Ela foi embalada por canções desde o ventre da mãe, toca cinco instrumentos musicais e já compõe. A música sempre fez parte da vida da estudante Sara Luisa Amorim da Rocha, 15 anos, que mora em Cariacica. Não à toa, esse foi o assunto escrito por ela na redação vencedora do País.
É dela a melhor carta da 48ª edição do Concurso Internacional de Redação de Cartas, promovido pela União Postal Universal e realizado no Brasil pelos Correios. Agora, ela concorre ao prêmio de melhor redação do mundo, em disputa a ser realizada em Berna, na Suíça.
Pela primeira vez, uma capixaba conquistou o título nacional e representará o País no exterior. Sara recebeu a notícia no colégio Marista Nossa Senhora da Penha, em Vila Velha, onde cursa o 1º ano do Ensino Médio com bolsa de estudos.
“Não esperava. Eu já tinha ficado muito feliz em ganhar a etapa estadual, agora estou mais ainda com o nacional. A internacional está nas mãos de Deus”, afirmou. Os prêmios que ela receberá são, respectivamente, as quantias de R$ 2 mil e R$ 5 mil.
Em 2019, o tema da redação era “Escreva uma carta sobre o seu herói”. Sarah respondeu que a música era a sua heroína e explicou o porquê. “A música é minha heroína no sentido emocional, porque consegue tocar as pessoas”.
Para exemplificar o poder das melodias, a jovem contou ainda a relação dela com a filha da melhor amiga de sua mãe, a quem considera como uma irmã, que tem Síndrome de Down. “Vejo como a música age no desenvolvimento dela, pois já consegue pronunciar algumas palavras, responder perguntas e, se você ensinar uma canção, ela vai aprender. É incrível!”
Filha de músicos, Sara pensa em seguir a carreira musical, mas também cogita cursar Medicina. Segundo a mãe, Fabiana Amorim, 43, que é professora de musicalização, a filha já ganhou um tablet e uma bicicleta em concursos anteriores. “Ela sempre gostou de escrever. Todo Natal nós damos um livro de presente. É o que a gente pode fazer para contribuir para o futuro dela: a leitura e o estudo”, relatou, com orgulho.
A vice diretora educacional do Marista, Vilmara Mendes, disse que o colégio está muito contente com o resultado e que incentiva a escrita de redações. “Estamos colhendo os frutos. Prova disso é o texto dela”. Confira a entrevista completa abaixo.
Qual foi a sua reação ao saber do resultado?
Foi uma surpresa! Eu não esperava. Fiquei muito feliz. Foi importante porque, no momento, eu estava com os meus amigos e minha mãe. Então, foi muita alegria.
Você gosta de escrever?
Sim, eu escrevo desde criança. Uma tia me dava diários onde eu contava sobre o meu dia a dia. Porém, eu comecei a escrever com mais sentimento e emoção.
Já tinha participado desse concurso antes?
Este ano foi a primeira vez que eu me inscrevi e já saí vitoriosa.
Quais são suas disciplinas favoritas?
Eu gosto de muito de Matemática, Física e Biologia. Tenho um pouco de facilidade em aprender esses conteúdos e os professores também ajudam.
O que você gosta de fazer para se divertir?
Sair com os meus pais para ir ao cinema e passear com os meus amigos. Amo tocar! Se pudesse, passava o dia só tocando.
Quais instrumentos musicais você toca?
Eu toco piano, bateria, violino, teclado e flauta. Agora estou fazendo aula de saxofone também.
O que você pretende fazer com o dinheiro do prêmio?
Eu acho que vou guardar boa parte do dinheiro para investir na minha faculdade. Penso em dar aula de música, mas também gosto da área biológica e da ideia de cuidar das pessoas.
Gostaria de deixar uma mensagem?
Quero falar, principalmente para os alunos, que, independente da condição financeira, eles sempre devem acreditar que são capazes de realizar os seus sonhos.
Leia a carta na íntegra:
Se você está lendo esta carta, aconselho-a a se sentar e a abrir sua mente e seu coração. Hoje, vou lhe apresentar o meu herói, ou melhor, a minha heroína. Ela é onipresente, está em todos os lugares, em cada pessoa, em cada respirar e expirar. A música. Ela é a minha heroína. Pode parecer loucura, afinal, ela não é bem uma pessoa, mas mesmo assim, seus poderes superam os de todos os heróis que já existiram e existem. Vou explicar melhor.
Surpreenda-se, nenhuma pessoa tem um cotidiano em que a música não esteja presente. O barulho de um ventilador, um carro passando, o choro de uma criança e até mesmo o silêncio – tudo é música, tudo pode se tornar música. O meu amigo Beethoven pode confirmar isso. Mesmo após ter ficado totalmente surdo, ele conseguiu transformar seu silêncio em música. E mais: quando foi diagnosticado com a doença degenerativa da sua audição, ele pensou em cometer suicídio, não o fez, declarando certo tempo depois: “Foi a música que me salvou”.
A música é como um farol na escuridão, um rio no meio do deserto, a esperança no meio da perdição. Ela é a salvadora das mentes angustiadas, dos corações sofridos e das almas perdidas. É o seu próprio compasso melódico em um tom de sinfonia. É sua própria ouvinte nas melodias, com emoção, ouvidas.
Um herói cuida de situações que, aparentemente, são impossíveis ou apresentam grande dificuldade e que precisam de muito empenho e de determinadas virtudes para serem resolvidas. Normalmente, os desenhos animados focalizam aqueles heróis que resolvem problemas relacionados a desastres naturais e à destruição da Terra e da raça humana. Mas você já parou para pensar que, na vida real, nossos heróis não passam de pessoas comuns? Afinal, qualquer um pode ser herói. Você pode ser um herói. Sendo assim, por que a música se destaca?
A música nos faz sentir emoções, pois toca o nosso interior e o nosso subconsciente, agindo diretamente no nosso estado biológico. Atualmente, muitas pessoas (com destaque para os jovens) se conectam à música quando estão tristes, angustiados, sofrendo… quando estão doentes, tanto espiritual e emocionalmente quanto física e mentalmente. Isso acontece por um simples motivo: a música cura!
Eu vejo isso todos os dias na minha irmãzinha. Logo ao nascer ela foi diagnosticada com síndrome de down, ou seja, teria um desenvolvimento lento se comparada às demais crianças. Porém, assim que ela completou um ano, eu e minha família percebemos que ela, de alguma forma, interagia com a música, e foi aí que passamos a ensiná-la canções infantis. Ela desenvolveu a fala e a parte física, pois a música a estimulava a dançar. Hoje, minha irmã ainda tem dificuldades para falar, mas a música fala por ela. É por meio da música que minha irmã vive.
Com base na minha experiência familiar, posso dizer que a música cura as pessoas que as buscam, permitindo que elas vivam em harmonia e em equilíbrio emocional e pessoal. Por isso eu reafirmo: a música é a heroína das heroínas e o herói dos heróis.
No mundo contemporâneo, um problema tem se tornado cada vez maior: muitas pessoas querem ser ouvidas, porém poucas estão dispostas a ouvir. O pior é que, normalmente, as pessoas que querem falar não querem ouvir. Diante disso, a música se mostra novamente uma heroína, pois ela nos ouve, sem que precisemos falar; ela nos entender, sem que seja necessário explicar. A música escuta o nosso coração e o nosso pensamento. Ria. Chore. Grite. Pule. Dance. Vivam com ela. Sinta e se conecte à música. Deixa-a ser sua fortaleza, seu baú dos tesouros, seu reino encantado, seu país das maravilhas… Mas não se esqueça: a música escuta as pessoas para que elas também escutem o próximo.
Lembre-se, caro leitor, a música cuida das pessoas para que elas possam cuidar uma das outras e do ambiente ao seu redor. É por esse motivo que ela é uma heroína. Ela promove o equilíbrio e o desenvolvimento emocional e mental e faz coisas surpreendentes acontecerem. A música é tudo e ela está em tudo. Ela é a ligação existente entre as pessoas, a cura procura procurada pelos doentes, a rainha de todas as emoções… é a heroína presente até nas batidas dos corações.
Agradeço a você, caro leitor, pela paciência e atenção. Espero nos encontrarmos mais vezes nessa mesma batida.
