, protegendo o cérebro”, disse.
Agora, a expressão de alegria, para os pais, o técnico em contabilidade, Leonardo de Oliveira, 47, e a mãe, Rutilea Lauret Simões, 46, representa uma das vitórias pela vida da filha, depois de uma longa e árdua caminhada.
“Nem acredito que vamos levar minha filha para casa amanhã (hoje). Estamos há dois anos com ela em casa, e foi um ano de processo para realizar essa cirurgia pelo plano de saúde. Temos esperança de que agora realmente vai dar certo?”, disse Leonardo.
“Sentimento de alívio e de novo desafio”, disse Rutilea Lauret Simões, mãe de Larissa
O sorriso estampado no rosto da dona de casa e mãe da estudante, Rutilea Lauret, 46, se resume à cirurgia realizada com sucesso ontem.
A Tribuna – Como era Larissa antes do acidente?
Rutilea Lauret – Uma filha muito alegre. Ela só sabia sorrir e a nossa esperança está em ver esse sorriso novamente, após a cirurgia. Ela participava da igreja, tocava violão na banda. Vivia para Deus e para a família. O sonho dela era ser arquiteta e morar em Boston, nos Estados Unidos. Namorava também há dois anos. Mas o acidente mudou todo esse cenário.
Qual é a importância dessa cirurgia para ela e a família?
É sentimento de um novo desafio com alívio. Ela já passou por três cirurgias em quase cinco anos. Quando ela se acidentou, demorei a entender que eu tinha uma Larissa diferente. Sem a prótese era difícil e doloroso. Agora estamos vendo um rosto perfeito e lindo, preenchido, sem deformidades. Não tem preço que pague isso. Essa cirurgia vem com a ideia de melhorar toda a parte cognitiva, ela pode voltar a falar. Agora, acredito que ela vai conseguir aprender tudo novamente.
Como é a comunicação com sua filha?
Após o acidente, ela perdeu todos os sentidos, inclusive a fala. Estudei sobre o assunto e aprendi a me comunicar pelo piscar. Quando ela entende, ela pisca duas vezes como um sim, quando diz não, pisca somente uma vez. A gente se comunica assim até hoje. Não vou dizer que é 100%, mas é o que temos, mas me dá uma tranquilidade maior.
De onde vem toda a força?
De Deus, da fé. Quando eu entrei em depressão, após o acidente, fiquei internada mais de 50 dias em clínica psiquiátrica. Mas vejo a nossa família como guerreira. Minha filha é a primeira a fazer essa cirurgia no Estado, isso é de Deus, é uma benção. Vejo que está abrindo uma porta para novas possibilidades de recuperação. Na primeira cirurgia em 2014, foi falado que ela tinha menos de 1% de chance de sobrevivência, e hoje estamos aqui.
O acidente
Em cima da faixa de pedestres, Larissa Simões Alves, que na época tinha 19 anos, foi atropelada e arremessada por oito metros por um ônibus, na avenida Fernando Ferrari. A estudante estava indo em direção à Ufes, onde cursava Arquitetura.
Sua vitalidade foi interrompida no dia 29 de setembro de 2014, por volta das 7h30, e desde então, a data virou pesadelo. “Testemunhas falavam que ela estava aguardando os carros pararem, nisso, o ônibus não parou, e ela estava com fone de ouvido, e sofreu a forte pancada”, explicou a mãe, Rutilea Lauret Simões, 46.
Segundo a mãe, Larissa, passou mais de quatro meses no hospital. “Foi um baque, ela sofreu um trauma craniano gravíssimo. Ela tinha menos de 1% de chance de sobrevivência. Chegou a ficar quatro meses na época em UTI, sendo 26 dias em coma”, disse.
O pai, técnico em contabilidade, Leonardo de Oliveira Alves, 47, ainda lamenta a situação, e acredita que poderia ter sido evitada. “Quando alguém é atropelada, todo mundo sofre. Todo mundo foi lesado, mas o mesmo motorista que acabou com a vida dela está dirigindo. Ela é um ser humano e o acidente acaba com a família e com os sonhos”, lamentou.
